domingo, 9 de agosto de 2026

Em detalhes, Paulo Magalhães relata a trajetória de Urbano Cem Contos, o último coronel da região de Ipiaú

 


URBANO CEM CONTOS – último “coronel” do Médio Rio das Contas, dotado de expressiva singularidade de força, conduta e prática política.          

Trata-se de um tema, cujo texto se encontra em permanente reelaboração. Urbano de Almeida Neto, ou “Urbano Cem Contos”, deixou de ser um personagem real para tornar-se quase mítico no imaginário de minha infância e adolescência em Ipiaú, em razão dos inúmeros relatos que eu ouvia a seu respeito.

Narrativas que transitavam entre a excentricidade e a implacabilidade, o temor e a obediência, parecendo ter saído da literatura de Jorge Amado ou das telas do Cine Dren e do Cine Éden, cinemas que eu frequentava assiduamente. Eram histórias dignas, inclusive, do realismo fantástico de Gabriel García Márquez.

Entretanto, na busca por essas lembranças, sobreviveu a curiosidade que eu tinha de vê-lo pessoalmente — fosse no Restaurante Zebu, durante as exposições agropecuárias, fosse em seu armazém de cacau, na Rua Sete de Setembro.

Observador informal, assim como meu pai, Francisco de Paulo Magalhães — mascate na década de 1940, percorrendo todo o Médio Rio das Contas com suas quinquilharias no lombo de animais —, costumava comentar, em círculos de amigos, que conhecera Urbano nesse período, precisamente durante o processo de valorização das terras, impulsionado pela elevação dos preços do cacau no mercado internacional. Relatava, ainda, que Urbano, então com pouco mais de vinte anos, já era temido por desafiar as autoridades públicas e por envolver-se em conflitos de limites de terras.

Na primeira metade da década de 1970, li nas páginas do Jornal da Bahia — que chegava, de tempos em tempos, à residência de minha família — uma reportagem na qual um pistoleiro, então preso, apontava Urbano como mandante de crimes. Entre os dias 5 e 10 de julho de 2017, na Biblioteca Pública dos Barris, em Salvador, empreendi uma busca sistemática por essa matéria, examinando todas as edições do periódico publicadas entre 1973 e 1975. O esforço, contudo, revelou-se infrutífero, pois diversos exemplares apresentavam lacunas, com meses incompletos e edições desprovidas de páginas. Cumpre registrar que, anteriormente, já havia realizado pesquisas nas bibliotecas de Ipiaú e de Jequié, igualmente sem êxito. Soma-se a isso a escassez documental sobre sua atuação parlamentar, uma vez que um incêndio ocorrido em novembro de 1978 destruiu parte do acervo da Assembleia Legislativa.

Como se pode notar, localizar determinados vestígios do passado constitui uma tarefa difícil, em razão da precária preservação de documentos e de arquivos públicos. Nesse contexto, interessa-me assinalar a possibilidade de que o estudo empírico ora apresentado, em diálogo com o romance Machombongo, de Euclides Neto — as duas principais referências textuais dedicadas à trajetória de Urbano — possa suscitar o interesse de futuros pesquisadores.

Espera-se que novas investigações, amparadas por diferentes aportes teóricos, metodológicos e documentais, produzam outros discursos, recortes analíticos e problematizações, sob diversos ângulos de observação, ampliando o campo interpretativo e permitindo a reavaliação desse personagem histórico e complexo.

CULTURA CORONELÍSTICA E O IMPACTO NA VIDA POLÍTICA

“Em política não há assassinatos: há remoção de obstáculos”.

João Duque (Cel. de Carinhanha/Vale do São Francisco-BA)

Na historiografia brasileira, há diversas concepções acerca do coronelismo, cada autor(a) enfatizando aspectos distintos de sua construção teórica e discursiva, algumas das quais são imprescindíveis para a presente análise. Maria Isaura Pereira de Queiroz (1976, p. 172) assinala que “os coronéis assim são chamados devido à Guarda Nacional, criada para defender a Constituição desde a época do Império, além de contribuir para a preservação da ordem, impedindo revoltas…”. A autora destaca que a ocupação dos postos, títulos e hierarquias — sendo o de coronel o mais elevado — ocorria de acordo com o prestígio econômico dos chefes locais. Mesmo após a extinção da Guarda Nacional, com a Proclamação da República, a autoridade do “coronel” não desapareceu; ao contrário, intensificou-se e adquiriu novas formas de expressão política.

O jurista Victor Nunes Leal (1997), autor de Coronelismo, Enxada e Voto, obra publicada em 1948 e considerada uma das interpretações clássicas da formação política brasileira, ressalta que não houve vontade política para romper com o coronelismo. Segundo o autor, esse sistema foi se adaptando às novas circunstâncias históricas para garantir sua sobrevivência, “abandonando os anéis para conservar os dedos”. Para Leal, sua dissolução somente seria efetivada com a transformação da estrutura agrária brasileira.

De fato, a ausência de uma reforma agrária no país, capaz de proporcionar emprego, renda e dignidade à população do campo, além de dinamizar as economias locais, constitui um dos principais pilares de sustentação do coronelismo.

Embora tenha deixado de existir, em 1930, como sistema formal de poder e de governo, o coronelismo perpetuou-se sob formas transfiguradas e adaptadas às novas conjunturas políticas.

Ainda hoje, em muitas regiões do país, a posse da terra, associada ao poder econômico, ao prestígio social e a um certo domínio pessoal sobre a população, continua sendo suficiente para que determinados indivíduos sejam reconhecidos como “coronéis”.

Trata-se de uma legitimidade histórico-cultural fundada na capacidade de fazer-se respeitar e de mandar.

Fixado esse ponto, pode-se afirmar que a atuação do deputado fazendeiro e empresário, Urbano de Almeida Neto, iniciada na década de 1950 e estendida por mais de vinte anos, ao utilizar a política como extensão de seu poder pessoal, instrumento de obtenção de vantagens e mecanismo de manutenção da impunidade, contribui para a compreensão de uma modalidade particular de coronelismo, marcada por características próprias e expressivo poder regional.

Sua influência alcançava uma microrregião que abrangia Ipiaú, Jequié, Jitaúna, Itagi, Aiquara, Dário Meira, Itagibá, Barra do Rocha, Ubatã e Ibirataia.

Entretanto, esse domínio político não se traduziu em dedicação efetiva a esses municípios, tampouco na promoção de melhorias estruturais ou na consolidação de uma hegemonia administrativa duradoura.

FORMAÇÃO DE UMA MENTALIDADE E ATUAÇÃO NO EXERCICIO DO PODER

A verdade é que pouco se sabe sobre o passado de Urbano, cujo nascimento ocorreu em 1918, na localidade de Jitaúna (BA), que, no início do século XX, era habitada pela tribo indígena dos Cotoxós (já extinta) e constituía distrito de Jequié até 1961. Era oriundo de uma família de condição econômica remediada e exercia a atividade de agricultor de modestas posses até ganhar “100 mil cruzeiros”, quantia que o povo ainda chamava de “cem contos de réis”, embora, desde 1942, a moeda oficial já fosse o cruzeiro. A partir de então, ampliou seu patrimônio, adquirindo fazendas, armazéns de compra e venda de cacau e uma frota de caminhões, além de ingressar na vida pública.

Foi vereador em 1954; prefeito de Jequié, por cerca de seis meses, em 1958, na condição de presidente da Câmara Municipal, substituindo o prefeito falecido no exercício do mandato; e deputado estadual por três mandatos consecutivos, sem, contudo, desenvolver uma atuação parlamentar de maior destaque. Foi eleito em 1962 pelo PSD e reeleito em 1966 e 1970 pela ARENA.

Dessa forma, é razoável supor que Urbano caminhou lado a lado com a história da região, marcada pela disputa pela terra e pelo poder político, constituindo uma cultura alicerçada em normas, crenças, valores, atitudes e práticas permeadas pela coragem e pela violência. Cresceu imerso nessa atmosfera de insegurança jurídica e conflitos permanentes.

Pelo fato de Jitaúna ser um entreposto comercial, ponto de pernoite de tropeiros e de bandos de jagunços, é plausível admitir que tenha presenciado ou, ao menos, convivido com relatos sobre os sangrentos episódios envolvendo os grupos do coronel Marcionílio e de seu filho, Tranquilino Souza, de Maracás; de Arthur Duarte, de Ipiaú (então denominada Rio Novo); de Zezinho dos Laços, de Cassiano do Areião, de Anésia Cauaçu e de Silvino do Curral Novo, na região de Jequié; e de Manoel Leôncio, na região de Boa Nova, entre outros.

Igualmente, deve ter assistido aos inúmeros delitos encomendados a matadores profissionais, como Abel, Targino da Cruz e Dequinha do Gongogi — este conhecido como “o diabo em figura de gente”, em razão de sua frieza como assassino e do fato de a polícia desconhecer sua identidade e seu paradeiro —, os quais prestavam serviços a maridos ciumentos, a pais de filhas consideradas “desonradas” por terem engravidado de namorados que se recusavam a casar, a políticos interessados em eliminar adversários e em conflitos fundiários.

Aliás, a honra ofendida, a vingança e a ambição pela terra caminhavam juntas, e os pistoleiros agiam abertamente porque se sentiam respaldados pelo poder dos fazendeiros-coronéis, cuja impunidade estava assegurada. A isso somavam-se as arbitrariedades, as truculências e a precariedade do aparelho policial.

Todos esses personagens atuaram praticamente na mesma época e no mesmo cenário geográfico, onde os tiroteios corriam soltos.

Como se pode observar acima, das dezesseis cidades que compõem o Território Médio Rio de Contas, Urbano mantinha expressiva força eleitoral em dez, já mencionadas anteriormente.

Nas seis restantes — Apuarema, Boa Nova, Gongogi, Itamari, Manoel Vitorino e Nova Ibiá — sua rede política não atuava de forma estruturada, embora também obtivesse votação nesses municípios. Tal circunstância provavelmente decorria de uma opção estratégica ou de acordos políticos firmados com outros parlamentares. No dia das eleições, era comum a disponibilização de transporte e de farta alimentação aos eleitores provenientes da zona rural.

Sua influência estruturava-se sobre práticas assistencialistas, paternalistas e clientelistas, operacionalizadas por meio de cabos eleitorais remunerados, responsáveis por mobilizar o eleitorado e assegurar sua legitimação política. Eram homens de sua absoluta confiança, que atuavam diretamente nas comunidades, conquistando eleitores por intermédio da concessão de auxílios de toda natureza, em consonância com o conhecido lema atribuído a São Francisco de Assis: “É dando que se recebe.”

A propósito, os homens de confiança de Urbano mantinham com ele laços de cega submissão e lealdade, como Zé Ramos, que “tocava o terror”, foi figura chave nas investigações da polícia. Mesmo pressionado não entregou o seu chefe, mas teve uma morte estranha, de atropelamento, no Porto da Barra, em Salvador.

Sede da Fazenda Oceania

CARACTERÍSTICAS PESSOAIS DO CORONEL-DEPUTADO

 

Com sua figura obesa e o olhar fixo e expressivo, simpático, afável, sagaz e desconfiado, de hábitos simples, devotado às famílias que constituiu e fiel ao amor pelos filhos, Urbano tinha uma expressão tranquila que impressionava e confundia. De sorriso maroto e fala mansa, pronunciava-se quase sempre de forma paternal, transmitindo a impressão de que nunca tivera ambição pelo poder: “Pode falar, meu filho. O que você quer?”.

Acolhia, oferecia proteção e facilitava fugas, providenciando abrigos seguros; arranjava empregos, emprestava dinheiro, influenciava o Ministério Público e o Poder Judiciário e via a polícia como uma instituição subalterna, submetida ao sabor de suas conveniências. Também possuía o seu próprio “código de ética”: jamais perdoava dívidas contraídas com ele e, ao ajudar alguém, exigia em contrapartida um compromisso de lealdade pelo resto da vida. “Homem que é homem tem que cumprir a palavra dada”, dizia. Não possuía, entretanto, os atributos típicos de um chefe político ou de um profissional da política: liderança partidária, capacidade de articulação, influência sobre prefeitos e parlamentares e gosto pelos holofotes.

Comentava-se, entretanto, à época, que, embora integrasse importantes comissões da Assembleia Legislativa, entre elas as de Economia e Transportes, Finanças e Serviços Públicos e Orçamento e Fiscalização Financeira, comparecia às sessões apenas para votar, quase sempre a pedido do governo. Era notória sua paixão pela região, pela vida rural, pelo comércio de cacau e pela pecuária, atividades nas quais obteve expressivo êxito. Sentia especial satisfação em permanecer em Jitaúna, sua terra natal, onde conhecia as pessoas e suas famílias e mantinha estreitos vínculos com as comunidades de Jitaúna, Ipiaú e Jequié, sendo, inclusive, muito bem aceito.

Sua principal habilidade, aliás, era a empresarial, aliada à capacidade de administrar as relações sociais e políticas.

Promovia eventos na sede da Fazenda Oceania destinados aos mais diversos públicos: desde reuniões privadas e seletivas com políticos — incluindo importantes lideranças da capital com projeção no cenário estadual — até encontros familiares, marcados pela expressiva presença de crianças, além de grandes confraternizações populares. Em todas essas ocasiões, os participantes saíam satisfeitos com a fartura do churrasco e das bebidas servidos, e a hospitalidade de seu anfitrião.

Além disso, apadrinhava batizados e casamentos, contribuía financeiramente para festas populares e solenidades de formatura e, por vezes, era escolhido como paraninfo de turmas de formandos, ocasiões em que também demonstrava seus dotes de dançarino nos bailes comemorativos.

Praticava a caridade cristã, mantendo permanentemente auxílio às igrejas locais, por meio de doações de reses para leilões realizados durante as festas paroquiais e outras festividades.

Apaixonado por futebol, colaborava com os clubes de Jequié e era torcedor do Ipiaú Esporte Clube. Isso, contudo, não o impediu de ser padrinho de Neuza Linhares, rainha do clube rival, o Independente Esporte e Cultura, na Micareta de 1965.

Recorda o ex-jogador de futebol Nego Dio que, na histórica partida decisiva do Campeonato Intermunicipal de 1969 entre as seleções de Ipiaú e de Jequié, disputada no Estádio Waldomiro Borges, em Jequié, os portões do estádio foram fechados após o início de uma briga generalizada envolvendo jogadores em campo e torcedores nas arquibancadas.

Segundo seu relato, a situação poderia ter resultado em um verdadeiro massacre da torcida de Ipiaú, numericamente inferior. Foi então que o deputado Urbano impôs sua autoridade e determinou a abertura dos portões, permitindo que o público deixasse o estádio em segurança.

Uma observação contundente é que, apesar de exercer forte autoridade no âmbito familiar, reunindo em torno de si suas mulheres, os filhos, os afilhados, a parentela, os agregados, os compadres e os correligionários, não cumpria o ritual de dissimulação moral cristã característico dos chefes patriarcais diante dos padrões sociais vigentes. Ao contrário, com naturalidade e comportamento incomum, transgredia abertamente as normas sociais, sem se preocupar com o desgaste de sua imagem pública, embora fosse uma figura atuante nas sociedades ipiauense, jequieense e jitaunense, como já salientado.

O fiscal de rendas aposentado Antônio Guanabara relata que ele e mais nove famílias ipiauenses, inspirados no Clube dos 10, de Feira de Santana, fundaram, em Ipiaú, o seleto e restrito Clube Náutico. Conta ainda que, em certa ocasião, o deputado Urbano, provavelmente contrariado por não ter sido convidado a integrar o grupo, adentrou o recinto após empurrar o porteiro, que recebera ordens expressas para permitir apenas a entrada das dez famílias associadas.

Como consequência desse ato impetuoso do deputado, o clube viu-se obrigado a ampliar seu quadro de sócios, admitindo novas famílias.

Sabe-se que o deputado era impiedoso com os desafetos, mas também tinha atitudes que surpreendiam. Em janeiro ou fevereiro de 1972, seu filho Orlando foi morto por Tony Calumby, motivado pela disputa pelo amor e pela proteção à jovem ipiauense Consuelo Jaqueira. Urbano, que sofreu profundamente com a morte do filho, não promoveu uma vingança, em razão de Tony possuir apenas 14 anos de idade e de as famílias serem amigas.

Outro aspecto a ressaltar é que, embora fosse popular, não se envolvia diretamente nas campanhas de rua, no corpo a corpo com o eleitorado. Isso, entretanto, não o impedia de se empenhar para vencer as eleições, valendo-se da máxima segundo a qual “em política, a única vergonha é perder” e da aura mítica que o cercava. Usufruía, assim, da fama construída ao longo dos anos, que exercia fascínio sobre parcelas da população, as quais o viam, simultaneamente, com temor e admiração.

NO CENTRO DOS RUMORES, DAS SUSPEITAS E DOS DESAFIOS AO CÓDIGO PENAL

Há de se mencionar, todavia, que, no exercício do poder político, recaíram sobre o deputado Urbano diversas suspeitas de ser mandante de graves delitos e homicídios, alimentadas por indícios e rumores que circulavam à época.

O que se supõe, entretanto, é que tais crimes jamais foram devidamente elucidados, e nenhuma responsabilização chegou a ser atribuída a ele.

Nesse contexto, destacam-se o homicídio de um cigano, de quem Urbano teria tomado a companheira, e o do fazendeiro jequieense Lincoln Martins, motivado por uma disputa envolvendo limites de terras no município de Jitaúna. Consta que, na ocasião, parte da iluminação pública de Jequié foi apagada para evitar que houvesse testemunhas no momento da execução. Contudo, um dos pistoleiros teria sido reconhecido pela filha de Lincoln, que estava ao lado do pai quando este foi abatido no passeio de sua residência. Descobriu-se, ainda, que esse matador, ou “mequetrefe”, como era chamado pelas classes populares, era “gente de Urbano” e morava em uma das fazendas do deputado-coronel.

A professora aposentada Laiz Barreto lembra que, durante a campanha eleitoral de 1957, em Jitaúna, onde morava com a família, seu pai, Waldomiro Barreto, resolveu apoiar o candidato a prefeito de Jequié, partidário de Albino Cajahyba, outro “coronel” da região e adversário político de Urbano. Inconformado com a atitude, Urbano teria determinado que um homem de sua confiança tirasse a vida de Waldomiro. Ocorreu, porém, que o encarregado de executar a ordem tinha dívidas de gratidão para com Waldomiro e, em vez de cumprir a missão, alertou-o sobre a intenção de Urbano e deixou a região. Ao mesmo tempo, a família Barreto mudou-se para Ipiaú.

Armazém e residência de Urbano em Jitaúna. Década de 1950

Duas observações valem ser destacadas. A primeira é que Urbano, por precaução, mantinha o hábito de andar rodeado por homens de sua confiança, fortemente armados, que lhe ofereciam proteção diante das inimizades acumuladas ao longo dos anos. A segunda diz respeito ao fato de que a polícia fazia vista grossa aos seus delitos e respeitava a inviolabilidade de suas propriedades.

Uma única vez, a polícia entrou em seu reduto, a Fazenda Oceania, no município de Itagibá, para resgatar um trabalhador do fazendeiro Otávio Machado, cunhado de Lincoln Martins. Conforme salientou o capitão da Polícia Militar Milton Pinheiro, foi necessária coragem, senso de dever e experiência para evitar “o tiroteio que ia se fechar”. Disse:

“Para não criar hostilidades, fui apenas com o cabo Zezito e ao chegar a capangagem logo se colocou em posição de combate, mas rapidamente gritei: ‘Deputado, vim aqui buscar o homem sequestrado’. Ficou surpreso ao ver-me! Disse-lhe ainda que havia solicitado reforços de Jequié e se eu ali demorasse a tropa baixaria em sua fazenda. Acatou o meu pedido e com o passar dos anos foi acirrando um ódio contra a minha pessoa

Rubens Ribeiro e sua esposa, Estela Ribeiro.

O CASO RUBENS RIBEIRO, SÍMBOLO DE IMPUNIDADE

Rubens Lima Ribeiro era um habitante de Ipiaú, de personalidade marcante: alegre, comunicativo, festeiro, bem-humorado, galante, carismático e destemido. Gostava de música, de circo e de cinema, da convivência familiar e dos muitos amigos que o cercavam, além de ser um próspero comerciante de gado e cavalo de raça. Constantemente, viajava para Minas Gerais, onde comprava reses e conduzia a boiada até a Bahia, a cavalo, juntamente com outros tropeiros. Dessa forma, foi acumulando um patrimônio constituído por uma grande fazenda, imóveis, veículos automotores, um numeroso rebanho no pasto e significativo capital depositado em bancos.

Pertencia a uma tradicional família de Ipiaú, oriunda de Ubaíra, ligada ao comércio, que chegou à cidade em 1930. Seus pais, Lotavino e D. Amelita Ribeiro, tiveram sete filhos, participaram do movimento integralista e fundaram o tradicional Armarinho Violeta, que fez história e marcou época pela inovação de suas estratégias de venda. No mês de dezembro, por exemplo, o cliente comprava um presente e, na manhã do dia 25, o Papai Noel o entregava na residência do comprador, em um carro enfeitado e ao som de músicas natalinas. Lotavino foi, ainda, vereador da primeira Câmara Municipal de Ipiaú e integrou a Sociedade Filarmônica Alberto Pinto. A família Ribeiro, portanto, que chamava a atenção pela união, postura e cordialidade, desfrutava de prestígio social, mantinha amplas relações de amizade e exercia significativa influência na comunidade.

Assim, no início de fevereiro de 1965, ao retornar de uma farra, nas proximidades do antigo Ginásio Rio Novo, onde hoje funciona o Bodegão, Rubens foi alvejado pelas costas, à queima-roupa, por disparos de arma de fogo. Socorrido e levado à Casa de Saúde São José, foi posteriormente encaminhado para Salvador, onde faleceu dias depois, aos 48 anos de idade, deixando a esposa, D. Estela Ribeiro, e quatro filhos pequenos — Roberto, Niltinho, Nelsinho e Isabel — aos quais era muito apegado, justamente no auge de sua estabilidade econômica. Abalados emocionalmente, os familiares tiveram de deixar a cidade, retornando anos depois.

Segundo a equipe médica que o atendeu, os projéteis haviam estraçalhado a medula espinhal de Rubens, o que o deixaria paraplégico caso sobrevivesse. Importante frisar que sua morte causou grande repercussão política e comoção em Ipiaú e em toda a região, a ponto de o governador do Estado, Lomanto Júnior, amigo dos Ribeiros, exigir da polícia total dedicação na apuração do caso.

Imediatamente, foram realizadas diligências que resultaram na prisão de conhecidos pistoleiros de extensa carreira criminosa, como Emídio Mãozinha e Oliúde, ambos de Gandu. As suspeitas também recaíram sobre integrantes do grupo de confiança de Urbano, entre eles Pedrão, que foi conduzido à autoridade policial para averiguações. A Cadeia Pública de Ipiaú, situada na Rua Castro Alves, foi reformada às pressas para receber os novos detentos. Instaurou-se o inquérito, diversas pessoas foram interrogadas e a autoridade policial local encaminhou o relatório final ao Ministério Público, que não ofereceu denúncia, por considerá-lo inconsistente.

O que se sabe, por meio dos boatos que circulavam à época, é que a motivação do crime teria sido vingança. Estaria relacionada à apreensão, pela fiscalização, de muitas cabeças de gado pertencentes a dois fazendeiros da região, ‘’gente de Urbano’’, que vinham sendo transportadas sem a documentação sanitária exigida para a prevenção, o controle e a erradicação de doenças animais. Rubens teria comentado com algumas pessoas de Ipiaú sobre a frequência dessas irregularidades e que o gado era transportado durante a noite para burlar a legislação sanitária. Essas informações teriam chegado ao conhecimento dos fiscais.

A questão que se coloca é que, antes dessa apreensão de gado, Rubens já havia sofrido um atentado, do qual saiu levemente ferido. Além disso, embora, nessa segunda ocasião, ficassem explícitas as evidências do planejamento da execução e existisse uma plêiade de indícios acerca da autoria intelectual e material do crime, não se conseguiram produzir, ou não se quiseram produzir, provas suficientes para demonstrar a responsabilidade penal dos envolvidos, razão pela qual todos permaneceram impunes.

O caso não passou de mais um crime sem solução, evidenciando a ineficiência do sistema de justiça criminal. Basta dizer que o delegado era um membro da comunidade de Ipiaú, nomeado pelo prefeito, mas não possuía formação em Direito nem a capacitação técnica necessária para conduzir um inquérito policial e aprofundar uma investigação criminal. Além disso, sofria pressões de todos os lados. Há quem sustente que Urbano teria sido enfático ao exigir a interrupção das investigações, valendo-se dos advogados por ele contratados e da influência decorrente de seu mandato de deputado.

ATORES SOCIAIS NA ARENA PÚBLICA DE IPIAÚ

Porém, faz-se necessário esclarecer que Urbano, embora tenha se fortalecido com a atmosfera política criada pelo golpe de 1964, que negou a existência da sociedade civil e sob a qual o Estado praticava violência aberta contra os opositores, jamais cultivou o ideário patriótico então difundido pelo regime, tampouco o discurso de exaltação religiosa. Ao contrário, evitava tanto os ambientes militares quanto os religiosos.

Pode-se dizer que foi um político autônomo, individualista e hermético, sem se destacar pelo debate de ideias, pela apresentação de programas ou pela formulação de projetos políticos. Da mesma forma, não possuía desenvoltura na tribuna da Assembleia Legislativa, diferentemente de seu contemporâneo, o deputado Agostinho Pinheiro, representante de Ipiaú, reconhecido por sua habilidade oratória, mas que não possuía a popularidade de Urbano, que recebia das camadas pobres e despossuídas uma verdadeira enxurrada de votos.

A partir das eleições de 1972, com a vitória acachapante do MDB em Ipiaú, que elegeu o prefeito e cinco vereadores, iniciou-se, gradativamente, o declínio político do deputado Urbano de Almeida Neto. Ele começou a perder força, desgastado pelos efeitos negativos da confissão de um matador de aluguel que, preso em Salvador, revelou ter executado assassinatos encomendados por ele, conforme já assinalado na abertura deste texto. Como consequência, suas redes de relações, suas bases de poder e sua influência foram sendo desmanteladas, provocando o enfraquecimento de seu prestígio e de sua posição política. Aos poucos, Urbano tornou-se cada vez mais debilitado e de aspecto melancólico, consumido pela doença que o corroía.

Ao mesmo tempo em que assistia, sem reação e de forma dramática, à publicização de suas práticas pela imprensa e ao afastamento dos amigos políticos, que sempre fecharam os olhos para suas infrações, observava a ascensão do populismo no município de Ipiaú, representado pelo hildebrandismo, ou “garranchismo”, movimento espontâneo das massas urbanas e rurais, que depositavam sua confiança e esperança no carismático Hildebrando, o qual personificava as múltiplas demandas das diferentes classes sociais.

Não deixa de ser revelador que Urbano tenha utilizado essa eleição municipal como um ajuste de contas com o então candidato a prefeito, Capitão Milton Pinheiro, por este, no passado, ter “interferido em seus assuntos pessoais”. Somente veio a apoiá-lo — e de forma particularmente incômoda, por pertencerem à mesma agremiação partidária — dias antes do pleito, limitando-se à divulgação de cartazes com a própria imagem.

A propósito, se o Capitão Milton Pinheiro (ARENA) tornou-se um herói na cidade por ter salvado a vida do trabalhador que Urbano imaginara ser um pistoleiro enviado para assassiná-lo, Hildebrando Rezende (MDB), vitorioso naquela eleição e de perfil independente, também ocupava lugar de destaque no imaginário popular pelo gesto heroico e de grande repercussão de resgatar a imagem de São Roque entre os escombros da igreja desabada. Além disso, era um político experiente, que aprendera as manobras do ofício desde o exercício do mandato de vereador.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Urbano faleceu no final de abril de 1975, aos 57 anos de idade, isolado da vida pública. Os jornais da capital não publicaram sequer uma nota sobre sua morte. Euclides Neto, pensador crítico e importante intérprete da cultura regional, dedicou-se à pesquisa e à escrita, inspirando-se em Urbano para compor o romance Machombongo. De forma bem-humorada, a obra destaca o lado mulherengo do personagem, sua vaidade e seu ciúme, o apego às riquezas, o temor das reclamações trabalhistas e o receio da infiltração de comunistas em suas fazendas, que defendia com unhas e dentes.

Na verdade, Euclides vale-se da ficção para traçar um rico panorama da realidade social do município, tendo como pano de fundo o contexto histórico e político e incorporando episódios e aspectos reais da trajetória do coronel-deputado. Por essa razão, sua obra pode ser encarada como uma inestimável fonte de informações para a compreensão daquele período.

Em Jequié, funciona a Fundação Urbano de Almeida Neto (FUAN), que desenvolve um admirável trabalho social em benefício das camadas mais desassistidas.

Importa sublinhar, por fim, que o conjunto de práticas coronelísticas, moldadas aos interesses particulares de Urbano, os quais se impunham a qualquer custo e deveriam ser acatados sem contestação, decorreu, fundamentalmente, da debilidade dos poderes públicos. Esse sistema simbolizou uma época de mandonismo regional, que desapareceu com sua morte, mas também com o fortalecimento das instituições do Estado Democrático de Direito e o avanço das demandas da sociedade contemporânea.

 

O fato é que sua forte personalidade, aliada a ações excêntricas, tanto na conduta quanto nas atitudes políticas e nas práticas de violência, ocupa lugar de destaque na historiografia do Território do Médio Rio das Contas. Aliás, é muito mais do que isso: sua trajetória permanece viva na memória coletiva, suscitando narrativas e lendas que, no imaginário popular, se confundem com a realidade e de difícil separação.

 

 

REFERÊNCIAS

 

GUANABARA Antônio Magalhães. In O Independente de Ipiaú. Organizado por Paulo Andrade Magalhães. Ibicaraí: Editora Via Litterarum; Ipiaú: Nós e Vós Editora. 2025.

LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, Enxada e Voto – o município e o regime representativo no Brasil. São Paulo: Alfa-Ômega, 1976.

MAGALHÃES, Paulo Andrade Magalhães. Urbano Cem Contos – trajetória e práticas do coronelismo agrário/político. Revista Nós e Vós. Ipiaú, 2002.

NETO, Euclides Neto. Machombongo. 1986

QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. O mandonismo local na vida política brasileira. São Paulo: Alfa-Ômega, 1976.

SANTANA, Edísio Paulo de (Nego Diu) in O Independente de Ipiaú. Org. Paulo Magalhaes, 2025

 

Entrevistas:

 

BARRETO, Laiz. Entrevista realizada em 12.09.2024 (Itagibá)

PINHEIRO, Milton (Capitão). Entrevista realizada em 1°. 05.2002 (Ipiaú)

SANTOS, Paulo Evilásio dos. Entrevista realizada em

SILVA, Juvenal Ferreira da (Mestre Jovem). Entrevista realizada em 12.09.2002 (Ipiaú)

 

Diálogos com habitantes da comunidade de Ipiaú, Jitaúna e Jequié sem o caráter formal de entrevistas: Zito Lacerda, Zeca Galvão, Tadeu Ribeiro, Isabel Ribeiro, Vânia Fagundes Ribeiro e Sérgio Augusto Ferreira, todos de Ipiaú. José Francisco Cardoso (Jequié), Maria Rita Gonçalves (Jitaúna), Jan Carlos Barbosa (advogado de Jitaúna), José dos Santos (‘’Zé Gazo’’, Pré-Assentamento Carlos Marighella, Ipiaú), entre tantos outros. A essas vozes somam-se, ainda, minhas próprias lembranças e experiências, construídas no ambiente social em que vivi e que também constitui parte da memória sobre o tema.

 

Este texto, ainda inconcluso, integra o livro em construção CORONELISMO E BANDITISMO NO MÉDIO RIO DAS CONTAS, com previsão de lançamento para o segundo semestre de 2027.

 

Paulo Andrade Magalhães é advogado e escritor ipiauense

https://ipiauonline.com.br/em-detalhes-paulo-magalhaes-relata-a-trajetoria-de-urbano-cem-contos-o-ultimo-coronel-da-regiao-de-ipiau/

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