A importância do perde-pressiona no Brasil de Tite
nsistência em recuperar a bola logo após perdê-la garante segurança defensiva e gerou o lance que classificou o Brasil para mais uma Copa do Mundo
"Água mole, pedra dura. Tanto bate, até que fura". Quem já ouviu esse ditado? Num jogo tão caótico como o futebol, insistir na proposta de jogo e ser constante, mesmo quando o resultado não vem de primeira, é fundamental para diminuir o peso do caos. Na Seleção, a insistência do chamado "perde-pressiona" garantiu mais um jogo sem ser vazada e ainda gerou o lance do gol contra a Colômbia que leva o Brasil para mais uma Copa do Mundo.
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O conceito acompanha todos os trabalhos de Tite ao menos desde 2008, quando assumiu o Internacional, e é um dos pilares do trabalho na Seleção Brasileira. Algo que aparece, em maior ou menor grau, desde 2016.
Tite, técnico da seleção brasileira, em partida contra a Colômbia — Foto: Lucas Figueiredo / CBF
Perde-pressiona é aquele sufoco no adversário nos segundos após o time perder a posse de bola no ataque. Algo que grande parte das equipes e seleções no mundo executa não apenas porque ajuda zagueiros a ficarem mais protegidos, mas também ajuda a criar chances de gol num momento extremamente valioso, quando o adversário está desatento e "trocando" de comportamento.
A palavra comportamento é muito importante. O jogo é feito de fases: ataque, defesa, a transição entre ataque e defesa e vice-versa. E a bola parada! Para cada uma dessas fases, os jogadores possuem comportamentos, regras e coisas que precisam fazer, seguindo a ideia de jogo do adversário.
Um perde-pressiona bem executado depende da troca rápida de comportamento. Quem está atacando deve "mudar a chavinha" e passar para defesa o mais rápido possível. O que decide o sucesso é justamente essa velocidade: quanto mais rápido, maiores as chances de surpreender um adversário.
O Brasil não fez um jogo brilhante, mas mostrou a consistência de sempre com Tite e insistiu no perde-pressiona, em especial no segundo tempo, quando a Colômbia se fechou ainda mais. Mostrou boas passagens entre ataque e defesa e sofreu pouquíssimo. É algo a se comemorar contra um adversário que costuma aparecer nas oitavas-de-final - testes contra europeus seguem sendo necessários.
Vamos a um exemplo. No lance abaixo, o Brasil está organizado para atacar. É possível ver as ideias do modelo de jogo de Tite nesse lance, como:
- A amplitude com dois pontas dribladores abertos, buscando contato com os laterais do oponente
- Neymar e Paquetá próximos, num setor central de circulação de bola
- O apoio interno de um lateral (Danilo) enquanto o outro se mantém próximo da defesa
Brasil se organiza para atacar com amplitude e Neymar e Paquetá próximos — Foto: Reprodução
Raphinha recebe, e como ponta que é, tenta o drible. Ele perde a bola. Tudo bem: só perde quem tenta! Eis o momento de todo mundo trocar de comportamento e rapidamente passar de ataque para defesa enquanto a Colômbia ainda está pensando no que fazer. A questão é que não é simplesmente avançar como doido na bola. Tite preza por equilíbrio, e para garantir proteção, o perde-pressiona é executado com alguns detalhes:
- Três a quatro jogadores sufocam o adversário com a bola
- Um volante começa a correr para trás (na imagem, Paquetá)
- E um lateral fecha uma linha com os zagueiros, que começam a andar para trás
Tite gosta que ao menos uma parte do time mantenha um posicionamento mais agarrado à zona porque, se algo der errado - lembrando que o jogo é caótico e nem sempre as coisas estão ao controle - ao menos três jogadores estão prontos para defender a área.
Brasil rapidamente aciona o perde-pressiona com todo mundo próximo — Foto: Reprodução
Marquinhos vem mostrando muita qualidade nesse posicionamento. Ele sempre está perto dos companheiros, aciona o momento de ir para frente e para trás e ajuda o time a recuperar a posse. Além da zaga, Tite também prega que ao menos um lateral fique e não apoie quando o time tem a bola. Essa linha é chamada de balanço defensivo - a forma como o time se organiza na defesa quando está atacando.
Linha que protege a área do Brasil quando perde-pressiona não dá certo — Foto: Reprodução
Nem sempre esses momentos saltam aos olhos, mas são fundamentais para a segurança defensiva de um time e para manter a posse de bola por mais tempo. A Colômbia atacou pouco. Se o perde-pressiona não fosse bem executado, um lance que rapidamente seria esquecido - como esse das imagens - poderia ser o gol que geraria reclamação e pedido de demissão do técnico até agora...
São desses detalhes que são feitos o jogo.
Mas pode-se dizer que ontem, o camisa 10 do Brasil foi realmente o perde-pressiona. A jogada que termina com o bico de Paquetá nasce de uma recuperação de bola onde tudo o que você leu acima funcionou: o sufoco dos três ou quatro mais próximos, a cobertura dos zagueiros e o espaço que se abriu para Neymar e Paquetá num momento de desatenção do adversário.
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