Entenda as mudanças táticas de VP para o Flamengo superar pressão do Flu e controlar o jogo
Com escalação surpreendente, Flamengo sofreu pressão, mas melhorou após mudanças de VP, controlou e fez dois gols na segunda etapa do jogo.
Todo jogo de futebol pode ser dividido em vários pedaços. O primeiro e o segundo tempo, os momentos antes e após o gol, as paradas técnicas...na primeira final do Campeonato Carioca entre Flamengo e Fluminense, o treinador Vítor Pereira mostrou bem essa forma de ver o jogo.
É possível picotar o jogo em vários momentos bem claros:
- Os primeiros 25 minutos de muita posse e controle do Fluminense
- O ajuste do Flamengo após a parada técnica, mas sem criatividade
- Um começo arrasador de segundo tempo do Flamengo
- As expulsões no Flu, mais um gol e domínio total do Fla
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Vitor Pereira - Flamengo x Fluminense — Foto: André Durão
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Vamos entender o que aconteceu na parte tática do jogo nesses "mini-jogos" dentro do placar inteiro:
1) Fluminense pressiona com superioridade numérica no meio-campo
O Fluminense jogou muito bem nos primeiros 25 minutos. Deu para ver bem o que Fernando Diniz pensa sobre futebol: um time com a posse, que sai curto, com coragem, e se movimenta nos setores onde a bola está. A ideia é criar superioridade numérica (mais jogadores que o adversário) para enganar a defesa e alguém sobrar livre para levar a bola até Cano.
Com Keno ainda sem assimilar muito bem esse jogo, o lado direito foi o mais acionado. Ganso e Arias apareciam nas costas de Gérson e Maia. Já Samuel Xavier encostava nos zagueiros e superava a pressão do Flamengo. Foram ao menos quatro boas chances construídas com o meio preenchido e Cano pronto para fazer o gol.
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Fluminense se impôs nos 25 minutos iniciais com superioridade numérica — Foto: Reprodução
O estilo de Diniz dá uma liberdade "condicionada" aos jogadores: eles precisam se movimentar nos setores livres de campo de uma forma conjunta. Aqui está um exemplo: Samuel vem por dentro porque André e Arias estão no setor direito. E Cano está pronto para correr e dar poucos toques na bola. A marcação do Flamengo não encontrou esse dinamismo.
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Samuel Xavier se movimentou muito no primeiro tempo — Foto: Reprodução
2) VP usa a parada técnica para ajustar a forma do Flamengo marcar
O Brasil tem 210 milhões de especialistas em futebol. 40 milhões deles são flamenguistas e ficaram bravos com VP diante da escalação inicial: Gabigol fora para Cebolinha e M. França entrarem como atacantes-alas no 3-4-3 que se defende com uma linha de cinco, mesma formação que deu certo na semifinal contra o Vasco.
VP ajustou o Flamengo sem a posse na parada técnica para ser menos ameaçado. Primeiro, posicionou Cebolinha e França mais próximos de Thiago Maia e Gérson. Eles tinham que fechar o meio, e não ficar pressionando para roubar a bola de Nino e Braz. Assim, ficavam próximos de onde o Flu criava.
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Flamengo fechou o meio após a parada técnica — Foto: Reprodução
Outro ajuste de VP foi importante: Gérson passou a adotar uma postura mais zonal na defesa, sem avançar o tempo todo. Quando o Fla fazia a marcação na saída de bola, em cima, aí sim Gérson colava em André. O promissor camisa 7 do Flu conectava Cano e o meio o tempo todo, e por ali passava boa parte da qualidade do Tricolor no jogo.
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Gérson teve papel de destaque após a pressão inicial — Foto: Reprodução
As mudanças de VP surtiram efeito e o Flu parou de rondar a área do Flamengo. Ficou mais com a posse de bola, o que não significa absolutamente nada: foram 10 chutes, sendo apenas 3 deles a gol.
3) Flamengo volta ligado e explora erros defensivos do Fluminense
Todos nós gostamos de ver onde a bola está e se ela é bem tratadas. Mas o jogo de futebol existe com e sem a bola. Um time só joga bem se faz as duas coisas muito bem. E na volta do intervalo, faltou ao Fluminense jogar bem sem a bola para ao menos competir contra seu adversário.
O Fluminense tentou impor seu jogo de posse, superioridade e muitos apoios no setor da bola (aproximações para jogar curtinho, dinizismo). Mas não entendeu que o Flamengo já estava preparado para conter a superioridade numérica (como você leu acima) e começou a perder bolas na frente e perder fôlego para pressionar.
No primeiro gol, o Fluminense assiste Santos ver Varela se projetando com Aleksander. Matheus França se desloca e a defesa do Flu entra em pane: André e Martinelli estão totalmente perdidos, e Pedro e Ayrton Lucas se deslocam no setor direito, o que sobrecarrega Xavier e deixa o lateral livre para o gol.
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Erro defensivo muito grande do Fluminense no primeiro gol — Foto: Reprodução
O MESMO ERRO acontece no segundo gol. O Fluminense assiste a troca de passes do Fla e quando Éverton Ribeiro recebe a bola, os dois volantes estão mal posicionados e são enganados pelo giro do camisa 7. Novamente o setor direito é sobrecarregado e Ayrton aparece livre para tocar para Pedro.
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Erro defensivo do Flu no segundo gol — Foto: Reprodução
O Fluminense errou porque o Flamengo soube fazer a equipe de Diniz errar. Faltou mais organização, fôlego e controle emocional para entender que, sem a posse com aproximações para Cano correr na frente, o jogo precisava mais de Martinelli e principalmente de poder de recuperação. Diniz sabe tão bem disso que pediu Thiago Santos justamente para esses momentos.
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Ayrton Lucas e Pedro celebram primeiro gol do Flamengo contra o Fluminense — Foto: Marcelo Cortes/Flamengo
Já VP sabe que o Flamengo ainda se recupera fisicamente e acertou ao segurar no primeiro tempo e colocar Filipe Luís, Gabigol e Éverton Ribeiro. Na quarta parte do jogo, o Fla dominou seu adversário já com um a menos e apenas segurou a vantagem, que até poderia ser menor.
Na somatória das quatro partes desse bom Fla-Flu, deu Flamengo. Resta saber qual será a soma com a próxima final, no domingo de páscoa.
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Por Leonardo Miranda
Jornalista, formado em análise de desempenho pela CBF e especialista em tática e estudo do futebol
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