Elson Andrade: Bravura e consciência política das mulheres baianas foram vitais para a independência do Brasil


A independência do Brasil dependeu significativamente da bravura ,consciência política e da atitude das mulheres baianas
Nesta edição, o urbanista arquiteto Elson Andrade, nos traz uma visão crítica sobre a esquecida participação das mulheres na independência da Bahia e do Brasil.

A Independência do Brasil, tantas vezes abreviada de forma estatal e um tanto falaciosa, dos livros de história, no quadro-marketing inventado, com o gesto burguês simbólico de D. Pedro I, às margens do riacho do Ipiranga em 7 de setembro de 1822, na então insignificante capital paulista, foi na verdade um processo longo e sangrento, não lá, mas aqui na Bahia. A Bahia, com sua posição estratégica e sua importância econômica, da época, foi quem respondeu com o verdadeiro palco da luta. Entre fevereiro de 1822 e julho de 1823, Salvador e o Recôncavo foram cenários de batalhas intensas contra as tropas portuguesas, culminando na vitória definitiva em 1823. Para os bravos baianos daquela época, que já haviam expulsados os holandeses em 1625, a data de 2 de julho de 1823, simboliza a verdadeira independência do Brasil, pois foi ali que se expulsaram os últimos soldados lusitanos e se consolidou a soberania nacional. A primeira batalha dotada de um Projeto de Nação até então sufocado por exploradores “estrangeiros”.
A resistência baiana foi marcada por episódios de bravura coletiva: o povo saiu às ruas armados de “paus e pedras” para defender um projeto de nação! A Batalha de Pirajá, em novembro de 1822, reuniu milhares de combatentes e deixou centenas de mortos, demonstrando que a emancipação não foi um ato simbólico, mas uma conquista “armada”. Salvador, como principal porto do Atlântico, era vital para o comércio de açúcar e tabaco, e sua defesa tornou-se questão de sobrevivência para o Brasil nascente. Portugal sabia que perder a Bahia significava perder o controle sobre o país, e por isso a luta foi tão prolongada e feroz. E, para pôr para correr exógenos exploradores político-administrativos, sanguessugas, nunca foi empreitada fácil, em qualquer tempo e lugar do mundo.
Lembrando que por volta de 1800, Salvador era uma das maiores cidades do Brasil, com cerca de 70 mil habitantes; o Rio de Janeiro, capital do Reino e depois do Império, já ultrapassava 120 mil (dado a vinda da família real da coroa portuguesa, desde 1808, liderada pelo Príncipe Regente Dom João, que chegou ao Brasil fugindo da iminente invasão das tropas de Napoleão Bonaparte a Portugal, e, a comitiva desembarcou primeiro em Salvador); São Paulo era ainda um pequeno burgo isolado sem representatividade econômica, com cerca de 15 mil moradores, 780 metros acima do nível do mar, já entrando no continente; enquanto que Ilhéus, no sul da Bahia, tinha população estimada em torno de 8 mil pessoas, já tendo sido a terceira “cidade” mais povoada do Brasil Colonial. Esses números refletem a desigual distribuição demográfica e a centralidade política e econômica de Salvador e do Rio de Janeiro no período. Portanto, atribuir o ato principal da independência do Brasil a um grito de independências às margens de um pequeno córrego da capital paulista… levanta suspeitas sobre as história estatais-oficiais do Brasil, contadas pelos vencedores estatais, a posteriori.
Nesse contexto, as mulheres baianas desempenharam papel decisivo, ainda que por muito tempo invisibilizadas pela historiografia oficial-estatal. Maria Quitéria de Jesus, disfarçada de homem, integrou o Batalhão dos Periquitos e lutou em diversas frentes, sendo condecorada por D. Pedro I. Sua coragem rompeu barreiras sociais e militares, tornando-a a primeira mulher a integrar oficialmente o Exército Brasileiro. Maria Felipa de Oliveira, líder na Ilha de Itaparica, comandou grupos de mulheres negras e indígenas em emboscadas contra embarcações portuguesas, queimando navios e utilizando folhas de cansanção como “arma” improvisada. Sua atuação foi fundamental para impedir o avanço lusitano e revela como a resistência popular se deu também pela criatividade e pela força feminina. Joana Angélica, mártir assassinada ao tentar impedir a invasão do Convento da Lapa, tornou-se símbolo da resistência civil e religiosa, mostrando que a luta pela independência atravessou diferentes espaços da sociedade. Essas mulheres não apenas participaram: elas lideraram, inspiraram e transformaram a guerra em um movimento de emancipação social, ainda que parcial.

Além da dimensão militar e social, a Bahia desempenhou papel administrativo crucial. A capitania da Bahia de Todos os Santos incorporou as capitanias de São Jorge dos Ilhéus e Porto Seguro, ampliando seu domínio político e administrativo. Essa integração reforçou Salvador como núcleo de decisões e consolidou a unidade territorial em um momento de instabilidade, garantindo maior coesão ao nascente Império. Essa centralização administrativa foi essencial para dar sustentação política ao processo de independência, fortalecendo a posição da Bahia como centro de poder regional.
A historiografia tradicional, ao privilegiar o 7 de setembro, minimiza o peso do 2 de julho e invisibiliza o protagonismo popular e feminino. Contudo, a memória baiana resiste: todos os anos, cortejos insistem na reconstrução de um sonho adormecido, vistos nas celebrações ao reafirmar a que independência foi conquistada com sangue, coragem e mobilização coletiva. Reconhecer o papel da Bahia, e em especial das mulheres, é reconhecer que o grito do Ipiranga foi apenas o anúncio; a vitória real foi conquistada verdadeiramente em solo baiano, com a participação decisiva de homens, e em especial a participação ativa das mulheres, com destaque às mulheres negras, as que já tinha uma movimentação de consciência, e transformaram oportunamente e coincidentemente, a luta, em liberdade, não apenas das mulheres negras, mas sim, da Bahia e do Brasil. O Brasil deve, portanto, valorizar e reconhecer o 2 de julho como marco nacional, pois foi na Bahia que a independência deixou de ser promessa e se tornou realidade.
A Bahia foi o verdadeiro palco da Independência do Brasil: a Batalha de Pirajá em 1822 consolidou a derrota das tropas armadas-oficiais, portuguesas, mulheres como Maria Quitéria e Maria Felipa se destacaram com bravura, e até hoje o 2 de Julho é celebrado tibiamente em Salvador como a data da libertação definitiva. Pois, não há como negar que a Batalha de Pirajá foi o confronto decisivo.
Em 8 de novembro de 1822, ocorreu a Batalha de Pirajá, considerada o maior embate da Guerra da Independência na Bahia. O general francês Pierre Labatut comandava as forças brasileiras contra o português Inácio Madeira de Melo. Foram cerca de 10 mil combatentes, em uma luta que durou “eternas” dez horas. Um episódio curioso foi o toque equivocado do corneteiro Luís Lopes, que ordenou “cavalaria, avançar e degolar” – mesmo sem haver cavalaria brasileira. O erro provocou pânico nos portugueses, que recuaram, garantindo a vitória brasileira. As baixas variaram entre 200 e 600 mortos, dependendo da fonte, mas o resultado foi claro: a Bahia se tornava o epicentro da independência .

Maria Quitéria: a primeira mulher-soldado
Nascida em Feira de Santana, em 1792, Maria Quitéria fugiu de casa, disfarçou-se de homem e alistou-se como “Soldado Medeiros” no Batalhão dos Periquitos. Lutou em Pirajá, Ilha da Maré e Piatã, destacando-se pela coragem e habilidade. Foi promovida a cadete por Labatut e condecorada por D. Pedro I com a Ordem Imperial do Cruzeiro, além de receber soldo vitalício. Hoje é reconhecida como patronesse do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro e integra o Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.
Maria Felipa: a heroína popular negra
Na Ilha de Itaparica, a pescadora e marisqueira Maria Felipa liderou cerca de 200 pessoas – mulheres negras, indígenas tupinambás e tapuias – em emboscadas contra os portugueses. Queimou embarcações inimigas e usou galhos de cansanção como arma improvisada, causando dor e pânico nos soldados. Sua atuação foi decisiva para impedir o controle lusitano da ilha e garantir apoio logístico aos baianos. Apesar de silenciada por muito tempo, hoje é reconhecida como Heroína da Pátria e símbolo da resistência popular feminina.
A Bahia não apenas lutou, mas consolidou a independência do Brasil. A bravura das mulheres baianas, a vitória em Pirajá e a incorporação administrativa das capitanias vizinhas reforçaram sua centralidade política. O 2 de Julho é mais que uma festa regional: é o marco da verdadeira libertação nacional, lembrando que a independência foi conquista popular, feminina e baiana.
A centralidade da Bahia no processo de independência não se limitou às batalhas sangrentas que expulsaram os portugueses. Houve também um aumento da fome de poder na dimensão político-administrativa, que resultou na sua posição como núcleo de poder macrorregional e, posteriormente, como peça-chave na estrutura do Império. A antiga capitania da Bahia de Todos os Santos foi elevada à condição de província em 1821 e, nesse movimento, e sem freio que o detivesse, incorporou as capitanias de São Jorge dos Ilhéus e Porto Seguro. Essa fusão não foi apenas territorial: representou uma concentração de autoridade política e econômica em Salvador, ampliando sua capacidade de decisão e de articulação com o governo central regional. Com o prejuízo de calar a voz do sul baiano.
Essa integração teve impacto direto na consolidação do Estado, ao absorver oportunamente, sem nenhum processo de debate e/ou resistência, Ilhéus e Porto Seguro, e assim, a capital baiana fortaleceu sua posição como centro administrativo e reduziu a fragmentação política que caracterizava o período colonial. A centralização permitiu maior controle sobre o litoral sul, região estratégica para o comércio, agricultura cacaueira e para a defesa marítima. Além disso, reforçou a unidade territorial em um momento em que o Brasil ainda buscava se afirmar como nação independente, evitando que áreas periféricas permanecessem vulneráveis a influências externas ou a disputas internas.

No contexto da independência, essa reorganização administrativa foi tão importante quanto as vitórias militares. Enquanto o povo baiano lutava nas ruas e nos campos de batalha, a estrutura política se consolidava em torno de Salvador, garantindo que a província tivesse voz ativa na formação do Império. Essa centralidade administrativa também ajudou a projetar a Bahia como protagonista nacional, não apenas pela resistência armada, mas pela capacidade de integrar e governar territórios vizinhos.
Assim, a Bahia desempenhou um duplo papel: foi o coração da luta popular e feminina pela liberdade, e também o corpo político que deu coesão ao nascente Estado brasileiro. Reconhecer essa dimensão é compreender que a independência não foi apenas uma guerra, mas também um processo de construção institucional, no qual a Bahia se destacou oportunamente como uma força política e de liderança regional.
A integração administrativa da Bahia com as capitanias de São Jorge dos Ilhéus e Porto Seguro teve efeitos profundos no domínio do desenvolvimento econômico da região e na consolidação de Salvador como capital estratégica do Império. Ao absorver esses territórios em 1821, a então província da Bahia de Todos os Santos ampliou sua área de influência e fortaleceu sua capacidade de gestão, reduzindo a fragmentação herdada do período colonial. Essa centralização permitiu maior controle sobre o litoral sul, região rica em recursos naturais e estratégica para o comércio marítimo, especialmente de produtos como cacau, madeira e tabaco.
Do ponto de vista econômico, a incorporação trouxe benefícios claros à classe política de Salvador. Ilhéus e Porto Seguro, antes administrados de forma autônoma e com pouca integração às rotas comerciais mais dinâmicas, foram sufocadas de suas vocações e pautas peculiares, e passaram a ser diretamente vinculados e subordinados a Salvador. Isso significou maior acesso às redes de exportação e importação, além de investimentos em infraestrutura portuária e estradas que conectam o interior ao litoral. Porém, acabou por criar uma cultura de subordinação sul baiana, até hoje vigente. A centralização também favoreceu a arrecadação fiscal, já que Salvador concentrava o controle alfandegário e tributário, garantindo ao Império uma fonte mais estável de receitas.
Salvador, por sua vez, consolidou-se como capital estratégica não apenas pela economia, mas pela política. A cidade tornou-se o principal elo entre o Nordeste e o governo central no Rio de Janeiro, desempenhando papel de ponte entre diferentes regiões do país. Sua posição geográfica, voltada para o Atlântico e próxima às rotas internacionais, reforçou sua importância como centro de defesa e comércio. Além disso, a memória da resistência popular e feminina na guerra da independência deu à Bahia um peso simbólico que se somava ao seu poder administrativo centralizador. Daí, a cultura de querer ser coronel remoto do cacau, com sede em Salvador.
Essa centralização administrativa foi, portanto, essencial para o Império nascente. Ao integrar Ilhéus e Porto Seguro, a Bahia não apenas expandiu sua influência territorial, mas também se tornou um modelo de “unidade política” e econômica em um país que ainda buscava se consolidar como Estado. Salvador acabou aproveitando a oportunidade histórica e acabou emergindo como capital estratégica, combinando poder militar, econômico e simbólico, e reafirmando o protagonismo baiano na construção da independência e na formação do Brasil, porém, ao preço do sufocamento da pauta e das demandas locais, sul baianas.
Permitam-me oportunamente um parêntese: Acerca desta época, uma pergunta que fica é: e se Portugal tivesse financiando massivamente a imprensa local, e distribuído benefícios-esmola estatais aos mais pobres, será que teria perdido as rédeas das narrativas políticas e consequentes evitado tais acontecimentos?
No tempo atual, em que muitos homens se refugiam na ilusão da renda passiva, afastando-se do esforço braçal, da assunção de compromissos e de responsabilidade familiares, e, em tempos em que tantas mulheres foram reduzidas a objetos de desejo e consumo pela tropa inconsequente do marketing, talvez fosse necessário convocá-las novamente – sobretudo as mulheres negras do sul da Bahia – para um segundo round de protagonismo libertador. Não mais nas trincheiras da guerra armada, mas na luta contra a invisibilidade e pela afirmação plena de seus direitos e de suas famílias, em prol do desenvolvimento socioeconômico, pilares centrais que elas continuam a ser.

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