Éverton se movimenta, mas o espaço deixado por ele não é ocupado de forma automática — Foto: Reprodução
Quem executa esse automatismo é justamente...o rival. Veja que o Danilo, que estava encaixando no Andreas, identifica que o setor da bola muda e já vai encaixar lá no outro lado. Ele faz isso num tempo muito menor que alguém do Fla leva para identificar que precisará ocupar o espaço deixado pelo Éverton, que não vê ninguém para receber e toca de novo para Andreas.
O tempo que isso acontece é o tempo do Palmeiras se reorganizar. Danilo novamente identifica a mudança na zona da pressão. Quando o Flamengo chega, tá tudo marcado.
Mesmo coletivamente mal, o Fla tentou. Não faltou competição, o que o torcedor chama de "raça", nessa final. Mesmo encaixatado, a equipe toca a bola para a frente. A pergunta aqui é: "como?" Com o jogador de costas pro gol e o Palmeiras já fazendo a sobra com o Gómez no lado direito, interceptando e cuidando de "neutralizar" esse espaço.
Flamengo não consegue superar a defesa do Palmeiras — Foto: Reprodução
Boa parte das chances vieram em respostas individuais dos jogadores do Flamengo
O Flamengo é um time tão bom, mas tão bom, que mesmo coletivamente mal, foi capaz de criar as mesmas chances claras do Palmeiras. Temos que ver como essas chances foram criadas. Elas foram criadas por uma forma inteligente de gerir o espaço de jogo, uma jogada combinada...ou foram lances de soluções individuais que não foram seguidas pelo time?
Lembrando que individual e coletivo não se separam, há sempre um lado mais forte. E o lado do Flamengo foi a individualidade.
Vamos a um exemplo: na grande chance do 1º tempo, Gabigol recebe de Isla, gira e aciona o Bruno Henrique. Jogada clássica desde 2019. Mas vamos olhar o entorno: apenas o Isla ataca o espaço gerado por aquela movimentação. O restante do time fica estático. O Palmeiras tem 6 jogadores na área, e ainda assim, o Bruno Henrique consegue conectar o Arrasca. Andreas, Renê, Éverton, Arão...o posicionamento deles não condiz com o momento. Se o Andreas vai para a entrada da área, arrasta um zagueiro e gera espaço pro Arrasca chutar melhor.
Primeira grande chance do Flamengo no jogo — Foto: Reprodução/ESPN
Agora para e pensa: e se o time respondesse coletivamente melhor ao jogo? E se Andreas, Renê e outros estivessem melhor posicionados? Lembra do Jorge Jesus, que dizia que "ensinou" o time a jogar sem a bola? Nem Renê, nem Andreas tem a bola. O que torna um jogador bom é isso, é como ele responde aos problemas do jogo com menos tempo e espaço. O entorno, que a gente chama de "tática", pode ou não potencializar essa característica.
Andreas ir para a área no lance é um movimento que pode ser treinado. Neutralizar os encaixes do Palmeiras é um movimento que também pode ser treinado. Sabe onde tem um exemplo? No 5 a 0 do Flamengo no Grêmio em 2019, a equipe gaúcha jogou com encaixes (diferentes do Palmeiras, vale pontuar), mas o Flamengo soube responder. Em comum daquele jogo para a final, apenas o técnico Renato Gaúcho. Leia aqui.
Nem terra arrasada, nem caça às bruxas: Flamengo precisa ser mais profissional
A derrota mais dolorida da história do Flamengo, se não a mais, será objetivo de diversas narrativas. Temos a de que o Flamengo perdeu para si próprio, o que é basicamente...uma inverdade. Teremos também a caça às bruxas típica que o futebol brasileiro faz: a culpa é do Renato que "não treina o time" ou de Andreas, que falhou feio no lance do gol.
Apontar o dedo, agora, é o pior a ser feito. O Flamengo precisa olhar para si mesmo. E ao fazer isso, irá descobrir que vem falhando desde 2019, quando teve um ano mágico e não aprendei lições dele. O clube mais rico do Brasil não investe o suficiente em ciência do esporte, em especial no Departamento de Saúde e Alto Rendimento.
Renato Gaúcho; Palmeiras x Flamengo — Foto: REUTERS/Agustin Marcarian
Desde a saída de Jorge Jesus, o Flamengo apenas contrata treinadores e os demite, como se a culpa fosse só deles. Mas o clube cuida mal de sua estrutura. E investe pouco naquilo que precisa para seguir competindo: ciência e qualificação. Não houve um esforço em transformar o que Jesus deixou em um legado de jogo, numa organização de trabalho, em processos. Não houve investimento na ciência multidisciplinar que é o futebol. O rival da vez, o Palmeiras, é um dos times que mais investe no quesito.
Apostar no dinheiro como forma de vencer títulos é válido. Mas dinheiro gasto é passado. Já profissionalismo aponta para o futuro. A hegemonia, tão gritada com o "outro patamar", agora é do Palmeiras. O Flamengo precisa deixar narrativas confortáveis de lado e fazer aquilo que já deveria ter feito: se reinventar como clube e não apenas como time.
Por Leonardo Miranda
Jornalista, formado em análise de desempenho pela CBF e especialista em tática e estudo do futebol
https://ge.globo.com/blogs/painel-tatico/post/2021/11/29/as-licoes-que-o-flamengo-pode-aprender-com-a-derrota-na-libertadores.ghtml?fbclid=IwAR1yObtDBBupKYweitkjVT8c32prslPhtUTrcfK29XmwUE7SsVsbU4lNHQw
0 comments:
Postar um comentário