quarta-feira, 11 de março de 2026

Thomas Leuri de olho no jogo político analisa o tabuleiro pesado da sucessão baiana

 


Entre aproximações discretas, cálculos eleitorais e velhas máximas do interior, a política da Bahia começa a montar, peça por peça, o quebra-cabeça da próxima eleição estadual

Há momentos em que a política deixa de ser apenas disputa e passa a se parecer com outra coisa: um exercício permanente de sobrevivência.

Na Bahia, a montagem das chapas majoritárias para a próxima eleição estadual começa a revelar exatamente esse tipo de atmosfera. Nos bastidores, alianças mudam de direção com surpreendente naturalidade, conversas atravessam fronteiras partidárias e lideranças regionais se movimentam com a cautela de quem sabe que cada passo pode definir o próprio futuro político.

No fundo, a lógica que orienta muitos desses movimentos é antiga e conhecida no interior do país. Uma daquelas frases que sobrevivem às gerações e às ideologias:

Farinha pouca, meu pirão primeiro

Foi sob esse espírito que o prefeito José Ronaldo de Carvalho (União Brasil), liderança histórica do município, atravessou a cidade para conversar com duas figuras centrais do atual governo estadual: o senador Jaques Wagner e o governador Jerônimo Rodrigues.

Oficialmente, nada além de conversas institucionais.
Mas, na política baiana, encontros desse tipo raramente são apenas encontros.

Se não era política, seria o quê?

A pergunta circula com certa ironia entre observadores mais atentos da cena estadual. Afinal, Feira de Santana é um dos polos eleitorais mais estratégicos do interior baiano, e a força política construída ali por José Ronaldo sempre foi considerada peça importante em qualquer projeto de poder.

Essa mesma força, aliás, foi subestimada na eleição de 2022.
Naquele momento, o grupo liderado pelo ex-prefeito de Salvador ACM Neto decidiu não incorporar José Ronaldo à chapa majoritária. O cálculo parecia simples: liderando as pesquisas, Neto acreditava que poderia vencer sem grandes concessões políticas.

A história mostrou outra coisa.

A ausência de uma liderança forte de Feira de Santana na composição acabou sendo apontada por analistas como um dos fatores que fragilizaram a estratégia eleitoral da oposição naquele pleito.

A política, como se sabe, raramente perdoa erros de cálculo.

Quando o poder chama, prefeitos escutam

Mas o movimento de aproximações não se limita a Feira de Santana.

No sudoeste do estado, em Jequié, outro personagem passou a ocupar o centro das especulações políticas. Trata-se do prefeito Zé Cocá.

Eleito pelo Progressistas, historicamente associada ao grupo político de ACM Neto, o gestor jequieense tem sido visto cada vez mais próximo do campo governista.

Na política, esses gestos raramente são inocentes.

Entre abraços públicos, declarações institucionais e encontros administrativos, Zé Cocá parece se deslocar gradualmente em direção ao grupo liderado pelo governador Jerônimo Rodrigues.

É um movimento que ilustra bem o pragmatismo que costuma orientar a política brasileira.

Até certo ponto, há afinidade.

Depois disso, entra em cena algo bem mais concreto: a lógica do poder.

E o poder, nesse contexto, tem significados muito práticos. Poder é orçamento, obra, inauguração, presença institucional. Para gestores municipais que precisam administrar cidades e, ao mesmo tempo, projetar seus próprios futuros políticos, a proximidade com quem governa pode representar uma vantagem decisiva.

Na política brasileira, há uma regra não escrita que costuma orientar esses deslocamentos:

Quem está no poder larga na frente

Enquanto prefeitos avaliam caminhos, outro eixo de tensão se forma no centro da montagem da chapa governista: a disputa pela vaga ao Senado.

Ali, a situação envolve dois nomes experientes da política baiana: os senadores Angelo Coronel e Otto Alencar.

A relação entre os dois sempre foi marcada por proximidade política e pessoal. Compadres, aliados e parceiros de longa data.

Mas, quando a disputa por espaço em uma chapa majoritária começa, até vínculos antigos passam a ser testados.

Coronel tem demonstrado disposição clara para permanecer na corrida pela vaga ao Senado. Otto, por sua vez, prefere adotar cautela: primeiro reorganizar o espaço político dentro do governo, depois discutir o restante da composição.

Nos bastidores, chegou a circular uma alternativa intermediária: Jaques Wagner disputaria o Senado, Coronel assumiria a posição de primeiro suplente e herdaria o mandato caso Wagner fosse chamado para um ministério em um eventual novo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A proposta não prosperou.

Desde então, o senador intensificou articulações em Brasília e ampliou seus movimentos políticos, alimentando novas especulações sobre o futuro da chapa governista.

Na política, alianças raramente são definitivas.
Elas costumam durar apenas enquanto o tabuleiro permanece equilibrado.

Enquanto isso, do outro lado da disputa, ACM Neto observa o cenário com cautela.

A estratégia, segundo interlocutores próximos, é simples: aguardar a definição completa da chapa governista antes de anunciar sua própria composição.

Trata-se de um cálculo clássico da política.

Primeiro ver quem sobra do outro lado.

Entre os nomes que circularam nesse processo esteve o do ex-deputado federal e pré-candidato ao Senado, Marcelo Nilo (Republicanos). Durante meses, o parlamentar manteve proximidade com articulações da oposição, alimentando a possibilidade de integrar uma composição majoritária.

Nos bastidores, porém, a avaliação predominante indicava outro desfecho.

A trajetória política de Nilo, marcada por passagens sucessivas por diferentes grupos e alianças ao longo dos anos, tornava sua permanência nesse espaço cada vez mais improvável.

Nos últimos dias, essa percepção acabou se confirmando.

No fim das contas, a política baiana segue avançando como sempre avançou: por meio de conversas discretas, aproximações inesperadas e cálculos eleitorais cuidadosamente medidos.

Cada gesto pode alterar o equilíbrio do jogo.

Cada silêncio pode esconder uma decisão.

E, quando o tabuleiro começa a se fechar, quase todos os jogadores chegam à mesma conclusão silenciosa:

Na política, o problema nunca é mudar de posição.

O verdadeiro risco é ficar longe do poder.

Thomas Leuri é estudante de Letras pela Universidade do Estado da Bahia, é professor de Língua Portuguesa, artista, escritor e documentarista.

Apaixonado pela literatura e pelo audiovisual, atua na interseção entre educação, cultura e comunicação, desenvolvendo narrativas críticas e sensíveis.

https://ipiauonline.com.br/

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