Precisamos falar da linha de quatro defensores do PSG
Desempenho defensivo no segundo tempo mostrou organização de time competitivo e preparado para dar a posse de bola e não sofrer
Bayern e Paris Saint-Germain protagonizaram dois jogos dignos de serem exibidos no cinema. Espetáculo de futebol, com jogo coletivo, individualidades, emoção, grandes chances e a classificação dos franceses para a semifinal da Liga dos Campeões pela segunda vez consecutiva.
Foram tantas alternativas, chances e detalhes na organização tática dos times que dá para extrair muita coisa de dois dos melhores jogos da atual temporada. Dá para falar sobre como Neymar e Mbappé se complementam no modelo de jogo de Pochettino. Ou como o Bayern se organiza para atacar com uma linha de defesa alta que garante muita posse e chances.
Foram duelos tão parelhos que qualquer um poderia ter vencido. Mas se há algo que faz o PSG estar mais forte que nunca é justamente no famoso "saber sofrer", que em campo é visto numa linha de defesa extremamente organizada.
Mauricio Pochettino entrevista coletiva técnico PSG — Foto: Reprodução / Twitter oficial do PSG
Essa defesa tem como grande destaque uma marcação zonal que prega uma linha de quatro defensores - os dois zagueiros e laterais - sempre alinhados. Ninguém solta a mão de ninguém: todo mundo de costas para o gol, olhando o adversário e formando um paredão em frente à pequena área de Keylor Navas, como na imagem.
Defensores do PSG ficaram alinhados em boa parte das ações ofensivas do Bayern — Foto: Reprodução
Quais as vantagens de se defender assim?
Preconizada na década de 1980 por Fabio Capello em sua tese de treinadores na UEFA, a marcação por zona tem como principal objetivo diminuir o campo de atuação do adversário. Para isso, usa a lei do impedimento para criar um espaço "inválido" entre os defensores e o goleiro e tenta fechar o ângulo e espaço que os adversários têm para finalizar e criar.
É um jogo de referência: o que é importante aqui é diminuir o espaço. Como? Com ao menos quatro defensores, que podem ser cinco como Antonio Conte gosta, sempre atrás da bola, reduzindo o campo entre o goleiro e andando para frente sempre que possível. O resto do time se alterna entre oferecer cobertura aos defensores, cuidar para que o adversário seja incomodado quando jogue ou compactar a defesa em momentos de pressão.
Então não se trata apenas de ficar todo mundo alinhado e pronto. É preciso se deslocar e pressionar a bola. Ou dar coberturas para que um defensor, quando tem que sair do alinhamento, não prejudique a ocupação do espaço. No PSG, quem tem a função de pressionar a bola e incomodar o adversário é o meio-campo. Isso mesmo: Neymar, Di Maria e Mbappé estão correndo atrás toda hora, incomodando, forçando o passe para trás enquanto a defesa fica alinhada e anda para frente
Quem tentava roubar a bola era um dos volantes ou os atacantes, como Neymar e Mbappé — Foto: Reprodução
E se essa pressão não dá certo, o que é normal, afinal do outro lado há Kimmich, um especialista em ler esse tipo de movimento? Aí entra o papel de Gueye e Paredes, dupla de volantes quase que perfeita nos dois jogos contra o Bayern. Eles têm como função proteger a área. Podem tanto acompanhar individualmente os atacantes que chegam para finalizar, evitando que quem saia seja o zagueiro (o zagueiro fica na linha, cobre espaço, não é exposto)..
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Ou podem dar coberturas aos defensores. Vamos supor que o adversário foi super rápido, conseguiu bagunçar ou chegar pelo lado e deixou a pressão do meio-campo para trás. O lateral ou zagueiro precisa combater, precisa incomodar. Então ele sai do alinhamento, e Gueye ou Paredes cobrem o lugar dele, mantendo a ideia de neutralizar o espaço de jogo enquanto o resto do time neutraliza o homem com a bola.
Se um dos defensores saía do alinhamento, Gueye e Paredes logo cobriam o lugar — Foto: Reprodução
Inclusive, entender as chances é entender o próprio erro da linha de quatro. Aqui, o lateral sai do alinhamento e Paredes não dá cobertura. Ele vê que Draxler foi vencido por Sané e vai pressionar a bola, criando um espaço em vermelho que Muller aproveita para se desmarcar e receber no ponto futuro. Se estivesse cobrindo, ele conseguiria fechar o que os técnicos chamam de "janela do passe" - a lacuna onde a bola, quando enfiada, não é interceptada.
Bayern só conseguiu chegar com perigo quando bagunçou a cobertura da dupla de volantes — Foto: Reprodução
Por mais que o Bayern tenha criado, a linha de defesa do PSG merece muitos elogios pela forma como se organizou. Foi fundamental para suportar a pressão num jogo em que Neymar perdeu duas chances claríssimas que iriam alterar o placar.
É um sinal de que a equipe francesa parece mais organizada e competitiva que nunca para enfrentar, muito provavelmente, o Manchester City. Ou o Borussia. Se havia provas do quão focado e competitivo Neymar está, ou do quanto o PSG é forte, quatro jogos excelentes contra a tradição do Barcelona e a qualidade do Bayern tiram quaisquer dúvidas.
Promessa de mais um espetáculo digno de cinema, com roteiro dos deuses do futebol, direção de Mauricio Pochettino, atuações de Neymar, Mbappé e Paredes e direção de arte da linha de quatro, que quando bem executada, é quase impossível de penetrar.
Jornalista, formado em análise de desempenho pela CBF e especialista em tática e estudo do futebol

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