Antes de votar, eu também olho para a boca do Brasil

Por uma escolha política que também considere a saúde bucal como direito
Quando penso nos critérios que orientam minhas escolhas políticas, não consigo separar cidadania da minha profissão.
Sou dentista, cidadã e já conheci de perto a realidade do SUS. Por isso, também observo o que cada político propõe para a saúde e, especialmente, para a saúde bucal.
Para mim, é importante avaliar o combate à corrupção, o fortalecimento e a qualificação do SUS, a expansão do Brasil Sorridente, a valorização dos profissionais de saúde e a coerência entre discurso e trajetória política.
Mas existe uma questão que considero fundamental: saúde bucal não é privilégio. Não é mercadoria. Não é favor. É direito.
A boca não conta apenas uma história biológica. Ela também revela desigualdades.
Por trás de uma cárie pode existir insegurança alimentar, baixa renda, dificuldade de acesso aos serviços de saúde e falta de condições básicas para o cuidado.
Quem tem recursos consegue, muitas vezes, buscar atendimento antes da dor. Quem não tem pode esperar a situação se tornar insuportável. E é assim que ainda encontramos dentes sendo extraídos quando poderiam ter sido preservados.
A extração, muitas vezes, não é o início da história. É o resultado de uma trajetória marcada pela falta de prevenção, acesso e cuidado contínuo.
A perda dentária também produz consequências: interfere na alimentação, na fala, na autoestima, nas relações sociais e até nas oportunidades de trabalho.
Por isso, a odontologia precisa chegar antes da dor, antes da urgência e antes que a extração pareça ser a única solução.
E isso exige políticas públicas.
Exige prevenção, profissionais, estrutura, acesso e continuidade do cuidado.
Como cuidar da boca sem água, moradia adequada, alimentação de qualidade, condições de higiene e acesso a um profissional de saúde?
A doença aparece na boca, mas suas causas podem estar muito além dela. Renda, território, alimentação, moradia, trabalho e acesso aos serviços também influenciam a saúde.
Por isso, como cidadã e dentista, quando analiso propostas políticas, também pergunto: qual é o lugar da saúde bucal nesse projeto?
Não questionar isso seria, para mim, incoerente com o papel social que escolhi exercer.
Porque nenhuma boca é apenas um caso clínico. É uma pessoa, uma história e um direito ao cuidado.
A saúde bucal não é privilégio.
Não é mercadoria.
Não é favor.
É direito.
E, antes de escolher quem nos representa, acredito que devemos olhar não apenas para o que um político promete, mas também para os direitos que defende, suas propostas e a coerência entre seu discurso e sua trajetória.
No meu caso, saúde bucal também faz parte dessa escolha.
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