sexta-feira, 14 de abril de 2023

Pep Guardiola quer provar que "não pensa além da conta" na Liga dos Campeões

 

 

Jogadores importantes deixados de fora. Uma nova tática mirabolante. Um time que leva alguns tempos para ser entendido.

Pode parecer maluquice, mas é o que pode acontecer quando o Manchester City enfrentar o Bayern de Munique, pelas quartas-de-final pela Liga dos Campeões.

A imprensa inglesa chama de “overthinking” a sina de mudanças de Pep Guardiola em jogos grandes e eliminatórios, o que até agora não se provou efetivo - o City ainda busca sua primeira conquista.

Pep Guardiola durante entrevista coletiva do Manchester City antes do jogo contra o RB Leipzig — Foto: Reuters

Pep Guardiola durante entrevista coletiva do Manchester City antes do jogo contra o RB Leipzig — Foto: Reuters

O maior exemplo é a final disputada em Lisboa, contra o Chelsea. Favoritos, o City entrou em campo sem Rodri ou Fernandinho pela primeira vez em 61 jogos. A falta de um meio-campista defensivo gerou burburinho, mas Phil Foden também foi movido da ponta esquerda para o meio-campo. Raheem Sterling, que não era titular, entrou de surpresa e Kevin De Bruyne atuou como falso nove.


Pressão na bola do Chelsea foi perfeita e anulou a criação do City — Foto: Reprodução

Pressão na bola do Chelsea foi perfeita e anulou a criação do City — Foto: Reprodução

Resultado? O City teve a bola e pouco invadiu a área dos Blues. O gol de Kai Havertz deixou claro que a mudança de Pep simplesmente partiu a equipe em dois. Por acaso do destino, o treinador daquele dia, Thomas Tuchel, reencontra Pep hoje.

Foi um risco que deu errado, e as mudanças contra o Lyon na temporada passada acenderam a tese do pensamento exagerado de Pep. Mas é preciso entender também que muitas mudanças se provaram eficazes.

Uma delas foi contra o Atlético de Madrid, adversário que é pedra no sapato de todo mundo. Num jogo extremamente tenso, Pep colocou o City com Rodri e Gundogan no meio e quatro meio-campistas sem guardar posição, mas mais recuados, fechando a defesa com duas linhas de quatro. O City segurou uma pressão absurda e passou de fase.

Quando perguntando sobre a tese, Pep Guardiola já admitiu que tende a "pensar demais" nas táticas para grandes jogos.

Os oponentes têm maneiras diferentes de jogar. Se as pessoas acham que eu vou abordar o Atlético da mesma maneira que o Liverpool, não me importo - não penso nisso. Os movimentos do Liverpool são completamente diferentes dos do Atlético de Madrid, especialmente porque cada jogador é diferente. Eu tenho que me adaptar. É por isso que adoro pensar demais em táticas estúpidas, e se não ganho, pareço estúpido.
— Guardiola, em entrevista coletiva antes dos duelos contra o Atlético de Madrid, em 2022

De certo modo ele está certo: o que ganha é tido como verdade e o que perde parece estúpido. A questão é que Pep é um treinador tão especial e único na história do futebol que a expectativa sobre suas ações são grandes demais. Ele faz coisas complicadas, como vencer campeonatos nacionais com os maiores times da Europa, empilhar taças e chegar nas fases finais da Liga dos Campeões, como se fossem fáceis.

O ex-auxiliar Domenec Torrent tem uma tese sobre o “overthinking”. Para ele, Pep é um treinador que busca controle. Tenta adiantar o que acontece no jogo. E faz isso até contra adversários menores.

Ele sempre procura a maneira de fazer sua equipe ser a protagonista, ter a bola, jogar melhor e chegar melhor ao gol do oponente. Mas ele não faz isso apenas nos grandes jogos contra Liverpool, Madrid, Chelsea ou Bayern. Ele sempre faz isso. Quando jogamos um amistoso - um amistoso! - na pré-temporada, ele faz o mesmo. Ele é incapaz de entrar em um jogo, mesmo um amistoso, sem observar e saber como eles jogam, se têm wingers largos, se jogam pelo meio, se têm um diamante. Isso o deixa mais confortável.
— Dome Torrent, em entrevista ao The Athletic
Pep Guardiola Domènec Torrent Manchester City — Foto: Getty Images

Pep Guardiola Domènec Torrent Manchester City — Foto: Getty Images

Já Thomas Muller, que atingiu o auge de sua carreira com Pep, tende a discordar e aponta que jogos eliminatórios ganha uma importância maior para Pep.

Nos jogos eliminatórios, Pep presta muita atenção aos adversários e às suas forças. Ele está sempre um pouco dividido entre prestar extrema atenção e respeito às forças da oposição - mais do que contra times menores - e aderir às suas convicções e a um sistema em que ele acredita, para dizer, 'Vamos jogar com esse risco porque é assim que somos'. Só que às vezes, não fica claro o que estamos fazendo.
— Thomas Muller, em entrevista ao The Athletic

Torrent e Muller conviveram com Pep por tempo suficiente para oferecer visões parecidas, ainda que distintas em seu núcleo, sobre a tese das mudanças frequentes.

Não existem verdades num jogo tão opinativo como o futebol.

Por isso mesmo, a escalação do City contra o Bayern pode ter grandes surpresas. Resta ao jogo e ao placar final dizerem se é mais um ato de gênio de um dos maiores treinadores da história ou apenas um pensamento além da conta no momento mais importante do ano.



Por Leonardo Miranda

Jornalista, formado em análise de desempenho pela CBF e especialista em tática e estudo do futebol


https://ge.globo.com/blogs/painel-tatico/post/2023/04/11/pep-guardiola-quer-provar-que-nao-pensa-alem-da-conta-na-liga-dos-campeoes.ghtml?fbclid=IwAR1FEWOCV1mW_McOmsRgorqZWKZEy3vCDS0xDi5hrWdlOhWximqOMu6HOkY

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