domingo, 28 de junho de 2026

Antes de julgar o Nordeste, experimente carregar o peso de sua história — Thomas Leuri Souza

 


Existe uma distância enorme entre olhar para uma região e conhecer a realidade de quem vive nela.

De longe, algumas pessoas constroem frases fáceis. Repetem preconceitos antigos, transformam dificuldades históricas em defeitos individuais e dizem que o nordestino “não gosta de trabalhar”.

Talvez porque nunca tenham sentido o peso de uma enxada nas mãos.

Talvez porque nunca tenham passado um dia inteiro no sertão esperando que a chuva venha. Nunca tenham acompanhado uma plantação de mandioca, feijão ou milho ser perdida porque o céu decidiu permanecer em silêncio. Nunca tenham olhado para uma terra preparada com esforço e visto tudo desaparecer diante da seca.

Existe um tipo de trabalho que não aparece nos escritórios, nos relatórios econômicos ou nas estatísticas de produtividade.

É o trabalho de quem acorda antes do sol, enfrenta o calor, enfrenta a falta de estrutura e insiste em fazer nascer da terra aquilo que alimenta uma família.

As mãos calejadas do agricultor nordestino contam uma história que muitos preferem ignorar.

Mas a história do Nordeste não está apenas no campo.

Ela também está nas grandes cidades.

Quando alguém pergunta por que tantos nordestinos deixaram suas cidades e foram para São Paulo, a resposta está diante dos olhos: eles foram atrás de uma oportunidade.

Ninguém abandona sua terra, sua família e sua memória por diversão.

A migração nordestina foi, muitas vezes, uma busca por sobrevivência.

Milhões chegaram ao Sudeste procurando trabalho, construindo casas, levantando prédios, abrindo caminhos e ajudando a erguer uma parte da riqueza que hoje muitos admiram.

As estradas, os edifícios, as obras e o crescimento urbano não foram construídos apenas por quem nasceu nas regiões mais desenvolvidas.

Muitas dessas estruturas carregam também o esforço de homens e mulheres que saíram do Nordeste levando apenas coragem, resistência e esperança.

Existe uma contradição histórica quando uma sociedade utiliza a força de trabalho de um povo, mas depois tenta apagar sua contribuição.

O Nordeste não é uma região definida pela falta.

É uma região marcada pela resistência.

E talvez uma das maiores injustiças seja transformar desigualdades históricas em julgamento moral.

É fácil falar sobre pobreza quando nunca se conheceu a fome.

É simples criticar políticas de transferência de renda quando nunca se precisou escolher entre comprar comida ou remédio.

Mas existem histórias que desmontam qualquer discurso pronto.

Como a de Maria.

Uma mulher que perdeu uma filha de apenas quatro meses de idade porque não tinha condições sequer de oferecer um enterro digno.

A criança foi levada em uma caixa improvisada.

Uma vida interrompida não pela falta de amor, mas pela falta de condições mínimas de sobrevivência.

Para quem discute programas sociais apenas como números, talvez seja difícil compreender.

Mas para quem conhece histórias como a de Maria, a questão deixa de ser política.

Ela se torna humana.

Porque por trás de cada estatística existe uma pessoa.

Existe uma mãe.

Existe uma família.

Existe uma história que poderia ter sido diferente.

O Nordeste não precisa provar sua capacidade de trabalhar.

Ele já provou.

Está nas cidades que ajudou a construir.

Nas famílias que sustentou.

Nas culturas que criou.

Na música, na literatura, na culinária, na ciência, na arte e na força de milhões de pessoas que continuam transformando dificuldade em resistência.

Antes de repetir um preconceito contra o nordestino, talvez seja necessário fazer uma pergunta simples:

Quantas histórias de luta seriam necessárias para convencer alguém de que esse povo nunca teve falta de trabalho; teve, muitas vezes, falta de oportunidade?

 

Sobre o autor:

Thomas Leuri Souza é estudante de Letras pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), escritor, apresentador, entrevistador e documentarista. Desenvolve trabalhos voltados à memória, cultura e questões sociais, com atuação em projetos de comunicação e audiovisual. É autor do livro Filho de Angorô: a história de Pai Naldo, criador do canal Café com Prosa e do podcast Narrativas Invisíveis. Publica aos domingos no IPIAÚ ONLINE e ás segundas-feiras no Editoria Livre.

https://ipiauonline.com.br/

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