domingo, 18 de janeiro de 2026

EUA: Uma história de poder sustentada pela teoria do destino manifesto e pela ambição de um “domínio” global ultrapassado

  postado em  às 08:43

Nesta edição, o arquiteto e urbanista Elson Andrade nos traz uma análise histórico crítica, sobre o papel desempenhado pelos Estados Unidos na sua formação e expansão. Sua reflexão evidencia como a política norte-americana, historicamente marcada por fundamentos teocráticos misturados a política e poder econômico, se consolidou através da imposição cultural (via Soft Power) e pela utilização de instrumentos concretos de força, sejam eles monetários ou bélicos. Andrade caracteriza essa prática como expressão de um imperialismo que, embora tenha garantido hegemonia por décadas, revela-se hoje insaciável, perigoso e anacrônico diante das transformações do sistema mundial multipolar.

Reprodução: Brasil Escola Uol

A Estruturação do Modelo

Para compreendermos o surgimento e a ascensão dos Estados Unidos como uma potência global, é necessário antes de mais nada, enxergar o funcionamento de um “software” ideológico, associada em certa medida a uma crença e “fundamentos teológicos”, composto por um triângulo de forças: a Religião, a Política e a Economia. Conforme indicam os registros históricos, esses três elementos não operam de forma isolada, mas se retroalimentam para justificar o domínio territorial, ideológico e a influência geopolítica, se fundindo e confundindo, naquilo que vem a ser a cultura dominante.

  1. A Religião: O Alicerce Moral (O “Porquê”)

A religião fornece a base de unicidade terrena supostamente interconectada ao divino, para justificar as ações de dominação. No caso americano, isso “nasceu com os puritanos” do século XVII, que se viam como um “povo eleito” com um mandato direto dos céus. O sermão de John Winthrop sobre a “cidade sobre a colina” estabeleceu a crença de que os EUA eram uma nação moralmente superior, cujas ações eram guiadas pela providência divina. Esse componente religioso transformou a expansão em uma missão redentora, onde qualquer resistência (seja de povos indígenas ou outras nações) era vista como um obstáculo ao desígnio de Deus.

  1. O Estado: O Operador Político (O “Como”)

O Estado, operado por políticos e grupos de domínio ricos e à espreita (a verdadeira mão invisível), traduz essa convicção religiosa em políticas públicas e estratégias militares. Figuras como Thomas Jefferson e John Quincy Adams foram os arquitetos que transformaram o messianismo em pragmatismo político. Jefferson defendia que a sobrevivência da República dependia da expansão permanente, enquanto a Doutrina Monroe estabeleceu legalmente o hemisfério ocidental como zona de influência exclusiva dos EUA. O Estado atua como o braço executor que organiza rotas de colonização, protege interesses privados com forças militares e cria marcos jurídicos, como a decisão do caso Dred Scott, para definir quem faz parte do projeto nacional e quem está excluído.

Comentário Oportuno no Texto:

Comparativamente, talvez esse seja um dos motivos do laicismo recente brasileiro, ter-nos dado a sensação de que no Brasil, há tempos, não temos mais um projeto de Nação! Lembrando que o Laicismo é a doutrina ou princípio político que defende a separação entre o Estado e as instituições religiosas, garantindo a neutralidade do governo em assuntos de fé e a liberdade de crença ou descrença para todos os cidadãos, sem impor dogmas religiosos ou ateístas na esfera pública, sendo o Estado laico a prática desse princípio, buscando a liberdade e o respeito à pluralidade. Diferente de ser anticlerical, o laicismo não persegue a religião, mas a confina à esfera privada, permitindo a manifestação religiosa desde que não interfira nas decisões estatais ou suas respectivas hierarquias. 

Reprodução: Wikipedia John Gast 1872
  1. O Comércio e a Economia: O Poder Objetivo (O “Combustível”)

A economia é o motor que sustenta e impulsiona o avanço do sistema. As fontes mostram que a cidade de St. Louis foi um “laboratório de articulação entre estado, mercado e ideologia”, onde o comércio de peles e o capital privado financiaram a expansão para o oeste. No século XX, esse poder econômico atingiu seu ápice na Conferência de Bretton Woods, onde os EUA impuseram goela abaixo ao mundo, o dólar como moeda global (dado a sua hegemonia bélica) e criaram instituições como o FMI e o Banco Mundial para gerir o sistema financeiro mundial a partir de Washington. O mercado financeiro e a liberdade de comércio tornaram-se ferramentas de “soft power”, “convencendo” outras nações a “aceitarem” (sem alternativas) à hegemonia financeira americana em troca de estabilidade econômica.

O Software do Domínio Temporal

Essa triangulação funciona como um sistema operacional que roda em um tempo e cultura dominante para garantir a gerência via grupos específicos (historicamente, homens predominantemente brancos, proprietários de empresas transnacionais, negócios globais, conglomerados físicos e digitais, bancos… na condição de elite financeira).

  • A Religião santifica a ambição;
  • O Estado a legaliza e defende;
  • A Economia a torna lucrativa e sustentável.
  • A unanimidade, via conglomerado de empresas e sistemas financeiros que tudo vê e controla, na “invisibilidade” digital (Big Techs), captura e processamento maciço de dados e imagens.

Juntos, eles criam a “certeza perigosa” de que o modelo de civilização americano é o único caminho possível para o futuro, seja no continente, no planeta ou, como sugerido por discursos recentes, até no espaço sideral.

Reprodução: dreamstime.com/

 

A Implantação de Um Soft Power “Teológico”

Imagine uma nação que acredita ter recebido um mandato direto dos céus para liderar, expandir e dominar. Essa crença, que fundamenta a ideia de que os Estados Unidos são um povo escolhido, não é apenas um conceito abstrato, mas uma engrenagem fabricada peça por peça desde o século XVII. Na história da humanidade, essa na verdade já deve ser a “enésima” versão de povos que se autodeclaram o legítimo e único “Povo de Deus”. Tudo providencialmente, gravado e cultuado em seus respectivos livros sagrados (conforme a diversas culturas, tempos, impérios e lugares) já chegaram a escrever em seus livros sagrados, tais obstinações.

Num capítulo mais recente da história, os EUA, que começou com puritanos em busca de uma “Nova Canaã”, eis que surge quem teve uma brilhante ideia:  Transformar em missão, como desculpa para anexar territórios, derrubar governos e, mais recentemente, projetar poder através do cinema e da exploração espacial.

As Raízes Teológicas: A “Cidade sobre a Colina”

O conceito de excepcionalismo americano, a ideia de que os EUA são uma nação singular e moralmente superior, tem raízes teológicas profundas. Em 1630, o líder puritano John Winthrop proferiu o sermão “Um Modelo de Caridade Cristã”, afirmando que sua comunidade seria uma “city upon a hill” (cidade sobre a colina), observada por Deus e pelo mundo.

Reprodução: Brasil Escola Uol

Para os colonos ingleses, a América não era um território alheio a ser compartilhado, mas um espaço concedido pela providência divina a um povo eleito. Nesse enquadramento, as populações indígenas não eram vistas como soberanas legítimas, ou, também filhos do mesmo criador… mas como um obstáculo ao desígnio divino. Com o tempo, esse excepcionalismo religioso foi secularizado, transformando-se em excepcionalismo político: a jovem república passou a se ver como a nação do futuro, destinada a corrigir os erros do “Velho Mundo” europeu. Se Deus tem se mantido verdadeiramente calado ao longo dos séculos, oportunamente, de vez em quando, eis que surge na história da humanidade, aqueles grupos fechados, ensimesmados, que se autodeclare representante pontífice original do ser criador.

Santo Louis: O Ponto de Articulação da Expansão

No século XIX, a cidade de St. Louis, no Missouri, tornou-se o principal pivô geopolítico desse projeto. Localizada na confluência dos rios Mississippi e Missouri, a cidade funcionava como a “Porta de Entrada para o Oeste” (Gateway to the West). Foi a partir de St. Louis que os EUA organizaram as grandes rotas de colonização, como a Oregon Trail e a Santa Fé Trail, transformando o avanço territorial em um empreendimento estatal sistemático.

Essa expansão foi impulsionada pela Compra da Louisiana em 1803, quando o governo americano adquiriu mais de 2 milhões de quilômetros quadrados da França napoleônica por centavos o hectare. A transação, embora diplomática, ignorou completamente a soberania de povos indígenas como os Missouria e os Iliniwek, que habitavam a região. Além disso, St. Louis tornou-se um laboratório de hierarquia racial; em 1857, o caso Dred Scott versus Sandford, julgado na cidade, declarou que pessoas negras não poderiam ser cidadãs, vinculando o direito à terra à identidade racial.

Thomas Jefferson e a Necessidade da Expansão

Thomas Jefferson, o terceiro presidente e autor da Declaração de Independência, foi um dos grandes teóricos desse avanço. Jefferson acreditava que a sobrevivência da República dependia da expansão territorial permanente. Para ele, a democracia só subsistiria se fosse sustentada por homens brancos e proprietários de terras; sem novas áreas, o país degeneraria em pobreza e conflito, como a Europa. Em 1802, ele escreveu que a expansão não era uma escolha, mas um destino político inevitável. Essa visão pressupunha que as tribos indígenas deveriam se submeter, deslocar-se ou enfrentar a “destruição total”.

A Doutrina Monroe: O Hemisfério sob Nova Gerência

Em 1823, o presidente James Monroe estabeleceu um marco na política externa: a Doutrina Monroe. Formulada para responder a ameaças da Rússia no Pacífico e da Santa Aliança na América Latina, a doutrina declarava que os continentes americanos não estavam mais sujeitos à colonização europeia.

Embora parecesse uma defesa da independência latino-americana, a doutrina foi uma manobra unilateral. O secretário de Estado, John Quincy Adams, rejeitou uma proposta de aliança com a Grã-Bretanha para manter as mãos dos EUA livres para futuras expansões, como as do Texas e de Cuba. A mensagem era clara: a Europa deveria ficar fora, garantindo que os EUA tivessem o campo livre para sua própria hegemonia imperialista no hemisfério ocidental.

O Destino Manifesto: O Nome da Ideologia

Foi apenas em 1845 que o termo “Destino Manifesto” foi cunhado pelo jornalista John O’Sullivan. Ao justificar a anexação do Texas, ele afirmou que era o “cumprimento do nosso destino manifesto de cobrir o continente atribuído pela providência”. O uso das palavras não foi acidental: se era “manifesto”, não precisava ser provado; se era “destino”, não poderia ser recusado.

Essa ideologia funcionava como uma blindagem moral para ações violentas. A guerra contra o México (1846-1848), que resultou na perda de metade do território mexicano para os EUA, foi apresentada como um progresso inevitável e uma autodefesa continental. O caráter racial era explícito; O’Sullivan chegou a escrever que a “raça mexicana” deveria se amalgamar à “anglo-saxônica” ou perecer.

A Consolidação Visual e o Fim da Fronteira

A cultura visual do século XIX ajudou a naturalizar essa conquista. A pintura “American Progress” (1872), de John Gast, mostra uma figura feminina angelical levando luz, tecnologia e livros escolares para o oeste, enquanto indígenas e bisontes fogem para as sombras. O massacre não é retratado como crime, mas como uma sucessão natural e ecológica.

Contudo, em 1890, o censo americano declarou que a fronteira interna estava fechada. Isso gerou uma crise de identidade, teorizada por Frederick Jackson Turner na sua “Tese da Fronteira”. Turner argumentava que o caráter americano era moldado pelo avanço sobre a “terra livre”; sem uma fronteira, a nação correria o risco de estagnar. A solução foi deslocar a fronteira para além dos mares.

Do Imperialismo Ultramarino ao Espaço

A Guerra Hispano-Americana de 1898 marcou a transição para um imperialismo global, colocando Filipinas, Porto Rico e Cuba sob controle ou influência direta de Washington. O senador Albert Beveridge resumiu a nova fase: Deus havia preparado os povos de língua inglesa para serem os “mestres organizadores do mundo”. A missão de civilizar o oeste tornou-se a missão de civilizar o planeta, muitas vezes sob a justificativa de “assimilação benevolente”.

Essa mentalidade persiste no século XXI. O ex-presidente Donald Trump recuperou o vocabulário clássico em seus discursos, projetando o Destino Manifesto rumo às estrelas e afirmando o direito de fincar a bandeira americana em Marte. A lógica permanece a mesma de Jefferson e O’Sullivan: a expansão territorial como um direito natural e uma missão histórica.

Foto/reprodução: Getty Images via BBC – Versão original do Grande Selo dos Estados Unidos

 

Soft Power: O Destino Manifesto no Cinema

A vitória final do Destino Manifesto não ocorreu apenas com soldados, mas através do soft power. Hollywood transformou o genocídio indígena na epopeia civilizatória dos Westerns e o revisionismo histórico em heroísmo, como em Rambo. Filmes como Independence Day sugerem que, sem a liderança americana, a humanidade estaria perdida, enquanto Top Gun: Maverick reforça o direito unilateral de bombardear nações “fora da lei” sem necessidade de diplomacia internacional.

O cinema convenceu o mundo a torcer pelo império. Como explica Joseph Nye, o poder não é apenas coagir, mas atrair. Ao aprendermos a aplaudir o herói americano na tela, aceitamos a premissa de que existe um povo escolhido para salvar o restante de nós.

O Império da Certeza: A Arquitetura do Poder Exorbitante dos EUA

Os Estados Unidos não se tornaram uma potência por acaso; eles construíram um poder exorbitante fundamentado em uma tríade de domínio: economia, ideologia e cultura. Essa hegemonia consolidou-se em momentos cruciais, como a Conferência de Bretton Woods (1944), onde os EUA ditaram as regras da nova ordem mundial. Na ocasião, o país impôs o dólar como a moeda de reserva global, lastreada em um estoque de ouro que representava dois terços das reservas mundiais na época. Ao sediar o FMI e o Banco Mundial em Washington, os EUA garantiram o controle institucional da arquitetura financeira do planeta.

Esse poder financeiro é a face visível de uma convicção messiânica: o Destino Manifesto. Enraizada na ideia puritana de serem uma “cidade sobre a colina”, essa ideologia transformou a expansão territorial em um mandato divino. O que começou com a anexação de terras indígenas e mexicanas evoluiu para a Doutrina Monroe, que declarou o hemisfério ocidental como zona de influência exclusiva americana. Na prática, a doutrina substituiu o colonialismo europeu por uma hegemonia unilateral que, ao longo do século XX, justificou intervenções militares e o controle econômico da América Latina, tratada como o “quintal” de Washington.

Contudo, o poder exorbitante americano não reside apenas em exércitos ou bancos. O país domina o sistema do soft power através de Hollywood, das Big Techs, do culto ao consumismo, da ideologia reinante, das agências de notícias internacionais, da captura maciça de dados embutida nos softwares de eletrônicos em geral… que naturalizaram costumeiramente a liderança dos EUA como a única via para a ordem global. Filmes de guerra e ficção científica transformaram invasões em “autodefesa heroica” e massacres em “epopeias civilizatórias”, convencendo o mundo a desejar a presença do império.

Reprodução: Wikipedia

 

Hoje, essa ambição não reconhece limites físicos. Com o fechamento das fronteiras terrestres, a retórica política americana já projeta o Destino Manifesto rumo às estrelas, reivindicando o direito de liderar a colonização de Marte. Seja controlando o fluxo de capitais ou as narrativas nas telas, a presença obrigatória de milhões de bandeiras, nos filmes e fachadas… os EUA se impõem e operam sob a certeza perigosa de que sua civilização é o único futuro possível para a humanidade. A fronteira não desapareceu; ela apenas tornou-se invisível e global.

Oportunamente, a piada que surge a essa altura do texto, é que talvez caiba agora ao Irã, tentar abrir os olhos dos cidadãos americanos que isso é uma ilusão, manipulação político-religiosa barata, manjadíssima, e portanto, um barco furado.

Em resumo, desde o sermão de Winthrop no século XVII até as intervenções na América Latina e as promessas de colonização espacial, o Destino Manifesto é uma ideologia em constante mutação e reinterpretação ocasional. Ele transformou o hemisfério ocidental em uma zona de influência exclusiva e substituiu o imperialismo europeu por uma hegemonia americana vestida de “defesa da liberdade”. A fronteira não acabou; ela apenas tornou-se invisível, movendo-se conforme os interesses econômicos e tecnológicos da potência que se recusa a parar de crescer (ou pelo menos, fingir que ainda seja relevante) diante do potencial e atual multilateralismo global.

Para entender o mundo atual, é preciso compreender que o Destino Manifesto nunca foi apenas sobre mapas ou terras vazias; foi sobre a certeza perigosa de que um único caminho civilizatório seria o único futuro possível, mas que, não pertence necessariamente a um só povo, tempo e lugar; mas sim, a um só e único Deus: que permanece em sua infinita sabedoria e bondade, sabiamente, em silêncio.

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Da redação: Elson Andrade – que é arquiteto, urbanista, empresário desenvolvimentista, pós-graduado pelo Instituto de Economia da Unicamp.

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