domingo, 1 de março de 2026

Thomas Leuri estreia coluna no IPIAÚ ONLINE refletindo sobre repetição das enchentes na região

 


Crônica de uma cidade alagada: quando a água revela o que já estava à vista

Em Ipiaú, a chuva não chega como surpresa; chega como repetição. Repete-se o barulho insistente nas telhas, o transbordar dos rios, o avanço silencioso da água pelas ruas estreitas dos bairros periféricos, o desalento das famílias que, a cada estação chuvosa, reorganizam suas vidas em torno de perdas anunciadas.

Ipiaú Online

A cena se repete há décadas, com pequenas variações de intensidade, mas com a mesma estrutura de abandono e previsibilidade.

A cidade, marcada por enchentes recorrentes, tornou-se um retrato de como os desastres não são apenas naturais, são, sobretudo, sociais, políticos e históricos.

A cada novo período de chuvas intensas, emergem as mesmas imagens: móveis sobre tijolos, colchões encharcados, crianças ilhadas, adultos calculando prejuízos.

A cada nova gestão municipal, sucedem-se promessas, planos emergenciais, discursos de reconstrução. Mas, passado o pico da crise, a rotina retorna ao seu curso habitual, e com ela, a negligência.

O problema, entretanto, não se limita ao excesso de água. Ele se inscreve no modo como a cidade se expandiu e se reorganizou ao longo dos anos. O crescimento urbano de Ipiaú, especialmente em bairros como Santa Rita e ACM, ocorreu em muitos casos sobre áreas anteriormente ocupadas por vegetação nativa ou por terrenos rurais. A substituição da mata por loteamentos e condomínios alterou o regime natural de absorção do solo, acelerando o escoamento das águas pluviais e ampliando a vulnerabilidade das regiões mais baixas.

Ipiaú Online

A isso se soma a situação dos cursos d’água que atravessam a cidade. O Rio de Contas e o Água Branca, há muito tempo negligenciados, recebem grande parte do esgoto urbano e convivem com ocupações irregulares às suas margens.

São rios que, em vez de integrar a paisagem urbana de forma equilibrada, tornaram-se canais de risco e de degradação ambiental. A extração de areia em determinadas áreas, utilizada como insumo para o setor da construção civil, também contribui para a instabilidade das margens e para o agravamento das enchentes.

Divulgação PMI

Não se trata de um fenômeno recente. Os alertas sobre mudanças climáticas, intensificação de eventos extremos e elevação dos índices pluviométricos vêm sendo feitos há anos por instituições científicas e órgãos ambientais. Ainda assim, uma parte significativa da sociedade insiste em desconsiderar ou minimizar tais evidências, tratando-as como exagero ou fatalidade inevitável.

Essa descrença, aliada à ausência de políticas urbanas consistentes, forma o cenário ideal para a repetição das tragédias.

Redes sociais

Há, nesse contexto, uma dimensão social incontornável. Os mais atingidos pelas enchentes não são os mesmos que lucram com a expansão imobiliária ou com a exploração de recursos naturais.

São, em sua maioria, os moradores das áreas mais vulneráveis, aqueles que vivem à margem da cidade formal, com menor acesso a infraestrutura, saneamento e proteção social.

São essas famílias que, a cada temporal, veem seus poucos bens serem levados pela água, refazendo, em ciclos sucessivos, o esforço de reconstruir o que mal havia sido consolidado.

A pergunta que se impõe, portanto, não é apenas “por que chove tanto?”, mas “por que a cidade continua despreparada para a chuva que já se sabe inevitável?”.

Quem se beneficia da ocupação desordenada do solo? Quem ganha com a flexibilização de regras ambientais e urbanísticas? E quem arca, de fato, com os custos dessas escolhas?

Em meio ao caos das enchentes, há uma frase que se repete entre os atingidos: “o importante é que estamos vivos”. É uma afirmação que carrega, ao mesmo tempo, alívio e resignação. Alívio pela sobrevivência, resignação diante de perdas que se tornaram rotina. Mas ela também revela uma inversão cruel: quando sobreviver passa a ser o único consolo possível, é sinal de que a cidade falhou em garantir o mínimo, o direito a uma vida digna e segura.

A chuva em Ipiaú, portanto, não é apenas um fenômeno meteorológico. É um espelho que reflete desigualdades, escolhas políticas, interesses econômicos e a persistente distância entre planejamento e realidade. Enquanto essas dimensões não forem enfrentadas com seriedade e continuidade, a cada nova estação chuvosa, a cidade continuará a escrever a mesma história, com água, lama e silêncio.

Thomas Leuri é estudante de Letras pela Universidade do Estado da Bahia, é professor de Língua Portuguesa, artista, escritor e documentarista. Apaixonado pela literatura e pelo audiovisual, atua na interseção entre educação, cultura e comunicação, desenvolvendo narrativas críticas e sensíveis.

https://ipiauonline.com.br/

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