Bets querem usar proibição de Lula para se livrar de patrocínios do futebol que já não davam retorno
Algumas bets querem aproveitar a medida provisória do governo Lula (PT) que proibiu as apostas online para se livrar, sem ter prejuízo, de contratos de patrocínio com os quais já estavam insatisfeitas.
Por outro lado, diante da expectativa de que o veto ao setor não se sustente por muito tempo, outras empresas tentam se organizar para manter seus negócios suspensos durante um período, sem dispensá-los.
Seis pessoas que atuam no setor, tanto do lado das casas de aposta, quanto dos clubes de futebol, descreveram este cenário para a Folha de S.Paulo.
Um caso que já se concretizou foi o da 7k Bet, ex-patrocinadora master do Vitória e que comunicou à diretoria do clube do rompimento do contrato. A reportagem procurou as duas partes, mas não teve resposta até a publicação deste texto.
Exemplo da outra alternativa é o Santos, que teve seu contrato com a Novibet suspenso, não rescindido.
Nos bastidores das negociações, circula a avaliação de que os vínculos de Flamengo com Betano e Corinthians com Esporte da Sorte devem seguir o mesmo caminho. Nenhum dos clubes, nem as bets, quiseram comentar o assunto.
O governo Lula anunciou oficialmente o veto às apostas de quota fixa -o que inclui as apostas esportivas e os jogos online, como cassinos e o tigrinho -na última sexta-feira (25).
A decisão foi liderada por uma ala da campanha eleitoral petista que viu na pauta uma oportunidade para impulsionar o candidato às vésperas do primeiro turno, marcado para o próximo domingo (4), e na iminência de uma corrida eleitoral apertada contra o senador Flávio Bolsonaro (PL).
Estudos apontam as bets como um dos motivos para o alto endividamento das famílias brasileiras, fator por sua vez que tem piorado a avaliação do terceiro governo Lula. Também focando as dívidas, o governo lançou uma nova fase do Desenrola, programa de renegociação.
O veto foi criticado por entidades representantes do setor de apostas e por parte dos clubes de futebol.
Em 2025, esses patrocínios somaram cerca de R$ 1,03 bilhão às equipes da Série A, segundo a consultoria Convocados, o que representou 7,2% das receitas totais de R$ 14,3 bilhões dos times.
O governo chegou a convidar dirigentes da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e das equipes das quatro primeiras divisões do Campeonato Brasileiro para uma reunião, mas a agenda acabou cancelada após os clubes ameaçarem boicotar o encontro.
Agora, clubes e bets mantêm conversas para traçar a melhor estratégia para lidar com a proibição -sob expectativa de que ela seja apenas temporária. As propagandas precisam ser encerradas até 5 de outubro, um dia depois do primeiro turno das eleições.
Nos bastidores, segundo relatos, a expectativa é que o veto seja extinto pelo Congresso Nacional ou derrubado pelo STF (Supremo Tribunal Federal).
Por se tratar de uma medida provisória, seu mérito tem efeito imediato, mas prazo de validade de até 120 dias. Para ser de fato transformado em lei, seu texto precisa ser aprovado na Câmara dos Deputados e no Senado Federal nesse período -caso contrário, caduca.
Parlamentares ouvidos pela reportagem avaliam que o assunto, considerado espinhoso e que envolve interesses privados, não deve ser deliberado pelos congressistas. Se isso acontecer, as bets poderiam voltar a operar no início de 2027.
Outra possibilidade é o Supremo derrubar a validade da medida. A corte foi acionada por entidades do setor e o julgamento está nas mãos do ministro Luiz Fux.
Diante deste cenário, os clubes priorizam medidas imediatas, como tirar de circulação material esportivo com estampas das bets. O Flamengo, por exemplo, já tinha prontas 400 mil peças do uniforme de 2027, fora as roupas deste ano.
"Existe uma conta operacional que começa agora. As fornecedoras de material esportivo já produziram uniformes, planejaram lançamentos e organizaram estoques com as marcas das casas de apostas. Será preciso definir rapidamente como adaptar esses produtos e quem arcará com esses custos, além de rever contratos e buscar novas receitas", diz Fábio Wolff, especialista em marketing da Wolff Sports.
Há alguns fatores que explicam por que, mesmo assim, alguns clubes e bets devem preferir apenas suspender seus contratos. Nos bastidores, agentes comparam o cenário com a Covid, quando este mecanismo foi usado.
Um deles é que a estratégia das marcas para fidelizar o torcedor é de longo prazo. Outro fator é que o posto de patrocínio master é muito cobiçado -bastou o anúncio do governo surgir para a Fatal Model, por exemplo, já se prontificar a pagar mais de R$ 100 milhões a Flamengo e Corinthians para substituir as bets.
No caso do Corinthians, segunda maior torcida do país, a Esportes da Sorte conseguiu vencer a concorrência pelo espaço em fevereiro deste ano, após a antiga patrocinadora ser envolvida em um escândalo de corrupção.
A Esportes aproveitou a oportunidade e fechou um negócio de até R$ 200 milhões por ano, válido até 2029.
A Betano, por sua vez, chegou ao Flamengo, clube de maior torcida do país, no final de 2025, como parte de uma estratégia de crescimento global da marca. Venceu a competição de Sportingbet e Superbet. O acordo atual roda na casa de R$ 280 milhões por ano.
Já a Novibet fechou com o Santos de Neymar no início deste ano, em um contrato de até R$ 85 milhões. As duas partes já chegaram a um acordo para não romper o patrocínio, mas apenas suspendê-lo, e o clube deve recorrer a parcerias pontuais em um primeiro momento.
Os casos, avaliam integrantes do setor, representam planejamentos de longo prazo ou para os quais já foram realizados investimentos grandes, e empresas e clubes devem adotar cautela.
Por outro lado, empresas devem aproveitar a chance para encerrar parcerias que estavam mais próximas do fim.
É o caso da 7k Bet, que tinha vínculo com o Vitória apenas até 2027. O contrato foi rompido sem necessidade de pagamento de multa, em razão da medida provisória.
Em entrevista à Rádio Baiana FM, o presidente do time baiano, Fabio Mota, disse que de uma hora para outra o clube ficou com prejuízo de R$ 45 milhões da 7k previstos para 2027, além de outras placas de publicidade que também não serão mais pagas.
"De uma hora para outra, esse contrato foi extinto. Da forma que foi feito pelo Governo Federal, não permite que você receba a multa e nem a rescisão do contrato", disse.
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Fux, relator do processo que analisa a Medida Provisória (MP) que proibiu o funcionamento das bets no Brasil, acatou, nesta quarta-feira (30), o pedido do Flamengo para participar da ação como interessado.
Dessa forma, o Flamengo ingressa na ação na condição de amicus curiae, expressão jurídica para “amigo da corte”. Nesse formato, o clube não passa a integrar diretamente um dos polos do processo, mas pode apresentar informações e argumentos ao Supremo por possuir interesse ou conhecimento relacionado ao tema.
O pedido foi feito pelo Flamengo nesta quarta-feira. Em nota, o Flamengo afirma que a solicitação foi formulada para que possa "contribuir tecnicamente com o debate, a partir da perspectiva concreta de uma das instituições esportivas diretamente impactadas pela medida".
A MP foi assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na última sexta-feira (25). Pelo texto, as autorizações para exploração das apostas de quota fixa serão extintas após um período de transição, enquanto os sites e aplicativos deverão ser retirados do ar dez dias após a publicação da medida.
Na manifestação apresentada ao STF, o Flamengo argumenta que a medida tem impacto direto sobre as receitas do clube e cita o contrato de patrocínio máster com a Betano. O acordo, válido até o fim de 2028, prevê pagamento de R$ 268,5 milhões por temporada, além de valores variáveis. Ao longo dos 40 meses previstos no contrato, o vínculo pode chegar a aproximadamente R$ 895 milhões.
A ação teve início no STF a partir de pedidos de associações representantes de empresas de apostas no Brasil, a Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e o Instituto Brasileiro do Jogo Responsável (IBJR), que sustentam que a norma pode provocar efeitos irreversíveis antes mesmo de ser analisada pelo Congresso Nacional e pedem que Fux examine a questão de forma imediata.
O Flamengo também solicitou que sua participação seja considerada com urgência e que o clube possa apresentar manifestações, documentos e memoriais, além de participar de eventual audiência pública ou de conciliação.
Além do Rubro-Negro, o Palmeiras prepara para esta semana um pedido ao STF para participar das discussões judiciais contra a MP. A admissão depende de autorização do relator. Até o momento, Fux não se manifestou sobre a possível participação do clube alviverde.
https://www.bahianoticias.com.br/esportes


0 comments:
Postar um comentário