A aula de tática e gestão de Ralf Rangnick, o grande mentor do futebol alemão
Treinador e diretor alemão detalha revoluções táticas dos últimos anos e reforça importância da educação para treinadores e jogadores
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Você não verá ele nas listas de melhores treinadores do mundo. Também não encontrará livros ou fãs como Pep Guardiola e Marcelo Bielsa têm. Nada disso parece importar para Ralf Rangnick, Chefe de Desenvolvimento e Esportes da Red Bull e um dos grandes mentores do futebol alemão como o conhecemos.
Com mais de trinta anos como treinador e títulos importantes no Hoffenheim, Rangnick concedeu uma excelente entrevista ao El País falando sobre gestão, seu trabalho no Red Bull, evolução tática e como formar bons jogadores no contexto atual.
Do líbero à fluidez do RB Leipzig: a evolução tática do futebol alemão
Ex-jogador de pouca expressão, Rangnick se tornou técnico na década de 1980, mas só teve o primeiro trabalho de destaque no Ulm, ao fim da década de 1980. “Quando comecei a estudar educação física na faculdade, em 1978, ficou claro para mim que não queria jogar aquele 3-5-2 com um líbero e marcações definidas, com dois meio-campistas que tinham que trabalhar duro para empurrar a bola e garantir que o camisa 10 tivesse um bom dia”, relata Rangnick.
A criação do líbero data da década de 1960. Franz Beckenbauer tinha um potencial técnico tão grande que seria um desperdício deixá-lo fixo atrás. Foi ideia do croata Zlatko Čajkovski, bi-campeão alemão em 1965 e 1966, dar liberdade para que ele fosse ao ataque com a posse de bola, mas protegesse Nowak, Kupferschmidt e Olk, os outros defensores, ficando atrás deles, comandando a linha de impedimento.
Bayern de 1965: primeiro título de Beckenbauer como zagueiro — Foto: Leonardo Miranda
Udo Lattek e Otto Renhagel, míticos treinadores na década de 1980 e 1990, também formavam seus times com líberos. Na verdade, é um reflexo da sociedade alemã. O líbero arma e organiza e os pontas fazem a jogada de linha de fundo assim como cada cidadão deve fazer sua parte para que o coletivo dê certo. Foi assim que os alemães superaram o trauma da Unificação e da Segunda Guerra Mundial.
Rangnick se colocava como um rebelde nesse contexto. “Eu achava que o futebol deveria ser mais proativo e complexo. Então tive que olhar para o exterior e descobri Valeri Lobanovski e Arrigo Sacchi. Eles tiveram uma grande influência na minha ideia de pressão orientada pela bola e marcação de zona com uma linha de quatro”. Era assim que o Ulm, que saiu da terceira divisão do futebol alemão em 1997 e chegou à Bundesliga em acessos consecutivos, jogava: uma equipe com linha de quatro enquanto Trapattoni defendia o líbero no Bayern.
O SSV Ulm de Rangnick: linha de quatro por zona e geggenpressing muito antes de Jurgen Klopp — Foto: Leonardo Miranda
A não aceitação da tradição o levou a ser um dos mentores da “Revolução Alemã”, nome dado a uma série de reuniões e medidas tomadas pelos clubes e federação para melhorar a formação de treinadores e jogadores na Alemanha. E mais: os alemães queriam mudar sua cultura. Após a queda do Muro de Berlim, não era mais necessário ser tão rígido com o vizinho.
“Por que os jogadores de futebol alemães precisam ser menos astutos que os italianos ou espanhóis?”, questiona Rangnick. “Franz Beckenbauer disse em 1995 que com jogadores alemães não é possível marcar por zona com uma linha de quatro porque eles não entenderiam a cobertura da zona. Até 1999-2000, nós, alemães, éramos famosos por nossas virtudes alemãs (ser agressivos e comer grama), mas não por nossa estratégia.”, complementa.
Rangnick teve dois acessos consecutivos e colocou o SSV Ulm pela primeira vez na Bundesliga — Foto: Reprodução
A inspiração para o processo iniciado ainda em 2000, após o fracasso na Euro, veio das empresas alemãs de sucesso, como a Volkswagen. Rangnick detalha o processo em cinco etapas: “Ao iniciar um projeto, você deve considerar cinco etapas básicas. A primeira coisa é ter uma ideia clara de como deve ser o seu estilo. Como você quer que seu time jogue? Em termos de negócios, eu chamaria isso de identidade corporativa. No Hoffenheim e no Leipzig, concordamos em definir claramente um estilo muito pró-ativo, independentemente de a bola ser nossa ou do adversário."
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Uma vez definido o modelo, o futebol deve caminhar para a formação de jogadores. "O mercado é como um jogo de pôquer e, em circunstâncias normais, os jogadores não são gratuitos e, se forem, devem receber bônus muito elevados. Com os jovens você pode recuperar o investimento, ou aumentar seu valor de mercado e obter retorno. O terceiro passo é contratar os melhores técnicos e, finalmente, deixar que os profissionais desenvolvam a equipe”.
A Alemanha não venceu nada entre 2006 e 2014, mas foi fundamental para melhorar o futebol no país — Foto: Leonardo Miranda
Mas mudanças necessárias são isso: chatas, incômodas, impopulares....e demandam tempo e convicção. “Se você for bem-sucedido, será uma constelação vencedora para todos. Parece muito simples. Mas não é: você tem que seguir o plano mesmo em tempos de resultados ruins. Por isso, o principal é a identidade corporativa e, a partir daí, construir o comportamento corporativo, que se consegue com a contratação das pessoas certas.”
Os alemães não acreditavam em título em 2002, e a chegada na final da Copa do Mundo foi vista como uma surpresa. De fato, não parecia que o futebol alemão estava errado na década de 1990. Lothar Matthäus e Mattias Samer eram líberos que encantavam o mundo. Ottmar Hitzfeld havia vencido duas Liga dos Campeões com o Bayern e Borussia. Ranhagel fez o impossível ao tirar a Eurocopa de Felipão na Grécia de 2004, a zebra do século.
Você só deve valorizar jogadores pelas decisões que tomam sob pressão, nos momentos do jogo em que não há tempo nem espaço para agir. Os escoteiros devem ser educados a esse respeito. Belos gols e dribles podem confundir você.
Um novo olhar para a formação de jogadores
Um dos principais pontos de mudança no futebol alemão foi mudar o olhar sobre o jogador. O que seria esse olhar? É o que valorizar e buscar nele. Para Rangnick, a evolução do jogo obriga que a formação de jogadores deva privilegiar aquilo que o jogo pede: posse de bola, rapidez e organização na bola parada, tema pouco discutido, mas fundamental.
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“Primeiro, o que você faz para construir a jogada quando quer ter a posse. É óbvio para mim. Se você quer fazer um gol, você precisa de velocidade, fintas que aceleram a ação e a verticalidade. Se você não tiver isso, você pode ter 80% da posse, mas não marcará. Número dois: o que você faz se o outro time tem a bola. Como, onde e quão alto você empurra. Terceiro e quarto, trabalhem nas transições. O que você quer que sua equipe faça no momento da recuperação e o que você quer que ela faça no momento após a derrota? Essas duas situações precisam ser treinadas em profundidade. E em quinto lugar, os lances de bola parada. Vimos isso na final da Liga Europa: Inter-Sevilla. Quatro dos cinco gols vieram de jogadas ensaiadas. Mais de 30% dos gols no futebol são marcados em lances de bola parada. Nós gastamos 30% do nosso tempo de treinamento em peças ensaiadas?”, explica.
Rangnick e Jurgen Klopp nos tempos de Borussia — Foto: Reprodução
Outro ponto na formação de jogadores e que deve estar presente no jogo é intensidade. Mas intensidade não é aquela marcação sufocante, não. Nem se desgastar demais como o Atlético-MG fez contra o Bahia. Intensidade é correr certo.
“Você precisa estar “on fire”. Klopp e eu sabemos que é mais barato jogar assim. Se você fizer isso bem, você completa um número maior de corridas, mas reduz o número de corridas longas. Se você não fizer isso direito, terá corridas negativas. Se você permitir que o time adversário rompa a pressão e jogue pelas suas costas, você precisará de mais energia”. Um exemplo vem do próprio Bayern campeão da Liga dos Campeões nesse ano: linha alta, risco, mas sempre correndo certo ao deixar os atacantes em impedimento.
Linha alta do Bayern de Munique corria "certo" como Ralf aponta — Foto: Reprodução/Léo Miranda
O aspecto psicológico também entra aí. Rangnick aponta que é fundamental ter jogadores que entendam esse sistema. “Você precisa de jogadores convencidos desse modelo Este estilo de jogo é exigente do ponto de vista físico e mental. Não é por acaso que Klopp tem cinco dos meus ex-jogadores em seu time: Firmino, Mané, Keita, Minamino e Matip. Se você olhar os três atacantes: Mané é senegalês, Salah é egípcio e Firmino é brasileiro. Eles não eram máquinas de prensagem. Eles não vieram de tal formação. Klopp conseguiu fazer deles os melhores atacantes de pressão do mundo. E agora Tuchel está fazendo isso com Neymar: Alguém já viu o Neymar pressionar como fez contra a Atalanta?
Neymar evoluiu com o alemão Thomas Tuchel e se tornou num autêntico criador de jogadas — Foto: Reprodução/Leonardo Miranda
Geggenpressing e linha de três: para onde vai o jogo?
Ao ser perguntando pelo El País sobre a Atalanta com linha de três e o próprio RB Leipzig, Rangnick afirma que o propósito desse sistema é ser ofensivo, e não defensivo como normalmente se pensa: "O objetivo de Nagelsmann não é defender melhor, mas ter mais elementos para construir o jogo sem ser pressionado pelos rivais. Quando você começa por trás com três centrais e dois volantes bem à frente, para times adversários torna-se mais arriscado cobrir todas as saídas. Você subtrai um homem do meio-campo, mas força o adversário a fazer um esforço extra de pressão".
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RB com a bola: um 3-1-4-2 muito móvel e que busca inversões no ataque — Foto: Reprodução/Leonardo Miranda
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