"Bota Ponta, Telê!": bordão de Jô Soares sintetizou período de mudanças táticas no futebol brasileiro
Humorista, que morreu na madrugada desta sexta, aos 84 anos, tinha personagem que pedia para Telê Santana fazer mudanças na Seleção de 1982.
Não dá para falar de Jô Soares, que nos deixou na madrugada dessa sexta (5), aos 84 anos, sem lembrar do bordão “Bota Ponta, Telê”, um dos mais famosos de sua carreira. Era véspera da Copa do Mundo de 1982, e no programa "Viva o Gordo", Jô criou o personagem Zé da Galera, que criticava o esquema tático de Telê Santana antes do Mundial.
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O pedido de Jô, ou melhor, do Zé da Galera, tinha motivo: a equipe de Telê Santana que encantou o mundo não jogava com dois pontas, como queria Jô, e ainda teve uma mudança bem nas vésperas da Copa do Mundo.
JÔ Soares interpreta o Zé da Galera: Bota ponta, Telê! — Foto: reprodução
Com as ferramentas de análise tática hoje, o Brasil de Telê jogava nunm 4-2-3-1: Éder no lado esquerdo e Paulo Isidoro no lado direito, com Zico centralizado e ora Batista e Falcão, ora Batista e Cerezo como volantes. Foi assim que o Brasil jogou contra a URSS num amistoso em 1980, e no ano seguinte, venceu Alemanha e Inglaterra jogando e encantando. Virou favorita suprema à Copa.
Só que, como todo treinador de Seleção, Telê Santana convivia com críticas e tinha diversos problemas para solucionar. O primeiro deles era o centroavante. Sem Reinaldo e Careca, o técnico colocava Sócrates como um falso-nove. O "Doutor" já jogava à lá Messi em 1981e abria espaço para os dribles de Isidoro e Éder, além das chegadas de Falcão, Zico e até Luisinho.
Talvez querendo mais posse de bola, tirou um dos pontas e adotou um time com apenas Éder mais aberto. Paulo Isidoro já não era um ponta tradicional, de chegar na linha de fundo. Mas com Sócrates e Dirceu pelos lados, Telê aproximou a Seleção dos times brasileiros na época, que jogavam com uma função bem específica: o falso ponta.
De Zagallo e Travaglini: a origem do falso ponta
O falso-ponta era um jogador de beirada que se movimentava por todo o campo. Abria a passagem do lateral e ajudava a fechar o lado como Zagallo em 1958. Ou circulava para buscar a bola lá de trás e liberar o camisa 10 para entrar de surpresa na área, como Rivellino em 1970. O intuito era dar dinamismo no jogo. Colocar mais jogadores no setor da bola, para atrair a marcação e gerar espaços na defesa.
Jornalista, formado em análise de desempenho pela CBF e especialista em tática e estudo do futebol
Se Zagallo surpreendeu rivais ao sair do lado e buscar a bola dos volantes, o falso ponta invadiu para valer o futebol brasileiro na década de 1970. O Botafogo campeão carioca de 1968 já jogava assim, com Paulo Cézar Caju saindo de um dos lados e abrindo para Rogério e Roberto: orientação de Zagallo. No Palmeiras, Pio fazia a função de fechar o lado esquerdo no time que Rubens Minelli montou e bateu campeão brasileiro em 1969.
Mas o primeiro técnico a citar o nome foi Mário Travaglini: bi-campeão brasileiro, tri-campeão estadual e nome injustamente esquecido na nossa mal contada evolução tática, foi ele que dizia aos jornais que gostava de ter sempre um falso ponta em seus times: primeiro com Dé, depois com Luis Carlos. Na Maquina Tricolor de Rivellino, Travaglini colocou Dirceu na função, o que rendeu o apelido de "formiguinha": o jogador que caminha por todos os lados. Dá dinâmica, toca na bola, mantém o ritmo.
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