A vida, a labuta e a alegria de Clarice do Mingau contada por José Américo

A comerciante Clarice Souza Santos, popularmente conhecida como “Clarice do Mingau” é uma das personalidades mais queridas de Ipiaú. Ficou conhecida por vender o mais gostoso mingau que já se fez nesta terra. A labuta já se estende por 61 anos.
Diversas gerações reconhecem o seu valor e não são poucas as homenagens à sua pessoa. Até a Câmara de Vereadores expressou reconhecimento concedendo-lhe a “Medalha Altino Cosme Cerqueira”, a mais importante honraria do município.
Trabalho, bondade e honestidade caracterizam a história de vida dessa boa criatura.
Clarisse iniciou sua trajetória comercial ainda criança, vendendo doces na porta da Escola Celestina Bittencourt. Depois lhe arrumaram um cantinho no Ginásio de Rio Novo, onde passou a vender o mingau (de milho e tapioca), que lhe rendeu alguns trocados e muito contribuiu para que fosse incluída definitivamente no folclore da cidade.
Hoje a Barraca de Clarice, na Praça Rui Barbosa, a mais central de Ipiaú, é uma referência de boa acolhida para todos que ali chegam.

Ponto de encontro dos que acordam cedo, pronto socorro dos famintos que perambulam na madrugada, parada obrigatória dos boêmios em fim de farra, lugar aconchegante, onde “rola bom papo” e tem sempre uma novidade.
Um ex-prefeito fanfarrão, sem nenhum conhecimento das tradições ipiauenses, tentou excluir a Barraca de Clarice do cenário da praça. A população reagiu de imediato, expurgou o intento, mostrou que Clarice acumula generosidade e é patrimônio do município.
“E tanta gente a quem ela vendia fiado, hoje tá de anel no dedo, é doutor, é deputado”.
É isso mesmo. A frase da canção “Maria do Colégio da Bahia” do genial Tom Zé, expoente do movimento tropicalista, define a relação de Clarice com as celebridades.
Empresários, fazendeiros, médicos, advogados, atletas, artistas e políticos, dentre os quais o ex-ministro Waldeck Ornellas, a senadora Lídice da Mata (da qual é amiga e entusiasmada cabo eleitoral), o médico cardiologista Jadelson Andrade e o cantor Luiz Caldas, se nutriram com o famoso mingau, que também alimentou os anônimos, os viajantes, os guardas noturnos, os mendigos e tantos outros que um dia passaram pela cidade de Ipiaú ou aqui residem.

Todos eles guardam Clarice, esse anjo bom da madrugada, na mais reconhecida das lembranças.
Aos 10 anos de idade, Clarice foi morar na residência do médico Salvador da Matta. Nesse lar, recebeu boa educação, aprendeu a respeitar o próximo, descobriu os valores da honestidade, bondade, enfim, a ética e a verdade.
“Tive tudo de bom naquela casa. Agradeço a Deus por ter permitido que Dr. Salvador e dona Zélia me criassem como uma filha, me ensinasse a ser uma cidadã de respeito”, conta com honra.
Tais princípios contribuíram para que Clarice estruturasse a sua personalidade e merecesse o sincero reconhecimento da sociedade ipiauense.
Uma pesquisa de opinião pública, aplicada em 2011 pela empresa Jaraújo Publicidade, apontou Clarice como “A Mulher do Ano”. Foi receber o prêmio toda bonita, toda prosa, com direito a flores, buquê de rosas.
“E quantas vezes metida a elegante, num vestido extravagante”, ela ia pela rua, quando a turma perguntava: que roupa é essa tua? Ela alegre respondia: “Meu filho, isso aqui é seda pura, a mamãe vai agora pra um baile de formatura”.
José Américo é escritor e historiador ipiauense
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