domingo, 17 de maio de 2026

Fundador das Casas Bahia: o tempo da Justiça e o tempo das vítimas – Thomas Leuri Souza — Fora do Script

 


Samuel e o filho Saul Klein/ Divulgação

Durante décadas, Samuel Klein foi tratado como símbolo de uma ideia muito brasileira de ascensão: o imigrante pobre que construiu um império varejista, tornou-se referência empresarial e consolidou uma imagem pública associada ao trabalho, ao crescimento econômico e à prosperidade popular. Seu nome atravessou gerações como marca de sucesso. Literalmente.

Foi preciso que o tempo passasse, e que o jornalismo investigativo insistisse para que outra narrativa começasse a emergir por trás da imagem consolidada.

Nos últimos anos, reportagens publicadas pela Agência Pública reuniram relatos de mulheres que acusaram o fundador das Casas Bahia de abuso e exploração sexual ao longo de décadas. As investigações descrevem denúncias envolvendo meninas e mulheres em situação de vulnerabilidade social, além de um padrão de relações atravessadas por desigualdade econômica, dependência e silêncio.

Mais recentemente, o caso ganhou um novo capítulo judicial. Nesta semana, a Justiça de São Paulo tornou réu Saul Klein, filho de Samuel Klein, sob acusações de aliciamento, favorecimento à prostituição ou exploração sexual mediante ameaça, favorecimento à prostituição de vulnerável e organização criminosa. O processo decorre de investigações iniciadas em 2019, a partir de denúncias de mulheres que relataram ter sido atraídas com falsas promessas de trabalho como modelos, promotoras de eventos e garotas-propaganda.

Segundo os relatos reunidos durante as investigações, mulheres jovens, algumas vindas de outros estados, afirmam que eram conduzidas a propriedades ligadas ao empresário após processos seletivos simulados. Parte dessas denúncias sustenta que elas passavam a viver sob rotina rigidamente controlada, com vigilância de seguranças e pressão psicológica. O caso foi alvo de extensa cobertura jornalística e também se tornou tema do documentário Saul Klein e o Império do Abuso.

O Ministério Público chegou a analisar acusações ainda mais graves, incluindo estupro e transmissão de doença venérea. Parte dessas imputações, contudo, não avançou criminalmente por entendimento de insuficiência probatória quanto à ausência de consentimento. Ainda assim, outras acusações permanecem em curso no processo penal atualmente em tramitação.

A defesa de Saul Klein sustenta que as relações descritas pelas denunciantes ocorriam dentro de relações consensuais de dependência financeira e benefícios materiais, dinâmica frequentemente associada ao chamado universo “sugar daddy”. A Justiça, ao aceitar a denúncia, entendeu que a veracidade dessa tese deverá ser analisada ao longo da instrução processual, e não previamente.

O impacto do caso não está apenas nas acusações.

Está no tempo.

Porque há algo profundamente revelador em uma sociedade que leva décadas para conseguir olhar para determinadas histórias, especialmente quando elas orbitam figuras cercadas de prestígio, influência e poder econômico.

Casos assim raramente permanecem invisíveis por ausência absoluta de sinais. O que existe, quase sempre, é um pacto difuso de não enfrentamento. Uma espécie de tolerância silenciosa que se estabelece quando reputação, dinheiro e influência passam a ocupar mais espaço público do que as vozes que tentam denunciar o que acontece atrás das estruturas de poder.

Quando o caso Jeffrey Epstein explodiu internacionalmente, o mundo passou a discutir como redes de influência podem funcionar como mecanismos de proteção social. No Brasil, as revelações envolvendo Samuel e Saul Klein produziram um desconforto semelhante, embora muito menos intenso, muito menos permanente e muito menos central no debate público.

Talvez porque exista, no país, uma dificuldade histórica em confrontar figuras transformadas em patrimônio simbólico do sucesso nacional.

Empresários celebrados não acumulam apenas capital.

Acumulam legitimidade social.

E legitimidade, muitas vezes, produz uma blindagem que não depende da inexistência de denúncias. Depende da dificuldade coletiva de acreditar nelas.

É nesse ponto que o caso ultrapassa indivíduos específicos e expõe um problema estrutural: o tempo da Justiça raramente coincide com o tempo das vítimas.

Em situações de violência sexual, sobretudo quando atravessadas por vulnerabilidade social, trauma prolongado ou relações profundamente desiguais de poder, a denúncia quase nunca acontece no instante do abuso. O silêncio, nesses casos, não é vazio. É sobrevivência, medo, confusão, vergonha e, frequentemente, incapacidade emocional de elaborar o que aconteceu.

Há vítimas que passam anos tentando compreender a própria experiência antes de conseguir nomeá-la publicamente.

Mas o sistema jurídico opera em outra lógica.

O relógio institucional continua correndo mesmo quando o trauma permanece paralisado no tempo.

Parte das denúncias relacionadas a Samuel Klein esbarrou justamente na prescrição. Não porque os relatos tenham desaparecido, mas porque o tempo legal previsto para responsabilização já havia se encerrado quando muitas vítimas conseguiram falar.

A consequência produz uma contradição difícil de ignorar: fatos podem deixar de ser juridicamente puníveis sem deixar de ser moralmente devastadores.

É dessa tensão que nasce um debate cada vez mais presente no Brasil: até que ponto os mecanismos tradicionais de prescrição conseguem responder adequadamente a crimes marcados por trauma, silêncio e assimetria de poder?

A deputada federal Sâmia Bomfim defende alterações legislativas voltadas à ampliação do prazo para responsabilização civil em casos de abuso sexual. A parlamentar também se tornou uma das vozes públicas a tensionar o debate em torno do caso Samuel Klein, defendendo a ampliação da discussão sobre prescrição, memória das vítimas e responsabilização em crimes de violência sexual. Em manifestações públicas, Sâmia argumenta que o tempo institucional da Justiça frequentemente ignora o tempo psicológico necessário para que vítimas consigam denunciar abusos sofridos. A discussão ultrapassa divergências partidárias. O centro do debate é outro: a capacidade, ou incapacidade, das estruturas jurídicas compreenderem que vítimas reais não funcionam segundo a lógica linear do processo judicial.

Mas talvez exista uma dimensão ainda mais profunda nesse caso.

A da memória pública.

O Brasil convive com ruas, homenagens, monumentos e símbolos dedicados a personagens que, décadas depois, passam a ser associados a denúncias graves ou práticas incompatíveis com aquilo que hoje se entende como minimamente aceitável. Rever essas homenagens não é apenas um gesto administrativo. É um confronto com a própria narrativa que uma sociedade construiu sobre si mesma.

Porque memória pública nunca é neutra.

Toda homenagem é também uma escolha sobre aquilo que se decide preservar coletivamente.

E talvez uma das maiores dificuldades brasileiras esteja justamente aí: separar reconhecimento econômico de absolvição moral simbólica.

O jornalismo investigativo ocupa, nesse cenário, uma função incômoda, e essencial. Não porque substitua tribunais, mas porque frequentemente é ele que rompe o primeiro estágio da proteção social: o silêncio.

Investigar não significa condenar.

Relatar denúncias não equivale a sentença judicial.

Mas existe algo igualmente perigoso no extremo oposto: a naturalização da invisibilidade. A ideia de que determinadas estruturas de poder se tornam grandes demais para serem confrontadas publicamente.

Casos como esse não revelam apenas possíveis crimes.

Revelam os mecanismos que permitem que determinadas histórias permaneçam enterradas por tanto tempo, mesmo quando atravessam décadas, instituições, testemunhos e memórias.

Porque há fatos que podem prescrever juridicamente.

Mas há perguntas que continuam existindo muito depois do fim dos prazos legais.

E talvez a mais desconfortável delas seja justamente esta:

quantas histórias semelhantes ainda permanecem protegidas não pela ausência de relatos, mas pela força social de quem jamais deveria ser questionado?

Sobre o autor:

Estudante de Letras pela Universidade do Estado da Bahia, Thomas Leuri Souza atua como escritor, apresentador e entrevistador, documentarista, produtor e diretor audiovisual, além de produtor artístico. Desenvolve seu trabalho a partir do interesse por narrativas que atravessam memória, cultura e experiência social.

É criador do canal, Café com Prosa, espaço de diálogo e reflexão que reúne entrevistas e conversas sobre temas contemporâneos, cultura, educação e sociedade, e também do Podcast Narrativas Invisíveis, (Spoify) por meio do qual se dedica a dar visibilidade a histórias frequentemente silenciadas, promovendo reflexões sobre diversidade e inclusão.

 No campo do jornalismo, trabalhou no site Editoria Livre e assina a coluna Fora do Script, publicada aos domingos no portal Ipiaú Online

https://ipiauonline.com.br/

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