A oposição olha para Salvador e a urna olha para o interior – Thomas Leuri Souza
postado em às 16:52

Há um erro de análise que costuma reaparecer a cada eleição na Bahia.
Ele parte da ideia de que o centro da política baiana está em Salvador.
Não está.
Salvador concentra poder institucional, visibilidade midiática, influência econômica e parte significativa do debate público. É da capital que saem as principais declarações, os grandes eventos políticos e a maior parte da cobertura jornalística. Mas, quando as urnas são abertas, a geografia eleitoral da Bahia costuma contar uma história diferente.
A eleição baiana não é decidida apenas na capital.
Ela é decidida nos territórios.
Os números de 2022 ajudam a compreender essa realidade com uma clareza difícil de ignorar.
No segundo turno da eleição presidencial, Lula venceu nos 27 territórios de identidade da Bahia. Na disputa pelo Governo do Estado, Jerônimo Rodrigues venceu em 22 dos 27 territórios.
O dado, por si só, já seria relevante. Mas ele se torna ainda mais significativo quando analisado em profundidade.
A média de votação de Lula nos territórios baianos foi de 72,9%. Em vinte dos vinte e sete territórios, o então candidato petista ultrapassou a marca de 70% dos votos válidos. Mesmo no Extremo Sul, onde registrou seu desempenho mais baixo, Lula alcançou 55,6%.
Não se trata de uma vitória circunstancial.
Trata-se de uma presença política territorializada.
Durante muito tempo, parte da análise política nacional acostumou-se a interpretar eleições a partir dos grandes centros urbanos. É um raciocínio compreensível. Capitais produzem visibilidade. O interior produz votos.
E nem sempre as duas coisas caminham na mesma direção.
Na Bahia, essa diferença é particularmente importante.
Quando Lula superou os 78% dos votos em determinados territórios, Jerônimo Rodrigues também ultrapassou os 65%. A correlação não aparece como mera coincidência estatística. Ela revela uma associação política construída ao longo de décadas de presença institucional, relações partidárias locais, alianças municipais e ocupação permanente do território.
O lulismo baiano deixou de ser apenas uma preferência eleitoral.
Transformou-se em estrutura política.
Essa talvez seja uma das diferenças mais importantes entre a Bahia e outros estados brasileiros.
Em muitos lugares, o voto presidencial e o voto estadual seguem caminhos distintos. Na Bahia, frequentemente caminham juntos. Onde Lula cresce, o PT tende a crescer. Onde o lulismo se fortalece, a candidatura estadual petista costuma encontrar terreno fértil.
O mapa eleitoral de 2022 ilustra isso de forma eloquente.
ACM Neto venceu em apenas cinco dos vinte e sete territórios de identidade do estado. Destes, apenas o território metropolitano apresentou uma vantagem realmente expressiva, com 61,3% dos votos e uma diferença superior a vinte pontos percentuais sobre Jerônimo Rodrigues.
Nos demais territórios conquistados pela oposição, as margens foram muito mais apertadas.
A observação é importante porque ajuda a compreender um fenômeno frequentemente ignorado pelo debate político.
Ganhar Salvador não significa ganhar a Bahia.
O território metropolitano concentra aproximadamente 24,4% do eleitorado estadual. Os outros quatro territórios vencidos por ACM Neto somam cerca de 16,8%.
Enquanto isso, os vinte e dois territórios conquistados por Jerônimo representam aproximadamente 58,8% do eleitorado baiano.
A matemática eleitoral ajuda a explicar por que campanhas estaduais bem-sucedidas raramente são construídas apenas a partir das grandes cidades.
A Bahia é extensa demais para caber em uma única lógica política.
E talvez seja exatamente por isso que algumas estratégias eleitorais mereçam atenção especial.
Nos últimos meses, o governo estadual e os partidos aliados intensificaram o Programa de Governo Participativo (PGP), iniciativa que percorre diferentes regiões do estado recolhendo propostas, demandas e prioridades locais.
À primeira vista, pode parecer apenas um instrumento administrativo de elaboração programática.
Mas política raramente acontece apenas na superfície.
O PGP também funciona como mecanismo de mobilização territorial, reforçando vínculos onde o lulismo já possui forte capilaridade política e social.
Enquanto isso, parte da oposição busca construir referências administrativas e políticas fora da Bahia, especialmente em estados como Goiás e São Paulo.
Não há nada de anormal nessa estratégia. Experiências bem-sucedidas costumam servir de inspiração para projetos políticos em todo o país.
Mas existe uma questão que os números de 2022 ajudam a evidenciar.
A eleição baiana possui uma lógica profundamente territorial.
E toda estratégia eleitoral que subestime essa característica corre o risco de dialogar intensamente com os espaços mais visíveis do estado, sem necessariamente alcançar os espaços que definem o resultado final da disputa.
É justamente nesse ponto que o interior volta ao centro da discussão.
Durante décadas, a política brasileira tratou o interior como periferia do debate público. As atenções se concentraram nas capitais, enquanto as dinâmicas territoriais foram frequentemente reduzidas a notas de rodapé.
As urnas, no entanto, costumam ser menos impressionáveis que os holofotes.
Elas registram presença política.
Registram capilaridade.
Registram organização territorial.
Registram capacidade de construir vínculos permanentes com a população.
E é isso que o mapa eleitoral da Bahia continua revelando.
A disputa de 2026 não será definida apenas pela força das redes sociais, pelos grandes eventos de campanha ou pela repercussão de discursos produzidos na capital.
Ela será definida, sobretudo, pela capacidade de cada grupo político de ocupar territórios, construir presença local e transformar influência regional em voto.
Porque, na Bahia, existe uma diferença que os números insistem em lembrar.
A política pode até olhar para Salvador.
Mas a urna continua olhando para o interior.
Thomas Leuri Souza é estudante de Letras pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), escritor, apresentador, entrevistador e documentarista.
Desenvolve trabalhos voltados à memória, à cultura e às questões sociais, com atuação em projetos de comunicação e audiovisual.
É autor do livro Filho de Angorô: a história de Pai Naldo, criador do canal Café com Prosa e do podcast Narrativas Invisíveis.
Publica aos domingos no portal Ipiaú Online e às segundas-feiras no site Editoria Livre.
https://ipiauonline.com.br/
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