Ipiaú: R$ 2,5 milhões na iluminação e uma conta da Coelba que não fecha – Thomas Leuri Souza


Em Ipiaú, a conta de energia costuma ser lida apenas pelo valor final. Abre-se a fatura, identifica-se o total e paga-se. O restante, a estrutura que sustenta aquele valor, permanece fora de leitura.
Na mesma fatura, porém, há uma cobrança específica: a Contribuição para o Custeio do Serviço de Iluminação Pública.
Até o bimestre de novembro-dezembro de 2025, o município arrecadou cerca de R$ 2,5 milhões por meio desse mecanismo, operacionalizado pela concessionária e destinado à manutenção da iluminação urbana.
O valor é objetivo. A lógica, não.
A presença dessa cobrança revela uma característica mais ampla do sistema elétrico brasileiro: a conta deixou de ser apenas a remuneração de um serviço. Tornou-se um ponto de convergência de encargos, tributos e mecanismos de compensação que operam com baixa transparência para quem paga.
Parte dessa engrenagem está nos encargos setoriais. A Conta de Desenvolvimento Energético concentra uma fração relevante desses recursos e financia políticas públicas diversas, de subsídios tarifários a custos estruturais do setor. O problema não é a existência desses mecanismos. É o modo como são sustentados: diretamente na fatura, fora do campo visível do debate orçamentário.
A conta, nesse caso, não apenas cobra.
Ela redistribui.
Esse movimento se amplia quando entram as chamadas perdas não técnicas, furtos de energia que, quando não contidos, são parcialmente absorvidos pelos consumidores regulares. O resultado é uma distorção silenciosa: quem paga corretamente passa a financiar, ainda que indiretamente, o consumo que não foi pago.
No campo tributário, a complexidade se intensifica.
O ICMS incidente sobre a energia elétrica é calculado no modelo “por dentro”, em que o imposto integra a própria base de cálculo. Na prática, a carga real supera a alíquota nominal. Uma taxa de 25% pode alcançar, na incidência efetiva, algo próximo de 33,3%. A diferença não aparece de forma explícita, mas impacta diretamente o valor final.
As bandeiras tarifárias completam esse arranjo. Apresentadas como mecanismo de ajuste em períodos de escassez hídrica, funcionam como transferência imediata de custos ao consumidor. O risco sistêmico não é absorvido. É repassado.
É dentro dessa estrutura que a realidade de Ipiaú se insere.
A contribuição destinada à iluminação pública existe, é arrecadada com regularidade e possui finalidade definida. Ainda assim, a experiência cotidiana da população revela falhas persistentes: pontos escuros, manutenção lenta e a necessidade de recorrer a intermediários para resolver demandas elementares.
Entre arrecadação e resultado, há um intervalo.
E esse intervalo não se explica apenas pela técnica.
Quando a cobrança é precisa e o retorno não se apresenta com a mesma clareza, o problema deixa de ser contábil. Torna-se público. Porque a conta funciona todos os meses. O serviço, nem sempre.
Em cidades de porte médio, onde a proximidade entre gestão e população deveria simplificar o acesso à informação, o que se observa é o contrário: arrecada-se com clareza, executa-se com menor visibilidade e explica-se menos do que o necessário.
Forma-se, assim, um desequilíbrio silencioso.
O cidadão paga com rigor.
O sistema responde com opacidade.
O caso de Ipiaú não se distingue por uma irregularidade evidente, mas por uma lógica recorrente: a naturalização de cobranças complexas sem transparência proporcional e sem retorno plenamente perceptível.
Há diferença entre arrecadar e demonstrar.
Há diferença entre cumprir a norma e produzir resultado público.
É nesse espaço que a distorção se instala.
Porque, no fim, a conta de energia deixou de ser apenas um documento de cobrança.
Ela se tornou um retrato.
E todo retrato, quando observado com atenção, revela não apenas o que se paga, mas o que ainda não se explica.
Procurados pela coluna, representantes do poder público municipal e do Legislativo foram questionados sobre a arrecadação, a execução dos recursos e as falhas apontadas na prestação do serviço. O vereador Robson Moreira questionou a análise da coluna anterior, mas não se manifestou sobre a atual.
O secretário Nasser Barros não se manifestou até o fechamento desta edição. O vereador Naciel Ramos informou: “Preciso de um tempo para responder seu questionamento, amanhã responderei para você”, mas não retornou.
O vereador Danilo Duarte não respondeu. Também não houve retorno dos vereadores Cláudio Nascimento e Milton Cruz (Picolé), da vereadora Andreia Novaes e do presidente da Câmara, Edson Marques.
O secretário de governo, Daniel Dias, declarou: “Me comprometo a reunir as informações junto às áreas responsáveis para lhe encaminhar uma resposta em breve. ” Até o fechamento, não houve retorno.
O conjunto das respostas, e das ausências, não encerra o debate. Ao contrário, o expõe. Entre manifestações parciais, pedidos de prazo e silêncios reiterados, o que se forma não é uma conclusão, mas um padrão.
Em temas que envolvem arrecadação pública e prestação de serviços essenciais, a informação não pode operar no tempo da conveniência. Transparência não é apenas disponibilizar dados quando solicitados, mas garantir que eles sejam compreensíveis, acessíveis e tempestivos.
Quando a resposta não acompanha a cobrança, o problema deixa de ser pontual. Passa a ser estrutural.
Porque, no espaço público, não é apenas o que se diz que constrói confiança. É, sobretudo, o que se explica, e o que se deixa de explicar.
Sobre o autor:
Estudante de Letras pela Universidade do Estado da Bahia, Thomas Leuri Souza atua como escritor, apresentador e entrevistador, documentarista, produtor e diretor audiovisual, além de produtor artístico. Desenvolve seu trabalho a partir do interesse por narrativas que atravessam memória, cultura e experiência social.
É criador do canal, Café com Prosa, espaço de diálogo e reflexão que reúne entrevistas e conversas sobre temas contemporâneos, cultura, educação e sociedade, e também do Podcast Narrativas Invisíveis, (Spotify) por meio do qual se dedica a dar visibilidade a histórias frequentemente silenciadas, promovendo reflexões sobre diversidade e inclusão.
No campo do jornalismo, assina a coluna Fora do Script, publicada aos domingos no portal Ipiaú Online.
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