Elson Andrade comenta: Por que naturalmente desejamos a condenação para os outros e o perdão para si?

O algoritmo da hipocrisia: por que naturalmente desejamos a condenação para os outros e o perdão para si?
Nesta edição, o urbanista arquiteto Elson Andrade nos traz uma reflexão crítica sobre a verdadeira verdade, no modo automático, de um, ao julgar o outro – cidadão.

A sede por justiça, outrora contida nos ritos solenes e nas togas pesadas, transbordou para o cotidiano, revelando uma fratura exposta na alma humana: o desejo febril pela punição do “outro” e a indignação visceral quando o martelo da lei ousa bater à nossa própria porta. Mas o que parece ser uma mera falha de caráter é, na verdade, um complexo emaranhado de vieses cognitivos, heranças evolutivas e paradoxos sociológicos que definem a nossa espécie. Na era digital (insensibilidade ocasional e valentia sentencial, propiciada pela “presença” remota) vivemos um tempo de tribunais de bolso e sentenças em 140 caracteres instantâneos, ao passo de condenações em segundos.
Para compreender este fenômeno, precisamos realizar um exercício de arqueologia psíquica e jurídica, viajando desde as savanas africanas até o plano transcendental da existência humana, onde as regras do jogo foram — ou deveriam ter sido — escritas, de forma clara, prévia, isenta e impessoal.
- O Erro Fundamental: A Miopia do Observador
A primeira peça deste quebra-cabeça reside na psicologia social, especificamente no chamado Erro Diferencial de Atribuição. Como “juristas de ocasião”, aprendemos que a lei deve ser cega, mas como seres humanos, nossa visão é seletiva e enviesada.
Quando observamos um terceiro cometendo um delito (alta velocidade, som alto…) nossa mente opera uma simplificação cruel: atribuímos o erro ao caráter daquela pessoa (o outro). Se ele roubou, é um ladrão; se mentiu, é um mentiroso. É a chamada atribuição disposicional e taxativa com atribuição automática. A punição, neste caso, surge como um imperativo moral para “limpar” o tecido social de um elemento intrinsecamente defeituoso (dado a falta processual da legítima defesa).
No entanto, quando somos nós os protagonistas da falha, a lente e perspectiva mudam. Invocamos a atribuição situacional. Eu não menti porque sou um mentiroso, mas porque as circunstâncias me forçaram; eu não atropelei a norma porque a desprezo, mas porque o contexto era urgente e injusto. Para o eu, a punição soa como uma violência, uma incompreensão do sistema diante das nossas “boas intenções” circunstâncias. Essa assimetria ator-observador é o primeiro pilar da nossa hipocrisia punitiva: o outro é aquele que fez; eu sou o que tive que fazer, consequentemente.
- O Véu da Ignorância: A Constituição Ratificada Antes de Você Vir ao Mundo
Imagine, por um momento, um cenário hipotético metafísico. Se antes de nascermos, fossemos convocados a uma assembleia geral no “plano da existência humana”.
Para qual, e, substancial objetivo?
Votar as leis que regerão a Terra. Contudo, há um detalhe crucial: o Véu da Ignorância, conceito magistral de John Rawls. Você não sabe se nascerá homem ou mulher, rico ou pobre, juiz ou réu, neurotípico ou vulnerável.
Sob essa incerteza absoluta, a lógica do “punitivismo seletivo” desmorona. Se eu não sei se serei o policial ou o suspeito abordado, eu votaria por uma lei que permite o abuso de autoridade? Certamente não.
Se eu não sei se serei o herdeiro de uma fortuna ou alguém que passará fome, eu votaria por leis que criminalizam a sobrevivência? Jamais.
Neste estado pré-existencial, a justiça nasce da empatia compulsória. O medo de ser a vítima do rigor excessivo nos força a desenhar leis baseadas na equidade e alteridade. O Direito, em sua essência mais pura, é o que as pessoas escolheriam se não se apegasse em defesa de quem são. O problema é que, uma vez nascidos e posicionados em nossas castas sociais, rasgamos esse contrato original. O privilégio nos dá a ilusão de que a regra foi feita para conter “o perigoso”, e que nós, por sermos “nós”, estamos naturalmente acima da suspeita.
III. O Paradoxo da Composição: A Armadilha do Bem Individual Versus os Demais
Aqui, a conversa ganha uma camada de complexidade sistêmica ainda mais complexa e consequente. Entramos no terreno do Paradoxo da Composição: a ideia de que o que é benéfico para a parte, pode ser catastrófico para o todo. Onde o oximoro se faz presente. Quem nos propicia a Paz, é pois, justamente a iminência da violência estatal.
Individualmente, o “melhor dos mundos” para o ego humano é viver em uma sociedade onde todos são punidos severamente pelo menor deslize — garantindo a segurança e a ordem — enquanto eu possuo um “cartão de saída gratuita da prisão” (chave micha). É a busca pela impunidade pessoal em um mar de punitivismo alheio.
No entanto, quando essa lógica é coletivizada, o sistema colapsa. Se cada indivíduo vota por uma brecha para si, o resultado não é uma sociedade de liberdades, mas uma sociedade de anomia. Na arquibancada de um estádio, diante da visão individual prejudicada do anão, se consequentemente todos se levantam para enxergar melhor o jogo, ninguém enxerga nada, menos ainda o anão, além de todos terminam com as pernas cansadas.
Admitamos ou não, quem “garante” a Paz, é pois, a ameaça da violência estatal.
A sociologia nos ensina que a punição tem uma função de “cimento social” (Durkheim). Ela reafirma os valores do grupo. Quando desejamos a punição do outro, estamos tentando reforçar esse cimento. Quando rejeitamos a nossa, estamos retirando um tijolo da base. O paradoxo é que o ser humano médio quer a solidez da parede, mas quer ser o tijolo livre para se mover. É uma impossibilidade lógica que gera o ressentimento social que vemos nas redes sociais: o ódio contra o privilégio alheio misturado à defesa ferrenha dos nossos próprios benefícios, muitas vezes invisíveis.

- A Herança Evolutiva: O Vigilante e o Sobrevivente
Por que somos tão contraditórios, variantes e oportunistas?
A psicologia social evolutiva oferece uma resposta desconfortável. Durante milênios, viver em grupos exigia o controle rígido dos “caronistas” (aqueles que usufruíam do grupo sem contribuir). Desenvolvemos um instinto de vigilância punitiva para garantir a cooperação. Sentir prazer (ou um senso de dever) ao ver um infrator punido é um mecanismo psíquico-biológico de manutenção da espécie (comunidade).
Por outro lado, o instinto de sobrevivência pessoal nos obriga a evitar o custo da punição. Ser banido da tribo ou castigado significava morte certa na pré-história. Portanto, somos programados para sermos juízes vigilantes implacáveis dos outros e advogados habilidosos de nós mesmos. A contradição explícita, entre o sentido de pertencimento natural da espécie, e a “falha de caráter” que apontamos no vizinho, é, na verdade, o software de sobrevivência da nossa espécie, rodando contraditoriamente num hardware alheio. Se eu recebesse o jabá da Maré para copiar e colar a propaganda oficial… que mal teria nisso? Se não fosse eu e meu zelo, outro faria até pior.
- O Desafio do Jurista Contemporâneo
O Direito moderno nasceu para tentar domesticar esse paradoxo, na obtenção da Justiça. A Constituição, em sua teoria, é o nosso “Véu da Ignorância” escrito em papel. Ela existe para nos lembrar que a garantia dada ao pior dos criminosos é, em última análise, a única barreira que protege o melhor dos cidadãos quando a roda da sorte — ou o viés de alguém — se volta contra nós mesmos.

Enquanto indivíduos, precisamos de um choque de consciência psíquico-cronológica. Devemos entender que cada vez que clamamos por uma punição que atropela o devido processo legal para “o inimigo”, estamos assinando uma autorização para que o mesmo ocorra conosco no futuro.
O “punitivismo seletivo” é uma arma de dois gumes que sempre termina em sangue para ambos os lados. A verdadeira maturidade civilizatória ocorre quando o indivíduo, diante do espelho, admite: “Eu desejo que a regra me alcance com o mesmo rigor que desejo que alcance o outro (o não eu). Sem essa honestidade intelectual, não temos justiça; temos apenas um sistema de vingança organizada, onde o maior criminoso é aquele que ainda não foi pego pelo paradoxo da própria hipocrisia.
A justiça não é o que fazemos aos outros; é o que aceitamos que seja feito a todos nós, sem exceção. O resto é apenas auto preservação tentando se passar por moralidade. Ou, o mundo todo, sob o jugo da plataforma justiceira do meu umbigo.
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