

A retirada irregular de areia do leito do Rio de Contas, em Ipiaú, reacendeu um debate que, curiosamente, quase nunca permanece no centro da própria discussão: o meio ambiente.
Nas redes sociais, a operação conduzida pelo Ministério Público da Bahia, com apoio da Polícia Militar e acompanhamento de órgãos ambientais, rapidamente deslocou o foco da questão ambiental para outro campo: o social. Os comentários passaram a girar, sobretudo, em torno da imagem de “pais de família trabalhadores” conduzidos à delegacia, enquanto empresários influentes, historicamente associados a práticas semelhantes, muitas vezes parecem atravessar estruturas de fiscalização e responsabilização com muito menos rigor.
A discussão não é irrelevante.
Existe, sim, uma percepção social profundamente consolidada de seletividade na aplicação da lei. E ela não nasce do nada. O Brasil convive historicamente com diferenças evidentes entre a forma como estruturas institucionais costumam reagir diante de pessoas economicamente vulneráveis e a maneira como frequentemente operam quando os envolvidos possuem influência política, capital econômico ou redes de proteção social.
Em cidades do interior, essa percepção se torna ainda mais sensível porque determinadas práticas acabam sendo naturalizadas ao longo do tempo, sobretudo quando atravessam interesses econômicos locais, relações políticas e estruturas empresariais consolidadas.
Em Ipiaú, há pouca convicção de que a retirada de areia do rio seja uma atividade isolada, episódica ou desconhecida pelas estruturas de poder locais.
Existe uma sensação coletiva de invisibilidade seletiva.
Como se determinadas práticas permanecessem toleradas enquanto circulam dentro de zonas socialmente protegidas.
Ignorar essa dimensão seria produzir uma análise incompleta.
Mas talvez exista um problema ainda mais grave:
O fato de que, no meio de toda essa discussão sobre pobreza, trabalho, desigualdade e seletividade, o rio praticamente desapareceu do debate.
Há pouca discussão pública sobre os impactos ambientais.
Pouco se debate o que acontece com um rio submetido continuamente à retirada irregular de areia.
Também raramente se questiona por que existem licenciamento ambiental, controle mineral, fiscalização hídrica e restrições em áreas de preservação permanente.
A discussão pública parece reduzir tudo a uma única lógica:
“Quem estava trabalhando para sobreviver”.
Mas o ponto central talvez seja outro.
O problema não é apenas quem retira areia do rio.
O problema é uma sociedade que ainda enxerga rios como recursos infinitos.
Existe uma percepção cultural profundamente enraizada de que areia, água, vegetação ciliar e leito fluvial são elementos permanentemente disponíveis para exploração humana, sobretudo quando essa exploração parece pequena, cotidiana e economicamente justificável.
Só que o dano ambiental raramente acontece de forma cinematográfica.
Rios não desaparecem de uma vez.
Primeiro, perdem profundidade.
Depois, margem.
Depois, estabilidade.
Depois, fauna.
Depois, vegetação.
Depois, capacidade de regeneração.
E, quando a sociedade finalmente percebe a dimensão do problema, frequentemente já está diante de um processo avançado de degradação naturalizado durante décadas.
A retirada irregular de areia não representa apenas uma infração burocrática relacionada à ausência de licença.
Ela altera o equilíbrio hidrológico do rio, interfere no fluxo da água, acelera processos erosivos, compromete margens, reduz habitats aquáticos e impacta diretamente ecossistemas inteiros.
O licenciamento ambiental existe justamente porque determinadas atividades produzem impactos acumulativos.
Impactos que, isoladamente, podem parecer pequenos, mas que, repetidos continuamente ao longo dos anos, transformam profundamente a estrutura ambiental de uma região.
Talvez esteja aí uma das maiores dificuldades do debate ambiental brasileiro:
A sociedade só costuma reconhecer destruição quando ela se torna visualmente catastrófica.
Quando há lama.
Quando há seca extrema.
Quando há colapso.
Quando há tragédia televisionada.
Mas degradações lentas quase nunca produzem indignação proporcional ao dano que provocam.
E existe um elemento ainda mais delicado nessa discussão:
A romantização automática da infração ambiental quando ela aparece associada à sobrevivência econômica.
É evidente que desigualdade social precisa ser considerada.
É evidente que trabalhadores vulneráveis ocupam posições muito diferentes das ocupadas por grandes empresários ou agentes economicamente influentes.
É evidente que existe assimetria no peso da fiscalização e na capacidade de defesa diante das estruturas do Estado.
Mas nenhuma dessas constatações elimina a existência do dano ambiental.
Porque o rio não distingue classe social quando sofre degradação.
A erosão não escolhe renda.
O assoreamento não seleciona patrimônio.
A destruição ambiental não produz impactos apenas sobre quem comete a infração.
Ela retorna coletivamente para toda a sociedade.
Talvez o debate mais importante não seja simplesmente quem foi conduzido à delegacia.
Talvez a pergunta mais importante seja:
Por que ainda existe tão pouca consciência ambiental em torno da relação entre desenvolvimento urbano, exploração econômica e preservação dos rios?
O ambientalista Emídio Neto Barreto, ouvido pela coluna, afirmou que a discussão não pode ser reduzida apenas à condição social dos envolvidos, mas deve considerar o caráter coletivo da proteção ambiental. Segundo ele, independentemente de fatores econômicos ou sociais, atividades de exploração mineral, incluindo a retirada de areia, exigem autorização legal, controle técnico e cumprimento de normas ambientais específicas.
Emídio observa que a extração irregular não pode ser analisada isoladamente, sobretudo diante de outras pressões ambientais igualmente relevantes na região, como ocupações às margens dos rios, exploração de cascalho e parcelamentos irregulares de áreas rurais. Para o ambientalista, ações de fiscalização precisam ocorrer de forma contínua, ampla e sem seletividade, evitando a percepção social de que apenas “o lado mais fraco da corda” sofre responsabilização.
Ele também chama atenção para outro aspecto frequentemente negligenciado no debate público: o Areão dos Cometas integra o patrimônio cultural do município e, como tal, deveria estar submetido a mecanismos permanentes de proteção ambiental e patrimonial.
Porque, no fim, o problema não começa apenas quando alguém entra no leito do rio para retirar areia.
O problema começa quando uma sociedade inteira passa a acreditar que a natureza existe apenas para servir, e nunca para ser preservada.
Sobre o autor:
Estudante de Letras pela Universidade do Estado da Bahia, Thomas Leuri Souza atua como escritor, apresentador e entrevistador, documentarista, produtor e diretor audiovisual, além de produtor artístico. Desenvolve seu trabalho a partir do interesse por narrativas que atravessam memória, cultura e experiência social.
É autor do livro “Filho de Angorô: a história de pai Naldo. Criador do canal, Café com Prosa, espaço de diálogo e reflexão que reúne entrevistas e conversas sobre temas contemporâneos, cultura, educação e sociedade, e também do Podcast Narrativas Invisíveis, (Spoify) por meio do qual se dedica a dar visibilidade a histórias frequentemente silenciadas, promovendo reflexões sobre diversidade e inclusão.
No campo do jornalismo, trabalhou no site Editoria Livre e assina a coluna Fora do Script, publicada aos domingos no portal Ipiaú Online
https://ipiauonline.com.br/