sábado, 7 de março de 2026

Thomas Leuri analisa o que significa politicamente visita de ACM Neto a Ipiaú

 


A política que chega antes do político

Em cidades do interior, a política raramente começa no momento em que o microfone é ligado. Antes disso, ela já percorreu um caminho discreto: passou pelas mesas de café, atravessou conversas nas portas das lojas e ganhou interpretações nas rodas que se formam nas praças ao entardecer.

Quando um político anuncia visita, quase sempre encontra a cidade já debatendo sua presença.

Foto: Divulgação

Foi nesse ambiente que começou a circular, em Ipiaú, a notícia da passagem do ex-prefeito de Salvador e pré-candidato ao governo da Bahia, ACM Neto. A agenda não surgiu de improviso: fazia parte de compromissos previamente estabelecidos que incluíam um encontro com produtores e lideranças regionais no Sindicato dos Produtores Rurais e a cerimônia de entrega do título de cidadão ipiauense, honraria aprovada pela Câmara Municipal em 2018.

Mas, como costuma acontecer em cidades onde a vida pública se mistura com o cotidiano, a política já havia começado antes mesmo da chegada do visitante.

Nos dias que antecederam a agenda, o debate ganhou forma nas manifestações de lideranças locais. O vice-prefeito Orlando Santos foi um dos primeiros a se posicionar. Em tom crítico, questionou o impacto prático da visita e observou que, em sua avaliação, o município não teria recebido investimentos ou emendas vinculadas ao grupo político do ex-prefeito de Salvador.

A lembrança de um episódio ocorrido anos antes também voltou à cena. Orlando recordou que, quando a Câmara Municipal apreciou a concessão do título de cidadão ipiauense a ACM Neto, votou contra a homenagem. Segundo afirmou, sua posição à época refletia uma leitura política daquele momento.

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No interior, a memória das decisões públicas raramente se dissolve com o tempo. Ela costuma reaparecer quando o debate político ganha intensidade.

A vereadora Mônica Souza também se manifestou, ampliando a discussão para além da visita em si. Ao comentar o cenário regional, destacou a necessidade de articulação política em defesa de interesses econômicos locais, especialmente aqueles ligados à cadeia produtiva do cacau, atividade que há décadas influencia o desenvolvimento do sul da Bahia.

Entre os pontos mencionados pela parlamentar esteve a mobilização recente em torno da suspensão da importação de cacau africano, pauta defendida por produtores da região como forma de proteger a produção local diante da concorrência internacional.

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Enquanto essas posições circulavam no debate público, a cidade aguardava a chegada do visitante.
Quando finalmente chegou a Ipiaú, ACM Neto encontrou um ambiente que já havia começado a interpretar politicamente sua passagem pelo município.

O encontro realizado no Sindicato dos Produtores Rurais reuniu produtores, lideranças políticas e moradores interessados em acompanhar as posições do ex-prefeito sobre o cenário político da Bahia.

Em espaços como esse, onde economia regional e política frequentemente se encontram, as falas costumam ultrapassar os limites do município e dialogar com um quadro mais amplo.

Durante sua intervenção, ACM Neto abordou o momento político do estado e comentou articulações que começam a se desenhar no campo da oposição baiana.

Entre os nomes citados esteve o do prefeito de Jequié, Zé Cocá. O ex-prefeito afirmou que o gestor representa uma liderança importante na região e observou que qualquer eventual composição política dependeria não apenas de sua avaliação, mas também da decisão do próprio prefeito.

Na mesma linha, mencionou a prefeita de Vitória da Conquista, Sheila Lemos, apontando sua presença consolidada no atual cenário político baiano.

Ao tratar da condução administrativa do estado, ACM Neto também apresentou críticas à trajetória do Partido dos Trabalhadores (PT) na Bahia, mencionando aquilo que considera desafios persistentes na gestão pública estadual.

Depois do encontro e da cerimônia que oficializou sua condição de cidadão ipiauense, a agenda seguiu seu curso.

Mas, em cidades como Ipiaú, visitas políticas raramente terminam quando os compromissos formais se encerram. Depois que os discursos acabam e as comitivas partem, o debate continua circulando pelas mesmas mesas de café e pelas mesmas rodas de conversa onde, muitas vezes, começa a política do interior.

É nesse território menos formal, longe dos palanques, mas profundamente atento aos gestos da vida pública, que cada visita ganha seu verdadeiro significado. Ali, as falas são revisitadas, os gestos são interpretados e as presenças são medidas não apenas pelo que disseram, mas pelo que representam no jogo político mais amplo.

No interior da Bahia, a política não se esgota no evento. Ela continua vivendo na memória das conversas. E, muitas vezes, é justamente nessas conversas, discretas, persistentes, espalhadas pela cidade, que se começam a desenhar os próximos movimentos da política estadual

Thomas Leuri é estudante de Letras pela Universidade do Estado da Bahia, é professor de Língua Portuguesa, artista, escritor e documentarista.

Apaixonado pela literatura e pelo audiovisual, atua na interseção entre educação, cultura e comunicação, desenvolvendo narrativas críticas e sensíveis.

https://ipiauonline.com.br/

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