domingo, 5 de julho de 2026

Paulo Magalhães no túnel do tempo: de volta ao Circo Nerino em Ipiaú

 


Picolinos: Roger Avanzi Filho, Nerino Avanzi e Roger Avanzi, em Poções (BA), dezembro de 1955. Acervo do Circo Nerino.

Cresci ouvindo de meus pais e de minha avó narrativas sobre o Circo Nerino, cujo fascínio familiar foi compondo o meu imaginário. Em 1997, no SESC Pompeia, em São Paulo, tive o privilégio de assistir a uma exposição, acompanhada de debates, sobre essa importante instituição da história circense brasileira do século XX, que levou cultura e entretenimento a lugares onde nenhum outro espetáculo conseguiu chegar.

O presente ensaio, fundamentado em bibliografia e dados empíricos, visa reconstituir a última temporada do Circo Nerino em Ipiaú. Para tanto, recorri a entrevistas realizadas por mim, anos atrás, com fontes primárias sobre o passado da coletividade, além das memórias de antigos frequentadores do circo que, movidos por um sentimento nostálgico, deixaram registros memorialísticos no Facebook. São lembranças e recordações que recuperam experiências individuais e coletivas e que nos ajudam a compreender o Circo Nerino como uma importante manifestação da vida cultural da cidade, bem como sua dimensão e seu significado para esse grupo social.

Desfile do Circo Nerino, junto com o Tiro de Guerra, em Itabuna (BA), para autoridades da ONU. Ao centro Alicinha Avanzi. Outubro de 1958. Foto de Maxwell.

Origem moderna do circo e o espetáculo em Ipiaú

Embora as artes circenses sejam milenares e possuam múltiplas origens, o circo moderno surgiu no século XVIII. Existem, inclusive, registros dessa época no Brasil, de famílias ciganas e saltimbancos percorrendo o país e se apresentando em praças, feiras e festas populares.

Cabe mencionar, todavia, que, de forma magistral, a historiadora Ermínia Silva (1996), ao resgatar a historicidade do circo brasileiro, chama a atenção para o fato de que a arte circense, tal como a conhecemos atualmente — com uma estrutura organizativa composta por múltiplos espetáculos —, consolidou-se no século XIX, por meio de famílias imigrantes europeias que preservavam a tradição do aprendizado familiar, transmitido oralmente de geração em geração.

Para nossa discussão, o que importa é a essência do circo, que já foi capaz de atrair públicos de todas as classes sociais, democratizando o acesso às artes e ao entretenimento; suspendendo a rotina das comunidades e permitindo a vivência coletiva da fantasia, da emoção, do choro e da gargalhada.

No que tange ao início das atividades circenses em Ipiaú, há escassez de documentação histórica e fotográfica. Entretanto, a história oral possibilitou a reconstrução parcial desse passado, comprovando que os primeiros registros da arte do picadeiro, com dramalhões jocosos, no distrito de Alfredo Martins, Rapatição ou Rio Novo — como era chamado antes de se tornar Ipiaú —, datam de meados da década de 1920. Essas apresentações tinham como principal protagonista o excêntrico alfaiate Oliveira, artista cômico de impressionante performance, com ações criativas e divertidas, caracterizado pelo rosto pintado, nariz vermelho, peruca e um exótico figurino criado por ele próprio.

Gaetan Ribolá (no alto), Alicinha Avanzi (no ar) e Roger Avanzi (em pé, de costas) Belo Horizonte (MG). Foto de Luiz Alfredo. Acervo Luiz Alfredo.

O artista-alfaiate, que mantinha ateliê na Rua Dois de Julho, apresentava-se esporadicamente aos domingos à tarde, defronte à firma comercial Miraglia & Grisi, na Praça Rui Barbosa. Era o astro em torno do qual gravitavam os demais “artistas”.

Aquele evento de ambiência circense misturava esquetes cômicos e dramáticos, números de malabarismo, pirofagia — a arte de engolir e cuspir fogo — e outras atrações apreciadas pelas famílias, algumas das quais levavam suas próprias cadeiras para melhor se acomodarem. Após o espetáculo, durante o qual o público chorava e gargalhava, passava-se o chapéu, e os espectadores colaboravam em nome da arte.

Por meio de um exercício de memória, Juvenal Ferreira da Silva (Mestre Jovem) e Germínio Medrado (Véi Bilheteiro) relataram que, nesses eventos, Miraglia estendia esteiras no chão para as crianças e disponibilizava bancos para os adultos se sentarem; que os espetáculos desapareceram quando começou o funcionamento do Cine Éden; e que, embora fossem divertidos, constituíam uma “molequeira danada”, segundo Véi Bilheteiro. “Gaiatos apelidavam os atores e faziam graça, mas também se emocionavam com os dramas”, ressaltou Mestre Jovem, que ainda destacou o desempenho de Oliveira: “o homem abismava”, segundo suas palavras, sendo intensamente aplaudido.

As narrativas acima permitem evidenciar que se tratava de uma verdadeira comédia de costumes, retratando hábitos e comportamentos da época. Os atores interagiam constantemente com a plateia, que, por sua vez, interferia ocasionalmente nas cenas, exigindo dos intérpretes autocontrole, raciocínio rápido e grande capacidade de improvisação cômica, atributos que despertavam a graça e a admiração do público.

O fato é que essa geração de artistas anônimos, por vezes até marginalizados, habituou o público local à linguagem da representação cênica. Percebe-se que, antes dessas espontâneas exibições circenses e teatrais, do Cine Éden, dos chorinhos do Grupo São Salvador e da música instrumental da Filarmônica Alberto Pinto, os principais hábitos de lazer coletivo do povoado resumiam-se às rinhas de galos e aos jogos de futebol, praticados, desde 1918, na Praça Tupinambá, atual Praça Salvador da Matta.

Quanto às companhias circenses, não é possível precisar quais delas se instalaram em Ipiaú desde a década de 1920. Para tanto, faz-se necessária a consulta aos arquivos das prefeituras de Camamu, Jequié e Ipiaú, em busca das autorizações concedidas (licenças municipais) para apresentações circenses naquele período, bem como aos antigos periódicos ipiauenses, a fim de verificar a existência de informações sobre o tema. Contudo, independentemente dessa curiosidade histórica, pode-se afirmar que as companhias circenses passaram a frequentar a cidade com regularidade à medida que seu desenvolvimento econômico se consolidava.


Década de 1940. Foto de Roger Avanzi. Acervo do Circo Nerino.

Circo Nerino

Nenhuma delas, entretanto, conquistou tamanha identificação junto à população ipiauense quanto o Circo Nerino, que realizou três longas temporadas em Ipiaú: em 1954 (de 9 de março a 7 de abril), em 1959 (de 19 de maio a 23 de junho) e em 1961 (de 17 de janeiro a 14 de fevereiro). Tentou retornar à cidade, em 1963, com a proposta de instalar-se na Praça Alberto Pinto, mas foi recusada pela prefeitura, que acolheu a posição da 1ª Igreja Batista de Rio Novo, segundo a qual a atividade circense naquele local comprometeria a realização dos cultos religiosos.

Mais significativo, porém, é o fato de que, em suas passagens por Ipiaú, o Circo Nerino não se limitou a oferecer espetáculos de entretenimento. Ao contrário, incorporou ao seu repertório referências à realidade local, incluindo histórias, espaços urbanos, personagens conhecidos pelo público, acontecimentos e manifestações culturais da cidade, que dialogavam com os costumes da época. Entre essas iniciativas, destacaram-se os desafios de luta livre e os combates de boxe envolvendo atletas ipiauenses, e contou inclusive com a participação de grupos musicais como a Jazz Band 15 de Maio de Ipiaú, e a Orquestra Copacabana, de Jequié. Ao mesmo tempo, as piadas e os bordões de palhaços como Picolino, Pinguim, Zezinho, Boca Larga, Babi, Garrafinha e Fusca-Fusca extrapolaram os limites do picadeiro, alcançando ampla repercussão entre os moradores, passando a integrar o imaginário coletivo ipiauense.

O escritor Osires Rezende, que assistiu aos espetáculos do Circo Nerino em 1961, relembrou, em sua obra (2017), o quadro do ventríloquo com seus bonecos falantes, constituído pelo educadíssimo Fernandinho e pelo desbocado Tião. Segundo o autor, a plateia ia ao delírio quando este fazia referências à zona de prostituição de Ipiaú:

— Fernandinho, você que é um bom menino, quando morrer quer ir para onde?

Com uma voz piedosa, arrancando lágrimas das senhoras:

— Eu quero ir para o céu, ficar junto de papai do céu.

— E você, Tião, certamente também quer ir pro céu?

— Eu não!

— O que é isso, Tião, não quer ir pro céu. Então você quer ir pro inferno?

— Também não!

— Então você quer ir pra onde, Tião?

— Eu quero ir pros DEZ QUARTOS, ficar junto com as quengas.

A bem da verdade, a comunidade nerina integrava-se plenamente aos lugares onde se instalava. Participava de festas populares e de desfiles cívicos e, em algumas ocasiões, colaborava até mesmo no combate a incêndios. Em Ilhéus e São Félix, por exemplo, o carro-tanque do circo, equipado com longas mangueiras, ajudou a evitar que quarteirões inteiros fossem atingidos pelas chamas de grandes proporções.

A “diplomacia nerina”, como se pode notar, constituía uma prática recorrente entre os proprietários do circo. Nerino Avanzi e seu filho, Roger Avanzi (Picolino I e Picolino II), além de Gaetan Ribolá, acrobata e cunhado de Nerino, eram figuras que despertavam a admiração das pessoas, pois, em cada localidade por onde passavam, estabeleciam laços de amizade, chegando a batizar crianças e a apadrinhar casamentos.

Basta dizer que, em Coaraci (BA), cidade onde Roger estreou no personagem Picolino, substituindo seu pai, já adoentado, muitas famílias deram a seus filhos o nome Roger em homenagem ao artista. Ex-cavaleiro, ciclista, trapezista, ator e palhaço, dono de um vasto e diversificado repertório cômico.

A título de informação, vale dizer que o Circo Nerino possuía sua própria estação de rádio, abria espaço para apresentações de artistas da música popular brasileira, como Luiz Gonzaga, Moreira da Silva e Grande Otelo, e foi o primeiro circo brasileiro a utilizar uma frota de caminhões-moradia. Em razão da diversidade de atrações, promovia uma constante renovação de espetáculos, incentivando o mesmo espectador a frequentá-lo ao longo de toda a semana.

Outro aspecto digno de destaque é que esse circo, ao longo de sua trajetória de quase cinquenta e dois anos, percorreu uma parcela significativa do território nacional, utilizando diferentes meios de transporte. Também enfrentou desafios, especialmente relacionados às intempéries. Em Santo Amaro da Purificação, o rio Subaé transbordou; em Cachoeira, foi a vez do rio Paraguaçu; e, em Ipiaú, as cheias dos rios de Contas e Água Branca deixaram lama por toda parte, impedindo a realização dos espetáculos.


Paixão de Cristo. Março de 1938, em Propriá (SE). Acervo do Circo Nerino.

Fragmentos da experiência coletiva – fontes históricas

O que se mostra relevante observar é que, passados tantos anos da passagem desse circo por Ipiaú, permanecem vivas as lembranças de um grupo de espectadores que preservou em sua memória aquilo que considerou significativo em suas vidas, fortalecendo, desse modo, o senso de pertencimento e a identidade coletiva. Algumas narrativas, inclusive, retratam o cenário de caos vivido em Ipiaú, em 1961, em decorrência das fortes chuvas que atingiram o circo, bem como os gestos de solidariedade comunitária que emergiram naquele contexto.

Dito isso, no esforço de resgatar a passagem do Circo Nerino na cidade, José Américo Castro (2020) traz à memória fatos basilares para a construção dessa história, como o cortejo dos artistas pelas ruas da cidade para atrair o público, a identificação de algumas de suas principais estrelas e uma breve descrição do espaço cênico, composto por um picadeiro em torno do qual a plateia se acomodava em camarotes, cadeiras numeradas e não numeradas, além da arquibancada, popularmente conhecida como galinheiro.

A apresentação dos espetáculos, como será descrito adiante, dividia-se em duas partes. Na primeira, eram exibidos os números artísticos, que reuniam as diversas famílias circenses em apresentações de acrobacias de solo e aéreas, trapézio, malabarismo, equilíbrio sobre cordas, pirâmides humanas, contorcionismo, lançamento de facas, ilusionismo, adestramento de animais e números de palhaços, entre outras atrações. Na segunda parte, predominavam as encenações teatrais, incluindo dramas e comédias. José Américo ressaltou, inclusive, os títulos de algumas peças do repertório do circo e destacou a amizade dos proprietários com sua família.

JOSÉ AMÉRICO

“Minha infância se tornou muito mais feliz quando o Circo Nerino chegou a Ipiaú e suspendeu lona na Praça Tupinambá (hoje Praça Salvador da Matta), ali, bem pertinho da minha casa. Isso no distante ano de 1961. Do desfile dos artistas pelas ruas da cidade, passando pelas atrações do picadeiro, até os dramas e comédias encenados no tablado, tudo era encanto, brilho nos meus olhos de menino. Alicinha, a jovem estrela e musa da companhia; o palhaço Picolino e seus coadjuvantes, Pinguim e Zezinho; os trapezistas Roger, Gaetan e Willians; D. Anita (Anita Garcia, uma das melhores atrizes do circo-teatro brasileiro), Roseli e os demais membros do elenco eram extremamente competentes e criativos. Fizemos amizade com eles. Tive o deslumbre de ver Alicinha tomando banho no Rio Água Branca, no quintal da minha casa. Privilégio de poucos garotos daquela época. O Circo Nerino era uma família. Extasiado, eu assistia ao espetáculo ao lado dos meus pais e irmãos, contemplava o cenário e absorvia aquela magia, com direito à trilha sonora da Orquestra Copacabana, com o ipiauense Tavinho ao violão. A segunda parte do espetáculo era puro teatro. Clássicos como ‘Sansão e Dalila’, ‘Marcelino Pão e Vinho’, ‘Coração Materno’, ‘O Ébrio’, ‘A Canção de Bernadete’ e ‘A Paixão de Cristo’, entre outros dramas e comédias, arrancavam aplausos da plateia ávida por cultura.”

WILSON MIDLEJ

No início dos anos sessenta, em Salvador, eu tinha acabado de ver o Circo Thiany, precedido pelo gigantesco Circo Garcia e, de férias em Ipiaú, não dei muita importância ao Nerino. Recusei convites de Pedro Hagge para ir ao camarote dele e fiquei na fazenda dos meus tios. Mas, de repente, as expressões, os jargões e o linguajar de toda a cidade giravam em torno do que acontecia no picadeiro do Circo Nerino. O palhaço Picolino e seu companheiro anão, Garrafinha, eram figuras que gozavam da intimidade dos ipiauenses. Resolvi que iria, e para o “galinheiro”, como os ipiauenses chamavam a arquibancada geral, de ingressos mais acessíveis. Assisti à primeira sessão, depois ao dramático ‘Marcelino Pão e Vinho’, que eu havia visto no Cine Excelsior… E aí não parei mais. Quinta, sexta, sábado, domingo… Todos ao Nerino aprender com o Picolino o que era “taquilha de niquilha, misturada com açuquilha!”, que o meu primo Zé Wilson imitava como ninguém.

NAL SOARES

Nunca me esqueci desse circo nem de seus artistas. Eu ia frequentemente. Painho (Nael Conceição, saxofonista da Jazz Band 15 de Maio) e o meu tio Nilton (contrabaixista) tocaram nele quando o circo esteve em Ipiaú. As peças teatrais, que emoção!

LIÈGE CASTRO

Nunca me esqueci do Circo Nerino, morro de saudades! Devido a amizade dos meus pais com Picolino e o velho Gaetan, tínhamos entrada grátis no camarote.

RENILDO MACEDO

Eu entrava de graça, pois meu pai fornecia café torrado ao circo.

CLARICE SOUZA (Clarice do Mingau)

Eu fui várias vezes ao Circo Nerino.

ADILSON ANDRADE

Fui a várias apresentações. Em uma delas, houve um grande temporal, e a lona rasgou durante o espetáculo. As crianças, porém, estavam tão envolvidas que não quiseram se levantar. A direção teve que interromper a apresentação para que voltássemos para casa. Nessa época, chovia tanto que as águas lambiam a ponte do Japumirim e, muitas vezes, encontravam-se com as do Rio Água Branca.

AIRTON BARNABÉ

Quando o Nerino perdeu a lona em uma chuva forte, usaram o auditório aberto da Escola Celestina Bittencourt para confeccionar outra. Toda a comunidade ipiauense ajudou; havia até lanches. Eu morava perto e assisti a tudo. Lembro até que os espetáculos posteriores — não sei se dois ou três — foram realizados com entradas gratuitas por conta disso. Os dramas teatrais ‘Uma Cruz na Estrada’ e ‘O Direito de Nascer’ também foram peças muito bem encenadas, com grande esplendor artístico.

Um quadro bastante interessante era quando o palhaço Picolino se apresentava com o seu calhambeque maluco. E quem não andasse direito com ele recebia a sua ‘peroba’ infalível… O Circo Nerino e a comunidade interagiam harmoniosamente. Dávamos sorte, pois meu pai, vereador (Samuel Rodrigues), tinha direito a um camarote, e todo fim de semana estávamos lá, eu e meu irmão.

MARISA HIRATA

O filho de Roger (Picolino III), que fazia o ‘Marcelino’, quebrou o braço na cama elástica e foi levado à clínica do Tio Alípio Correia. Célia, enfermeira, nos avisou, e fomos para o consultório. Foi feito o raio X do braço e, em seguida, o engessamento. Quando Roger foi pagar, tio disse que não iria cobrar. Em agradecimento, ele deu um permanente para entrar de graça no circo. A peça Marcelino Pão e Vinho ficou suspensa. Outra lembrança é que Willians, trapezista, casou-se com a irmã da nossa colega Lenira, e esta nos trazia notícias e fotos da irmã, que se apresentava de maiô e plumas na entrada do picadeiro. Minha filha advogou para o Nerino, em São Paulo, e tive a oportunidade de rever Roger aos 92 anos. Alegre, feliz e ainda guardando uma beleza nos olhos azuis que tanto encantou Ipiaú.


Picolino II (Roger Avanzi) e Pinguim. Belo Horizonte (MG), 1963. Foto de Luiz Alfredo. Acervo Luiz Alfredo.

Último espetáculo do circo, em 13/09/1964, Cruzeiro (SP)

Diferentemente dos dias atuais, em que boa parte dos “circos” consiste em empreendimentos empresariais desprovidos de conteúdo e de graça (nem circos são mais, a meu ver), o Circo Nerino estruturava-se com base na tradição, a partir da união das famílias Avanzi e Ribolá, consolidada pelo casamento de Nerino e Armandine. Uma empresa familiar, que funcionava a partir de núcleos familiares. Isso significava que não pagava salários propriamente ditos, mas distribuía uma contribuição pecuniária ao elenco e aos demais funcionários, conforme um acordo verbal firmado e cumprido à risca. Casa cheia significava recursos para todos; pouco público, tempos difíceis. Parte da arrecadação era destinada à aquisição de alimentos para toda a comunidade, à compra de novos materiais e à manutenção do circo e de seus equipamentos. A companhia arcava ainda com despesas médicas, odontológicas, funerárias e educacionais, pois um professor era contratado para alfabetizar os integrantes da trupe.

Segundo Roger Avanzi, em obra escrita em parceria com Veronica Tamaoki, a morte de seu pai, Nerino Avanzi, em novembro de 1962 — figura central na manutenção da unidade familiar — desencadeou uma crise interna que se somou a uma série de dificuldades já enfrentadas pelo circo. Entre elas, destacavam-se a redução da arrecadação, o êxodo de artistas para o rádio e a televisão, a elevada carga tributária, os custos de manutenção da envelhecida frota de caminhões e a estrutura já obsoleta do circo, baseada no sistema de pau fincado. “Levávamos uma semana para desmontar, transportar e montar. Uma semana em que as despesas eram muitas, e a renda nenhuma”, afirmou o autor (AVANZI; TAMAOKI, 2004, p. 294).

Deve-se mencionar, ainda, a saída de Alicinha Avanzi que, valendo-se de seu talento excepcional — corda, escada de garrafas, trapézio, cavalo, bailados, teatro, arame e duplo mortal na cama elástica —, decidiu migrar para outro circo juntamente com a irmã Roseli, causando impacto na companhia. Tinha apenas 23 anos de idade. Três anos antes, durante a temporada do circo em Ipiaú, agitara o imaginário da juventude local, eternizando-se como musa e marcando época. Na avaliação da artista, seus tios Roger e Anita eram os mais indicados para dirigir o circo, e não sua avó e o tio Gaetan.

Embora existam argumentos consistentes para explicar o fim do Circo Nerino, o cerne da questão residiu, a meu ver, em sua forma tradicional de remuneração, que subordinava os interesses individuais ao interesse coletivo. Tal modelo já não se mostrava compatível com as transformações dos costumes, com a crescente valorização das trajetórias artísticas individuais e com a própria lógica da sociedade capitalista, cada vez mais orientada pela autonomia profissional e pela recompensa baseada no desempenho pessoal.

Respeitável público, chegamos ao final, e torna-se evidente a relevância do papel desempenhado pelo Circo Nerino no cumprimento de sua função social e cultural. Seu legado, contudo, permanece vivo nas imagens captados por Roger Avanzi, Luiz Alfredo, Maxwell e Pierre Verger, bem como nos relatos de antigos espectadores. É perceptível que seus dias de glória transcorreram em uma época na qual o picadeiro constituía um importante espaço de encantamento, sociabilidade e celebração da vida. Trata-se, portanto, de uma memória que integra o patrimônio histórico e cultural de Ipiaú.


REFERÊNCIAS

AVANZI, Roger e TAMAOKI, Verônica. Circo Nerino. São Paulo: Pindorama Circus: Códex, 2004.

CASTRO, José Américo da Matta. A Inesquecível Magia do Circo Nerino. Publicação no Facebook Turma de Ipiaú, em 18.05.2020. Consultado em 14.04.2024.

Exposição Circo Nerino da Bahia (1932-1962). Curadoria: V. Tamaoki, com fotos de Roger Avanzi, Pierre Verger e de Luís Alfredo (Revista O Cruzeiro).

MEDRADO, Germínio Rocha (“Véi Bilheteiro”). Entrevista em 16.09.2002, gravada (em fita cassete), e transcrita, em poder do autor.

RESENDE, Osíres. Reflexiones del Cachaceiro em Jefe: (um Livro de calções – nu da cintura para cima). Lisboa: Chiado Editora, 2017.

SILVA, Ermínia. O circo, sua arte e seus saberes – o circo no Brasil do final do século XIX a meados do XX. Dissertação (Mestrado em História), Universidade Estadual de Campinas, Campinas/SP, 1996. Consultado em 16.04.2024.

SILVA, Juvenal Ferreira da. “Mestre Jovem”. Entrevista em 12.09.2002, gravada (em fita cassete), e transcrita, em poder do autor.

Depoimentos espontâneos na Turma de Ipiaú (Facebook):

ANDRADE, Adilson Pinheiro; SOUZA, Clarice; HIRATA, Marisa; MACEDO, Renildo; MIDLEJ, Wilson; CASTRO, Liége; SILVA, Airton Barnabé da; SOARES, Nal.

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