O Partido Democrata conquistou a maioria no Senado e na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos nas eleições de meio de mandato. É a maior derrota de Donald Trump desde que ele voltou à Casa Branca, em janeiro de 2025. A partir de janeiro, o presidente terá de governar com um Congresso de oposição nos dois últimos anos do mandato. As eleições de meio de mandato acontecem a cada dois anos, no meio do mandato presidencial. Desta vez foram renovadas todas as 435 cadeiras da Câmara e 35 das 100 cadeiras do Senado, além de 36 governos estaduais. Na apuração parcial desta manhã, os democratas tinham ao menos 54 senadores. Para ter maioria, precisavam de 51. Antes da eleição, os republicanos tinham 53 cadeiras e os democratas, 47. O partido manteve todas as vagas que já tinha e tomou sete dos republicanos: Texas, Kansas, Carolina do Sul, Ohio, Iowa, Carolina do Norte e Maine. Na Câmara, os democratas já elegeram 228 deputados, dez a mais do que o necessário para a maioria (218). Os republicanos têm 139, e 68 disputas ainda não foram definidas. A bancada democrata pode passar de 240. O mau humor com a economia pesou mais do que qualquer outro tema. Os eleitores puniram o presidente pelo custo de vida, pelas tarifas de importação e pela alta dos combustíveis depois da guerra que os EUA começaram contra o Irã em fevereiro. Segundo o jornal The Washington Post, a derrota tem uma dimensão que não se via desde 1974, quando os republicanos foram castigados pelo escândalo Watergate. Ao jornal The New York Times, Trump disse estar "absolutamente disposto a aceitar" o resultado e trabalhar com a oposição. Dias antes, ele tinha dito que só reconheceria o resultado se a eleição fosse "limpa". Nas redes sociais, porém, ele se eximiu da culpa. Escreveu que, se estivesse na cédula, o partido teria vencido "de lavada". Também culpou a emissora Fox News e o governador do Texas, Greg Abbott, que perdeu a reeleição. Depois publicou a foto de um boné vermelho com a palavra "VETO", um recado de como pretende reagir às leis aprovadas pelos democratas. O que muda a partir de janeiroInvestigações: com o comando das comissões do Congresso, os democratas prometem investigar o enriquecimento da família Trump, as operações contra imigrantes e os arquivos do caso Jeffrey Epstein. Nomeações: o Senado poderá barrar indicados do presidente, inclusive para a Suprema Corte. O jornal The Wall Street Journal diz que o juiz conservador Samuel Alito deve ser pressionado a se aposentar logo, para que um substituto seja aprovado antes da posse do novo Senado. Guerra do Irã: o Congresso não comanda as Forças Armadas, mas controla o orçamento e pode cortar a verba das operações militares. Impeachment: a Câmara poderá abrir um processo contra Trump, mas para tirá-lo do cargo são necessários dois terços do Senado (67 votos), número que os democratas estão longe de ter. Limites da oposição: Trump mantém o poder de veto, que só pode ser derrubado por dois terços das duas Casas. Ele também deve continuar governando por decretos. Os principais recados das urnasFoi um referendo sobre Trump. O presidente pediu aos eleitores ao menos 41 vezes que "fingissem" que ele estava na cédula. Eles fizeram isso. Em outubro, a aprovação de Trump caiu a 33%, a menor da série da pesquisa Washington Post-ABC-Ipsos. Segundo a pesquisa de boca de urna feita para a agência AP e as grandes redes de TV, metade dos eleitores viu a eleição como uma chance de reprovar o presidente, e 70% querem que o Congresso faça mais controle sobre ele. O bolso decidiu. Só 12% dos eleitores disseram que a família está melhorando de vida. Entre quem apontou a economia como maior preocupação, os democratas tiveram 12 pontos de vantagem. Em 2024, esse grupo tinha votado em Trump com 20 pontos de vantagem. A coalizão que elegeu Trump em 2024 se desfez. Os democratas avançaram entre latinos, jovens, católicos, eleitores sem diploma universitário e até entre os homens. Uma pesquisa preliminar do instituto NORC aponta 64% do voto latino para os democratas na Câmara. Na Flórida, uma deputada republicana que venceu por 20 pontos em 2024 terminou a noite com cerca de mil votos de vantagem. A onda chegou aos redutos republicanos. Kansas elegeu um senador democrata pela primeira vez desde 1932, e a Carolina do Sul, pela primeira vez desde 1998. No Texas, o maior reduto republicano do país, os democratas venceram uma eleição para todo o estado pela primeira vez desde 1994. James Talarico ganhou a vaga no Senado e Gina Hinojosa tirou Greg Abbott do governo. Os candidatos escolhidos por Trump perderam. Ken Paxton, procurador-geral do Texas e alvo de vários escândalos, foi derrotado por Talarico. Darline Graham, irmã do senador Lindsey Graham (morto em julho), não tinha experiência política e perdeu na Carolina do Sul. Vivek Ramaswamy perdeu o governo de Ohio depois de veicular um anúncio com a mãe da adversária, de quem ela é afastada. O anúncio foi criticado nos dois partidos. Nem a moderada Susan Collins se salvou: no Maine, ela perdeu a cadeira que ocupava havia quase 30 anos. O dinheiro não bastou. Foi a eleição mais cara da história do país, segundo a empresa AdImpact. Os republicanos gastaram mais em publicidade (US$ 5,45 bilhões, contra US$ 5,02 bilhões dos democratas). Elon Musk, o homem mais rico do mundo, colocou quase meio bilhão de dólares na campanha. A disputa pelo Senado no Texas custou mais de US$ 500 milhões, mais do que qualquer outra eleição fora as presidenciais. O plano para redesenhar os distritos falhou. Os republicanos mudaram os mapas eleitorais de vários estados para ganhar cadeiras na Câmara. Os democratas mantiveram a maior parte das vagas que eram alvo da mudança e ainda ganharam algumas delas. A sucessão de 2028 já começou. A Constituição impede Trump de disputar um terceiro mandato, e ele perde força dentro do próprio partido. Entre os democratas, ganharam destaque os governadores JB Pritzker (Illinois) e Josh Shapiro (Pensilvânia), reeleitos com folga, e o senador Jon Ossoff (Geórgia). Foi uma noite de primeiras vezes. Abdul El-Sayed (Michigan) será o primeiro senador muçulmano do país, e Chris Pappas (New Hampshire), o primeiro senador abertamente gay. Keisha Lance Bottoms (Geórgia) é a primeira mulher negra eleita governadora de um estado. Deb Haaland (Novo México) é a primeira mulher indígena eleita governadora. Do lado republicano, Byron Donalds será o primeiro governador negro da Flórida, uma das poucas vitórias de Trump na noite. O que ainda falta definir Mississippi: a disputa pelo Senado estava com 43 votos de diferença com 96% das urnas apuradas. O estado não tem recontagem automática, que só pode ser feita por decisão judicial. Alasca: o estado usa um sistema em que o eleitor ordena os candidatos por preferência, e o resultado pode levar dias. Trump pediu a cassação da candidata democrata, Mary Peltola. Ele a acusa de ter ajudado a lançar um candidato independente com o mesmo nome do senador republicano, Dan Sullivan, para confundir os eleitores. Kremlin diz contar com Trump como mediador na Ucrânia apesar da derrotaO governo russo disse esperar que Trump continue os "esforços de paz" na guerra da Ucrânia. O porta-voz Dmitri Peskov afirmou que o resultado é um "assunto interno" dos EUA. O enviado americano Steve Witkoff e Jared Kushner, genro de Trump, devem ir a Abu Dhabi na semana que vem para uma nova rodada de negociações entre russos e ucranianos. Os dois lados seguem distantes sobre território e garantias de segurança. No Irã, o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, disse que os americanos votaram "não à guerra". O líder supremo do país afirmou que quem espera uma mudança na política dos EUA "se engana". A China disse estar disposta a continuar cooperando com Washington. O presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, previu uma "nova era" nas relações internacionais. O país foi excluído nesta semana de um acordo comercial dos EUA com a África. |
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