Como a receita de 2020 era o treinador estrangeiro, o Inter mirou a bola da vez - o careca como Guardiola que ganhou tudo no Equador. Na mente dos dirigentes, e também do torcedor, basta contratar e pronto: em alguns jogos, uma filial do futebol do Del Valle nascia. Mas será que o Inter entendeu o que Ramírez fez nas seis temporadas no Qatar? Entendeu que foi coordenador da base antes de ser técnico principal? Entendeu que os títulos só foram possíveis graças à anos de investimento e trabalho duro?
E aí, vem a cultura que come tudo no café-da-manhã. Porque o brasileiro é ansioso, dramático, imediatista. Uma derrota só e nada mais presta, tudo é um equívoco. Uma vitória e o time é o melhor do mundo. Um mundo de exageros onde a linha média que coloca as coisas num plano maior é esquecida.
No Inter, quem mais sofreu foi Patrick. Artilheiro com Abel, o jogador se acostumou a desempenhar uma função de ultrapassagem, o tempo todo indo em espaços vazios e procurando o gol. Sem a bola, vontade e velocidade para voltar e preencher um lado. Não é que Ramírez não gosta disso, mas ele queria que Patrick soubesse também o momento de pausar, colocar a bola no chão e olhar o campo inteiro - o que num time com processo, é algo que todo mundo aprende aos 16 anos, para depois a característica individual falar mais alto.
Por isso, posicionou Patrick aberto pelo lado nos primeiros jogos. Uma nova função, que requer adaptação, com erros e acertos, com tempo para pegar o “jeito”. Coisas que não vem com vídeo ou explicação, mas apenas com o tão sagrado tempo, algo que Filipe Luís explicou muito bem em entrevista exclusiva ao ge.
É importantíssimo, fundamental jogar com os mesmos jogadores. Hoje tenho uma conexão com o Bruno Henrique e o Arrascaeta que só o tempo traz. Não adianta o treinador mostrar imagens ou treinos. Só o tempo vai trazer esse feeling que tenho com o Arrascaeta. Eu sei quando ele vai querer por dentro, por fora, quando está mais cansado. Sei que ele está me vendo, quando todo mundo acha que não.
— Filipe Luís, em entrevista exclusiva ao ge
Sem o tempo e com o imediatismo brasileiro, o processo sofre. Começam as rusgas com o elenco. O desconforto de fazer algo diferente. Há quem concorde e quem não concorde. Será que o grupo está disposto a perder para jogar melhor lá na frente? O técnico tenta negociar, mudar o estilo, encaixar mais o que tem. Abre mão do processo, dá dois passos atrás para dar um na frente.
E aí, a cultura anteriormente estabelecida, que endividou o clube, começa a comer a estratégia e a metodologia em diferentes refeições. Até quem comprou a mudança lá atrás começa a apelar para a volta da cultura, como deixou evidente o vice de futebol, João Patricio Herrmann, após a goleada para o Fortaleza.
O trabalho do Miguel tem ajustes a ser feitos. Mas não acredito que ele seja inflexível, que não ouça o meio, os atletas. As correções internas serão feitas. Já tem sido. Sentimos que este modelo parou de evoluir. Precisamos resolver o mais rápido e entender a cultura gaúcha de jogar futebol e do Inter
A escolha do Internacional, agora, não é mais sobre qual técnico contratar. É sobre aceitar ou não essa cultura nociva, cara, dramática e também emocionante de contratar um bombeiro, ajustar o time do jeito que dá e ir vencendo. É sobre aceitar ou não o imediatismo caótico do Brasil. Cultura essa que nomes como Felipão, Abel Braga, Joel Santana, Cuca e tantos técnicos tidos como ruins ou obsoletos dominam.
Só depois não dá pra reclamar de jogo feio - ele é puro reflexo da falta de preparo, paciência e racionalidade de dirigentes e torcedores quando querem transformar uma cultura que engole todos, o tempo todo.]
É sempre assim. Todo ano é assim. Sempre foi assim! Talvez seja hora de aceitar: esse é o Brasil.
Por Leonardo Miranda
Jornalista, formado em análise de desempenho pela CBF e especialista em tática e estudo do futebol
https://ge.globo.com/blogs/painel-tatico/post/2021/06/11/demissao-de-ramirez-prova-que-brasil-nunca-esteve-preparado-para-mudar-a-cultura-de-um-clube.ghtml?fbclid=IwAR261MitOGG6-2f7ywwpohjWmfA0bkoY2vvnl2SjbUTmQwII-UnTu6NqrSc
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