Vitória da Alemanha mostra importância do conceito da amplitude no futebol atual
Quatro gols vieram de jogadas trabalhadas pelos lados do campo, com a participação dos dois alas alemães
Dois laterais que jogam bem espetados pelos lados, na mesma faixa de campo. É cada vez mais comum ver equipes do mundo inteiro com esse padrão de ataque, e o passeio da Alemanha sobre Portugal, jogão da Eurocopa, mostra que esses laterais bem abertos, a chamada amplitude, é cada vez mais importante no jogo atual.
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Amplitude vem de "ampliar o campo": ocupar o maior espaço possível de um lado ao outro. O conceito existe desde os primórdios do futebol. Após a criação do WM, alagar o campo e ser opção de jogo no lado era papel dos pontas, ou wingers, que se especializaram em driblar e cruzar. Com o surgimento dos três zagueiros na década de 1980, a amplitude passa a ser dos alas, que viram peça ofensiva de fato.
Gosens Alemanha Portugal — Foto: Reuters
A ideia de alargar o campo para realizar jogadas de linha de fundo ganha outro significado na década de 2000. Isso porque as defesas se tornaram mais compactas e rápidas após a inserção de novos métodos de treinamento por José Mourinho, e o Barcelona de Guardiola mostrou novos mecanismos, como a saída de três, para quebrar essas defesas.
O que se vê desde a Euro de 2008, ou desde a Copa do Mundo de 2010, é que se defender de forma extremamente eficiente, com a defesa bem compacta, negando espaços para que o talento faça a diferença e impondo muitas dificuldades fica completamente acessível. É como qualquer time da Premier League joga contra o "Top 6". É também como Portugal encarou o duelo contra a Alemanha.
Portugal se defendeu com duas bem compactas e um volante entre elas — Foto: Reprodução
A amplitude é uma das muitas formas de quebrar esse paredão na área. A Alemanha jogou com três zagueiros e Kimmich e Gosens tinham um papel declarado de ocupar os lados do campo, fazendo com que Haivertz, Muller e Gnabry ficassem entre os zagueiros portugueses, e Kroos e Gundogan jogassem num setor mais limpo, de frente para Cristiano Ronaldo.
Alemanha teve amplitude o jogo todo — Foto: Reprodução
Mais importante que entender o desenho é entender a lógica dele. O motivo dele acontecer. Muitas vezes, times com bastante amplitude são criticados, mas não se entende a razão de jogarem assim. Vamos a elas:
- Com os laterais bem abertos, os jogadores mais criativos (meias e atacantes) ficam mais próximo da área
- Os atacantes mais rápidos ficam no mesmo setor da dupla de zaga, que tende a ser mais lenta
- E o mais importante: as viradas de jogo "enganam" a defesa e geram espaço na área
Como Portugal não deixava Haivertz ou Muller tocarem na bola sem marcação dupla ou tripla, a Alemanha começou a experimentar o jogo pelos lados. Mas não aquelas tabelas com alguém driblando. A única forma que a Alemanha encontrou de quebrar o bloco defensivo foi com viradas rápidas, que quebraram completamente a defesa de Portugal.
Ao receber a bola pelo lado, Kimmich atrai a marcação do lateral português. Esse movimento, por si só, já gera um espaço, e o ponta português retorna com Muller para cobrir um eventual passe naquela "janela". Só que outro espaço é gerado com a amplitude de Kimmich: o lado oposto, que está sem vigilância alguma, uma vez que toda a defesa de Portugal está atenta para a bola.
Primeiro gol nasce da amplitude de Kimmich, que abre espaço na defesa — Foto: Reprodução
É justamente esse espaço que a Alemanha usou com Gosens, que chegava de surpresa no lado oposto e pegava as "costas" do lateral. A chegada era tão rápida que não dava tempo da defesa portuguesa se reorganizar, e na pressa, a referência da zona era abandonada e todo mundo tentava roubar a bola. Efeito dominó: a área ficava vazia, como no círculo vermelho, com muito espaço para alguém chegar de trás.
Virada de jogo permite que a Alemanha crie espaço na área — Foto: Reprodução
Veja como a amplitude, quando bem usada, tem imensas vantagens: primeiro ela expõe a dupla de zaga ao tirar o lateral da linha defensiva, depois ela faz todo mundo se desorganizar para criar espaço na área, nas costas dos defensores. Aí, aproveitar esse espaço é outra história:
- Atacantes precisam se antecipar, como Haivertz no primeiro gol
- Meias precisam chegar de surpresa, como Kanté e Gundogan fizeram tantas vezes no Chelsea e no City
- O lateral do lado oposto fecha na área e cria uma opção de finalização
Teve de tudo no passeio da Alemanha. O segundo gol nasce de mais uma jogada de amplitude, criada a partir de Rugider para Gosens.
Começa no passe do zagueiro que arma o jogo, padrão também fundamental, com três meias na linha defensiva de Portugal. O desenho abaixo já mostra que a Alemanha vai virar o jogo para o outro lado. Veja que Kimmich e Haivertz estão num setor onde apenas um português protege - justamente o lateral. É uma superioridade numérica que provoca indecisão no adversário, que ao escolher quem marca, deixa alguém livre.
Segundo gol da Alemanha nasceu de um ataque com bastante amplitude — Foto: Reprodução
Na rapidez do cruzamento, o lateral simplesmente esquece Kimmich. Lembra que Portugal, como boa parte das equipes europeias, jogam por zona, e a referência é sempre ficar alinhado com o zagueiro para formar uma linha. A linha está lá, ela apenas é ineficaz porque deixa um lateral completamente sozinho, em condições de finalizar a gol ou fazer outro cruzamento. Dito e feito.
Virada de jogo faz Kimmich ficar livre no segundo gol — Foto: Reprodução
E foi assim o duelo inteiro. Fernando Santos tentou corrigir puxando Renato Sanches para o lado, depois com Jota para aumentar o poder ofensivo que até produziu um segundo gol, mas a Alemanha pintou e bordou na defesa compacta de Portugal, o tempo todo enganada por Gosens.
O ala, que cresceu demais na Atalanta, participou dos quatro gols e fez até um, na mesma jogada: começa por um lado, termina em outro. No terceiro gol, a Alemanha experimenta concentrar muita gente no setor da bola, junto a Kimmich. A defesa de Portugal é levada por aquele lado, tenta roubar a bola e novamente esquece o lado.
Triangulação da Alemanha ajuda a quebrar a defesa de Portugal — Foto: Reprodução
Amplitude, linha de cinco, marcação individual: tudo está conectado.
Com o Barcelona de Guardiola, Busquets ficava entre os zagueiros para formar a mesma linha de três na saída de bola que a Alemanha teve. Daniel Alves e Abidal, depois Jordi Alba, davam a amplitude e conectavam rapidamente Messi ou Iniesta. A resposta das equipes espanholas era se defender como Portugal, com defesas cada vez mais próximas do gol. Atacar ficou cada vez mais difícil. Sofrido. Duro.
A maioria dos times copiou o desenho de ataque, que forma uma espécie de 3-2-5. Hoje, equipes de todas as divisões, em todos os países, jogam assim. Os adversários foram percebendo que a amplitude gerada com os laterais podia ser neutralizada com uma defesa mais longa. É quando surge a linha de cinco defensores, que dá as caras primeiro com Jorge Luis Pinto e Louis van Gaal na Copa do Mundo de 2014 e vira febre após as conquistas da Juventus de Allegri e do Chelsea de Conte.
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A febre dos cinco defensores ficou. Na Eurocopa, Inglaterra, Hungria, Dinamarca e Bélgica jogam assim e colocam cada vez mais dificuldade para a amplitude alcançar seu potencial. Mas o jogo está em eterna mutação, buscando soluções para os problemas que aparecem. Técnicos como Jurgen Klopp, Carlo Ancelotti e Zidane apresentam o antídoto: times com rotações rápidas, muitas triangulações e jogadas que podem começar e terminar pelo mesmo lado.
Klopp e Guardiola — Foto: afp
O Liverpool que venceu a Liga dos Campeões e o Campeonato Inglês era assim, e quando os pontas ou laterais abertos não davam certo, o City de Guardiola não tinha vergonha de jogar no chutão com o goleiro ou no contra-ataque. Chutão não: o goleiro passou a ser mais exigido para "atrair" a marcação, fazer a linha de cinco subir e gerar espaços atrás, conceito que Fernando Diniz aplica no Brasil.
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Outro métodos para neutralizar a amplitude que fez a Alemanha passear contra Portugal é marcar individualmente, como os melhores times brasileiros da história. Sim, porque ocupar os dois lados só faz sentido quando o adversário preenche outro lado. Se a referência é individual, os laterais de Portugal estariam com Kimmich e Gosens, e eles jamais teriam espaço. Equipes como o RB Leipzig e mais precisamente a Atalanta já adotam o procedimento, com campanhas de sucesso.
Ufa! Viu como tudo está conectado? Porque futebol é cíclico!
Um problema gera uma solução, que gera outro problema e produz uma outra solução. No melhor jogo da Euro, a solução da Alemanha para se aproximar da vaga foi usar a amplitude, conceito fundamental no jogo cada vez mais rápido e sem espaço da Euro - e no mundo.
Jornalista, formado em análise de desempenho pela CBF e especialista em tática e estudo do futebol
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