segunda-feira, 10 de abril de 2023

Como Abel Ferreira reinventou Gabriel Menino em mais um título no Palmeiras

 

Virada sobre o Água Santa mostrou papel de Gabriel Menino e mais uma brilhante atuação de Dudu. Tudo dentro do plano tático de Abel.

 

Com a conquista de seu 8º título no Palmeiras após a virada do Palmeiras por 4 a 0 sobre o Água Santa, Abel Ferreira confirma que é o maior treinador estrangeiro na história do futebol brasileiro.

O ciclo vencedor na equipe paulista passa essencialmente por ele. Abel está em constante reinvenção. Muda o time nos jogos de mata-mata. Faz jogadores renderem muito mais do que faziam. E ainda melhora garotos da base com novos papéis em campo.


Abel Ferreira comemora mais um título pelo Palmeiras — Foto: Marcos Ribolli

Abel Ferreira comemora mais um título pelo Palmeiras — Foto: Marcos Ribolli

O grande exemplo é Gabriel Menino, autor de dois gols em mais uma final de virada e absoluto domínio sobre o adversário.

Todo mundo imaginava um Palmeiras menos competitivo após as saídas de Danilo e Gustavo Scarpa. A força na Supercopa contra o Flamengo e na final do Paulistão mostraram que Abel preparou sua equipe para superar as ausências a partir do jogo coletivo. Da tática. Da força mental e do preparo exibidos desde outubro de 2020.

00:00/03:08

Palmeiras 4 x 0 Água Santa | Melhores momentos | Final do Campeonato Paulista 2023

Gabriel Menino joga como "todocampista"

Com o antigo camisa 5 vendido, Abel recuou Zé Rafael para a posição e colocou Gabriel Menino como camisa 8. Os dois são a dupla de volantes do 4-2-3-1 palmeirense, com Rony e Dudu abertos e Endrick centralizado.

Nos momentos em que o Palmeiras está com a bola e começa seus ataques, Menino tem uma outra função além de ser oito: ele libera o lateral daquele setor para jogar bem na frente. Na esquerdao, o titular Piqueréz e na final foi Vanderlan. O nome importa menos do que a forma como o time se espalha em campo. Veja como Menino fica aberto.

Gabriel Menino mais aberto quando o Palmeiras tem a bola — Foto: Reprodução

Gabriel Menino mais aberto quando o Palmeiras tem a bola — Foto: Reprodução

Mas o que Abel quer com Gabriel Menino aberto? O que ele pretende com isso?

Com a saída de Scarpa, o Palmeiras perdeu um ponta. Com Menino aberto, o lateral da esquerda consegue jogar na frente para abrir o campo (a chamada amplitude) e ser uma opção de jogo pelos lados. Abrir o campo faz com que a linha de defesa dos rivais fique mais preocupada e recuada em campo, o que ajuda a abrir espaço pelo meio.

Outro ponto é que se Menino abre pela esquerda e o lateral avança, Rony não fica fixo pelo lado. Ele consegue ir para a área e fazer o que rendeu tantos e tantos gols: ficar correndo, tentando se projetar para pegar a bola. Ou apenas abrir espaço para Endrick. Perceba como é um movimento que facilita o jogo de todo mundo.


Gabriel Menino jogou mais pela esquerda — Foto: Reprodução

Gabriel Menino jogou mais pela esquerda — Foto: Reprodução

Dudu cresceu de rendimento com Abel e é peça fundamental no time

Gabriel Menino surgiu como lateral direito e inclusive foi convocado por Tite na seleção brasileira nessa posição. Sua transformação em um volante que joga aberto pelo lado oposto tem a assinatura de Abel.

O jogo de futebol é bastante fluído. E se Rony busca a bola pelo lado esquerdo, o que acontece? Entra aí outro ponto positivo do trabalho do português: os jogadores conseguem se adaptar porque possuem conceitos muito bem trabalhados no treino (e na cabeça).

Quando o lado esquerdo é ocupado por alguém, Menino sabe que precisa avançar por dentro. Isso faz ele estar numa zona vantajosa em campo, porque pega as costas do volante do adversário e permite que ele fique próximo da área. Essas trocas de posição acontecem o tempo todo. Não só com Menino, mas com Marcos Rocha na direita também.

O mais importante não é o esquema, muito menos a função. São os conceitos.

Gabriel Menino por dentro: movimentações automáticas no Palmeiras — Foto: Reprodução

Gabriel Menino por dentro: movimentações automáticas no Palmeiras — Foto: Reprodução

Ideias que de treinadas com tanta qualidade, ficam automáticas e são jogadas até sem pensar. É por isso que o Palmeiras faz uma virada dessas parecer fácil. O famoso "joga fácil". Porque os jogadores sabem o que fazer. Sabem onde estar e como estar em campo.

Quer um exemplo? Se a bola cai no setor direito, Menino sabe que é preciso entrar na área para virar uma opção de finalização. Dudu, que deu assistência "de placa" no segundo gol, é outro que cresceu de forma surpreendente com Abel. O treinador extrai seu melhor como um extremo (um ponta) à moda antiga, mas que cria jogadas e faz assistências com absurda precisão.

Os quatro gols na virada contra o São Paulo no ano passado passaram por Dudu. O segundo gol na virada contra o Água Santa nasceu dali.

Gabriel Menino entra na área para fazer o segundo gol — Foto: Reprodução

Gabriel Menino entra na área para fazer o segundo gol — Foto: Reprodução

Com contrato até o fim de 2024, Abel Ferreira tem tudo para superar Oswaldo Brandão como treinador com mais títulos na história do clube.

Se depender dele, serão taças com a mesma reinvenção tática e brilhantismo de um treinador que sempre tem um plano para construir um dos mais vitoriosos ciclos do futebol brasileiro.

https://ge.globo.com/blogs/painel-tatico/post/2023/04/10/como-abel-ferreira-reinventou-gabriel-menino-em-mais-um-titulo-no-palmeiras.ghtml?fbclid=IwAR02muswmo9AlgXuQEDMDow_zr_q7jCNYIwY_EW8CKnrNLIsZ5DPBQ0HZB4



Por Leonardo Miranda

Jornalista, formado em análise de desempenho pela CBF e especialista em tática e estudo do futebol

0 comments:

Postar um comentário

WALDEMIR VIDAL SANTOS DRT-BA 4.260 - ABCD-BA 544