Inteligência tática e mobilidade: como Hulk cria espaço no ataque do Atlético
Destaque da vitória sobre 3 a 0 no River Plate, atacante mostra uma incrível inteligência de posicionamento que abre espaços nas defesas adversárias
Gol, assistência e cavadinha: Hulk fez de tudo na vitória incontestável do Atletico-MG sobre o River Plate, por 3 a 0, que coloca o Galo em sua segunda semifinal de Libertadores na história: o adversário agora será o Palmeiras.
Hulk é um bom jogador. Ninguém duvida disso. Mas o que faz ele ser bom? O que o diferencia dos demais centroavantes que passaram pelo Galo e não conseguiram o mesmo desempenho? A resposta está em sua inteligência tática para enganar a zaga adversária e criar espaço para os companheiros.
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Atacante Hulk comemora gol pelo Atlético, diante do River — Foto: Conmebol
Você sempre ouviu que camisa 9 vive de gol, certo? Então todo mundo cria uma expectativa que o centroavante precisa estar enfiado entre os zagueiros, lutando e batendo cabeça para receber a bola e finalizar. É o oposto do que Hulk faz. Mesmo quando é o jogador mais avançado do time, ele nunca está entre a zaga. Sempre se posiciona uns metros abaixo.
Ele faz isso com uma intenção clara: deixar os zagueiros com muitas opções do que fazer.
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Hulk não joga enfiado entre os zagueiros, e mesmo quando é o mais avançado, prefere recuar — Foto: Reprodução
Sim, é isso mesmo: ao buscar espaço na frente da zaga, Hulk dá ao menos duas opções ao adversário: ou ele fica no lugar e preenche a linha de defesa, ou avança e marca Hulk de perto. Se há opções, então tem uma palavra chave: decisão. Hulk causa estrago porque aproveita os espaços criados enquanto a zaga não decide o que fazer com ele.
Essa inteligência ficou clara no golaço de cavadinha que ele fez: Hulk começa a correr antes do zagueiro do lado do River Plate entender que era mais vantajoso marcar individualmente do que ir tentar roubar a bola. São duas escolhas claras, e enquanto ela não é feita, Hulk já correu para frente e deu a opção do passe que termina em gol.
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Hulk se desloca antes do zagueiro do River acompanhá-lo — Foto: Reprodução
Hulk também cria espaço com sua movimentação
A inteligência tática também é vista nos momentos que Hulk faz mais do que aproveitar espaço ou correr. Ele, sozinho, cria espaços no ataque do Atlético-MG. É o que normalmente se chama de "gerar jogo": um jogador tão inteligente e acima da média que, sozinho, faz coisas que um sistema inteiro precisa fazer.
O primeiro gol do Galo é o grande exemplo de como Hulk é um gerador de jogo.
Marcelo Gallardo até acertou na estratégia. Precisando virar o jogo, ele mudou o River para um 3-1-4-2. Assim, eram seis jogadores no ataque, com Fernández preocupado em equilibrar a defesa ficando na frente da linha de três zagueiros, composta por Diáz, Maidana e Martínez. Veja na imagem.
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Marcelo Gallardo posicionou o River no 3-1-4-2 para tentar a virada — Foto: Reprodução
Hulk rapidamente entendeu que Anglieri e Casco, os alas do sistema, não estavam voltando para a defesa. Se ele fosse receber a bola pelo lado direito, por exemplo, quem acompanhava ele era um zagueiro. Então ele se movimenta para o lado e arrasta Martínez, o zagueiro central do River. Isso abre uma cratera, marcada em vermelho.
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Hulk atrai Maidana para o lado e abre espaço na área — Foto: Reprodução
Lembra que sua inteligência está em amplificar o leque de opções do rival para ele ficar indeciso? Pois é o que acontece com Martínez: preocupado em ajudar Maidana, Martínez não sabe bem o que fazer: ele deve dobrar a marcação? Cobrir o setor do companheiro?
É durante o tempo dessa tomada de decisão que Zaracho sai lá da defesa e começa a correr em direção ao espaço deixado na zaga central do River. É o mesmíssimo tempo que Hulk segura a bola, protegendo com o corpo. O cruzamento só sai quando Zaracho já está naquele campo para finalizar. Martínez já subiu na cobertura, mas agora foi o primeiro volante do River que não acompanhou Zaracho.
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Hulk segura a bola até Zaracho entrar na área — Foto: Reprodução
Esse tipo de movimentação do centroavante, abrindo do lado e criando espaço para quem chega de trás, é típica dos times de Cuca. Era assim com Kaio Jorge no Santos, que fazia muito do que Hulk faz: um centroavante que fica mais recuado e se movimenta aos lados arrastando zagueiros. Era também o que Gabriel Jesus fazia em 2016 no Palmeiras. Então pode ver que tem dedo do Cuca aí!
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Cuca e Hulk conversam após um dos gols do atacante na partida contra o Bahia — Foto: Pedro Souza
A novidade é que Hulk associa esses movimentos de diagonal (tática) com força física e a explosão, (físico) e uma forte finalização (técnica). Os parênteses servem para entender que nada está separado: tática, técnica e física se dialogam o tempo todo e explicam o grande desempenho do jogador na temporada.
O próximo desafio é fazer tudo isso com Luan e Gustavo Gómez, zagueiros do Palmeiras, o rival do Atlético-MG na busca por uma vaga na final da Libertadores.
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Por Leonardo Miranda
Jornalista, formado em análise de desempenho pela CBF e especialista em tática e estudo do futebol
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