O novo papel de De Jong no melhor Barcelona da Era Koeman
Os dois holandeses - treinador e jogador - remodelam a si mesmos e transformam o Barcelona num time minimamente confiável após muito tempo.
Algo de diferente está acontecendo no Barcelona.
Algo melhor, mais vistoso e mais confiável que as últimas duas temporadas de pesadelo no clube. Algo certamente mais promissor, coisa que o torcedor tanto pediu após o fim tão vitorioso do ciclo de Piqué, Suárez e cia. Algo até surpreendente, uma vez que Ronald Koeman estava longe de ser o nome ideal para o comando técnico após o desastre de Setién.
O holandês tinha desafios do tamanho de sua idolatria para responder em meio ao turbilhão político que quase culminou com a saída de Lionel Messi do time. O técnico tinha que devolver a confiança à Messi, resgatar a ordem no vestiário, encontrar a posição ideal para o investimento que foi De Jong e montar um time em meio à saídas e poucas contratações.
A solução é o time que nasceu no fim do ano, e mesmo eliminado pelo PSG na Liga dos Campeões, deu mostras de força na virada sobre o Sevilla na Copa do Rei e nas goleadas sobre o Huesca e Real Sociedad: uma espécie de 4-2-3-1 sem a bola, mas que passa a maior parte do tempo num 3-2-4-1 que encaixa como uma luva os talentos de De Jong e Messi e dá sobrevida a Griezmann e Busquets.
Barcelona de Koeman com a bola: De Jong como zagueiro, Messi na entrelinha e Griezmann como segundo atacante — Foto: Reprodução
Barcelona de Koeman com a bola: De Jong como zagueiro, Messi na entrelinha e Griezmann como segundo atacante — Foto: Reprodução
A estrutura que você vê na imagem acima é o desenho do Barcelona quando tem a bola, o que será sempre em torno de 60 a 70 minutos do jogo. É como o Barça encara 80% dos jogos do ano, uma postura que muda apenas contra Real Madrid, na Liga dos Campeões e contra o corajoso Sevilla de Lopetegui.
De Jong no mesmo papel de...Koeman como jogador!
A principal mudança nesse novo time é o papel de Frenkie De Jong. Cercado de expectativa, o holandês decepcionou em sua primeira temporada. Não conseguiu dominar o meio-campo como um meia no lado esquerdo que fazia a ligação entre defesa e ataque, função que os espanhóis chamam de "interior", e a dupla com Arthur, que Setién insistiu, simplesmente não deu certo.
Mais ciente do jogador, que treinou na Seleção Holandesa, Koeman promoveu mudanças. Primeiro, recuou De Jong para uma faixa mais próxima do gol com a bola. Isso lhe daria uma visão mais aberta do campo e a possibilidade de receber menos marcação dos adversários, uma vez que só um ou no máximo dois atacantes lhe tirariam o tempo e o espaço da jogada.
Zagueiros e meiocampistas se posicionam em torno de Frenkie De Jong — Foto: Reprodução
Como ninguém joga sozinho, o time trata de criar opções de passe para De Jong construir e pensar a melhor opção para avançar. Lenglet e Mingueza - ou Piqué, ou Umtiti - se posicionam alguns metros à frente, e Busquets e Pedri, mais titular que nunca, ficam no círculo central.
Era assim que o Barcelona de Cruyff fazia com o próprio Koeman, zagueiro de muitos gols e passes para gols que jogava quase como um líbero no 3-4-3 que venceu a Europa em 1992. Por mais que o esquema seja diferente, e De Jong não se posiciona com zagueiro sem a posse, o papel é o mesmo: dar o passe de qualidade, escolher a melhor opção para o time progredir e ficar mais atrás para assegurar que, se algo não der certo, sempre haverá como o Barcelona manter a posse para si.
Tudo está conectado. Se De Jong tem mais espaço em campo e mais tempo com a bola, o time constrói melhor e Messi tem menos tarefas em campo. Com isso, ganha fôlego - físico e mental - para ficar na zona onde é, desde 2006, um dos melhores jogadores da história: a entrelinha, a lacuna entre as linhas de marcação do adversário. É ali que ele recebe a bola, gira e conduz numa velocidade que, mesmo com a idade chegando, poucos conseguem roubar.
Griezmann e Busquets também ganharam com os ajustes táticos de Koeman. O primeiro tem o mesmo papel de Messi, mas circula mais em campo e promove o que pode ser chamado de "trocas posicionais". Lembra da estrutura da primeira imagem? Ela pode ser deformada e redesenhada em campo, desde que a intenção de cada movimento continue a mesma.
No exemplo abaixo, Busquets afunda e busca a bola de De Jong. Pedri recua e Griezmann sai da entrelinha, onde acompanha Messi, e recua novamente. Não é mais o 3-2-4-1com a bola, mas a intenção do time continua a mesma: a iniciação da jogada tem qualidade, Messi está na entrelinha e ao menos um jogador - Braithwaite ou Dembele - dão profundidade, se posicionam perto do gol, para Messi ficar solto.
Busquets e De Jong trocam de posições — Foto: Reprodução
Tudo isso para De Jong iniciar, Busquets ligar meio-campo e ataque e Messi ser cada vez mais o 10 que estampa sua camisa. O argentino vem sendo cada vez mais criador e assistente num time que ainda depende dele, natural pelo craque que é, mas que acha soluções para não viver apenas de Messi.
Sem Suárez, que promovia pivôs e tabelas que davam a Messi a chance de ultrapassar da linha da bola e chegar ao gol, Koeman faz com que Dest, Alba, Griezmann e Dembelé sejam as "flechas": assim que Messi toca na bola, os quatro citados precisam virar o corpo, correr para frente e receber a bola por trás da defesa, no ponto futuro. São as chamadas infiltrações.
Messi jogando mais longe do gol para criar situações de gol — Foto: Reprodução
O gol que abriu o placar contra o Real Sociedad é um exemplo clássico de infiltração em que Dest corre em direção à área e recebe por trás da defesa. Ao pontuar a criação do Barcelona nos passes mais pausados e por elevação, Koeman resolve o problema de furar retrancas e permite que Griezmann resgate os toques rápidos e deslocamentos que o levaram ao Barcelona.
Barcelona joga para Griezmann e Messi estarem em zonas sem marcação e decidirem — Foto: Reprodução
Koeman, Pochettino e o futuro do Barcelona em jogo
Em entrevista à imprensa estrangeira, Eric Abidal confirmou que Mauricio Pochettino foi sondado para ser treinador do Barcelona após o 8 a 2 para o Bayern. Ex-jogador do Espanyol, Poch recusou e acabou no PSG, onde curiosamente faz o mesmo trabalho que Koeman: reposiciona os talentos em campo e acalma o vestiário no que culminou com dois grandes jogos contra o Barça na Liga dos Campeões.
Barcelona x PSG Mauricio Pochettino Ronald Koeman — Foto: Reuters
Ainda que seja um dos melhores treinadores do mundo, Pochettino não tem as costas largas que Koeman possui no clube para comandar a equipe num momento tão delicado. Também não é inflexível nos ideias como Setién, escolha errática com base numa avaliação errada do trabalho de Valverde e na ideologia de voltar as origens cruyffianas.
Fato é que Cruyff sempre será vivo no Barcelona, mas o futebol é mais mutável do que imaginamos. Koeman nunca foi um treinador adepto do Jogo de Posição em sua essência - até porque são poucos os treinadores adeptos irrestritos da filosofia. A própria liberdade condicionada que De Jong tem já fura um dos conceitos máximos da filosofia, que é a de "esperar a bola chegar" segundo os espaços de fase.
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O Barcelona hoje é uma mistura de conceitos e escolas que é impossível achar um nome. Posicional? Mobilidade? Futebol holandês? Inglês? Na real, tanto faz. O importante é que o time encontrou um jeito de jogar que deixa todos os investimentos, sejam eles no passado, presente ou para o futuro, confortáveis. Era o que o Barcelona mais precisava.
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Não há certeza do futuro, muito menos de que Ronald Koeman transformará essa semente de time num projeto vencedor. Futebol é incerto. Mas fato é que, contra prognósticos e pedidos, e na base de muito trabalho, o holandês reposicionou De Jong em campo e o futuro do Barcelona como clube.
Jornalista, formado em análise de desempenho pela CBF e especialista em tática e estudo do futebol
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