Jogo posicional: os detalhes da ideia que Abel Ferreira implementa no Palmeiras
Em entrevista ao Seleção SporTV, o técnico português definiu o jogo posicional como uma de suas principais ideias de jogo no clube paulista. Entenda como funciona.
Convidado do Seleção SporTV desta terça (16), o técnico Abel Ferreira teve a primeira oportunidade na imprensa de falar um pouco sobre tática. Além de explicar o trabalho na rota vencedora no Palmeiras, Abel citou o "jogo posicional" como uma de suas principais ideias.
Na explicação, Abel explicou que divide o campo em quadrados, como se fossem pedaços de campo que os jogadores devem ocupar e que devem obedecer, em maior ou menor grau, mesmo sem estarem com a bola nos pés.
A ideia de que o campo tem alguns setores e os jogadores devem ocupar esses setores e esperar a bola chegar não é nova. Ela já existe há décadas no futebol europeu e há ao menos uma década no futebol brasileiro, com técnicos como Rogério Ceni, Roger Machado, Antônio Carlos Zago e Tiago Nunes. Roger, inclusive, implementou o jogo posicional em sua passagem no Palmeiras em 2018.
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O que é jogo posicional?
Jogo posicional é uma ideia de jogo que prega que o time que está atacando tem que desorganizar a defesa do adversário por meio da ocupação inteligente e prévia de espaços no campo. Não é só ter a posse de bola, muito menos ter jogadores estáticos em campo. A busca do jogo posicional é abrir caminho para o gol por meio da ocupação de posições no campo - daí vem o tal do posicional.
Quais posições são essas? Abel definiu na entrevista ao menos três, ainda que existam muitas: largura, apoio e profundidade.
Em resumo, um time precisa dividir o campo em alguns pedaços. Qual o objetivo disso? Abrir espaço no adversário. Essa é a ideia. Quando colocada em prática, esse picotamento do campo deve seguir os princípios do Abel, que é:
- Ter largura, chamada no Brasil de amplitude, que é ter dois jogadores bem abertos para que sejam opções de virada de jogo.
- Ter apoio, que nada mais é do que um companheiro próximo e com o corpo virado para a bola, assim ele recebe um toque curto.
- Ter profundidade, que é uma opção distante da bola, mas pronta para receber um passe e se deslocar nas costas dos rivais.
A confusão do que é ou não é jogo posicional começa justamente aí. Você percebeu que Abel definiu os conceitos que ele quer ver no time? Pois é, esses conceitos são particulares do técnico dentro da ideia de jogar de forma posicionada.
Rogério Ceni, outro técnico adepto do jogo posicional, tem outra forma de ver e pensar o jogo. Ele não quer que o Flamengo tenha tanta profundidade e prefere mais apoio - por isso Éverton Ribeiro e Arrascaeta circulam mais em campo. Já Mauricio Barbieri, eleito por Abel como dono do time que melhor pratica o jogo posicional no Brasil, gosta de bastante amplitude e Claudinho dando mais largura.
A palavra Jogo Posicional, por si só, só indica que um time se organiza para atacar por meio de posições. O "jeito" que essas posições dialogam e mudam no jogo vai de cada técnico.
Na prática: o jogo posicional e a largura, apoio e profundidade no Palmeiras
Abel deu o exemplo dos quadrados como uma forma de explicar didaticamente a posição que cada jogador deve seguir. No lance abaixo, Viña está na mesma linha dos zagueiros Gómez e Emerson. Ele joga quase como um volante que busca a bola para iniciar a jogada.
Viña está na linha dos zagueiros, e Danilo e Zé Rafael estão no meio — Foto: Reprodução
Alguns segundos depois, Viña sai daquela posição e se afasta. Ele corre para trás para ocupar uma outra região, um outro quadrado. Perceba que Zé Rafael e Danilo, a dupla de volantes do Palmeiras, continua ocupando seus quadrados.
Viña se afasta e ocupa o lado para dar largura — Foto: Reprodução
Gabriel Menino, que não tinha nada a ver com o lance, aparece de sopetão. Ele estava lá no lado direito e circulou até Gómez, recebeu a bola no pé dele com o corpo virado e ficou bem próximo aos zagueiros, mais ou menos como Viña estava fazendo.
Gabriel Menino dá apoio, e Viña e o resto do time continuam em seus quadrados — Foto: Reprodução
Percebeu o que aconteceu aí? Em poucos segundos, o time inteiro do Palmeiras foi ocupando quadrantes de campo para dar ao jogador com a bola aquelas três coisas que Abel citou: primeiro a largura, a amplitude com Viña correndo para trás para ir na linha de fundo. Depois, profundidade com Zé e Danilo ocupando um quadrado na frente da linha da bola. E Menino fez o apoio ao sair do lado e se aproximar do jogador com a bola.
O papo de criar quadrados e setores com a posse de bola têm o intuito de fazer o time atacar melhor. Depois de Menino ter dado apoio ao se juntar aos zagueiros e ter várias opções de passe (largura com Rony, apoio com Danilo e profundidade com Zé), ele lê o jogo e escolhe Rony, que se posicionou pelo lado direito.
O que acontece logo em seguida é que Menino toca e passa, dando apoio para Rony. Lucas Lima, que nem apareceu nas imagens pois estava em seu quadrado, aparece para dar mais um apoio. Rony recebe a bola e já toca de volta. Quando todo mundo segue os quadrados, o jogador sabe para onde vai a bola sem pensar.
Mais uma vez, os conceitos que Abel cita em campo — Foto: Reprodução
O Palmeiras saiu do campo de defesa para o campo de ataque, certo? Olha os movimentos: Rony sai do lado e foi para a área, dando profundidade ao ficar perto do gol. Lucas Lima se aproximou ainda mais de Menino, e Scarpa está bem aberto do outro lado, dando largura. Todo mundo ocupou seus quadrados, ou posições - como preferir - para que o Palmeiras tenha sempre esses três conceitos.
Ataque posicional no Palmeiras: cada um em seu quadrado — Foto: Reprodução
Qual é o objetivo desse posicionamento aí? O objetivo de seguir as posições? Simples: quebrar a defesa do Athletico, eleito pelo Abel como um dos times mais difíceis de enfrentar. Marcando por zona, o CAHP está com a linha de defesa alinhada e com duas coberturas defensivas: o ponta dobra no lateral para conter a amplitude e o camisa 5 desce para cobrir o lateral que subiu.
Defesa do CAHP bem organizada — Foto: Reprodução
Lembra que a razão do time se postar em quadrados é quebrar um bloco fechado? É defesa que você quer? Tá aí, uma das melhores do Brasil. Como desorganiza? Para Dorival Júnior, outro adepto dessa ideia, com bastante largura e laterais por dentro. Para Rogério Ceni, com bastante apoio e profundidade com Gabigol. Os conceitos vão variando de técnico para técnico, e o que há de mais importante é identificar essa mistura.
Para Abel, com largura, profundidade e apoio. É o que acontece: Lucas Lima dá apoio e recebe a bola, e Rony dá mais um apoio. Esses movimentos, sem a bola, cada um no seu quadrado, causam pane no Athletico: o lateral não volta a tempo, deixando Thiago Heleno junto com Rony e o outro lado, de Scarpa e Patrick, desprotegidos. Scarpa, o homem da largura, quase faz o gol.
Jogo posicionado abre espaço — Foto: Reprodução
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A história já foi contada nesse texto aqui: os portugueses foram os primeiros a pensarem futebol de uma forma racionalizada e até mecânica. Se os catalães foram românticos demais com a filosofia do "Jogo de Posição" (que não tem nada a ver com jogo posicional), e os brasileiros insistem em ver futebol na base da emoção, os portugueses foram pioneiros: estudaram, discutiram, se uniram e há 30 anos são referência.
A ideia de jogo posicional que Abel segue data da década de 1980, quando Jesualdo Ferreira, inspirado por Manuel Sérgio, aprimorou a Faculdade de Motricidade Humana na cidade de Porto e formou alunos do calibre de José Mourinho, Carlos Queiróz e Vítor Oliveira. Outro filósofo, Júlio Garganta, publicou aquela que é a tese definidora do que Abel faz no Palmeiras: "Modelação táctica do jogo de futebol", dissertação de doutorado de 1997.
Mourinho e Guardiola se cumprimentam na decisão da Copa do Rei 2010/11 — Foto: REUTERS
Nessa tese, Garganta divide os tipos de ataque em três - contra-ataque, ataque rápido e ataque posicional - e cita a importância de ter aquelas três palavras que Abel falou: largura, apoio e profundidade. Cinco anos depois, Mourinho ganhou tudo no Porto - e o futebol mudou para sempre.
Por mais que o que esteja em voga seja o "posicional", o Palmeiras venceu o Athletico Paranaense, jogo de exemplo no texto, com três gols de três formas diferentes: o primeiro foi um rápido contra-ataque, o segundo fruto do jogo posicional e o terceiro um escanteio.
Num esporte com poucas verdades absolutas, insistimos em ignorar uma das poucas certezas: não há jeito certo de jogar, e toda ideia pode dar certo se bem executada.
Quer um exemplo? Luiz Felipe Scolari, com seu jogo mais brasileiro e da Escola Gaúcha, de ligações longas, deu mais certo no Palmeiras que Roger Machado e Eduardo Baptista, dois adeptos do jogo posicional. Jorge Jesus, que não é adepto do jogo posicional, deu certo. Jesualdo, que é, não deu.
Abel Ferreira, técnico do Palmeiras, com a taça da Copa do Brasil — Foto: Cesar Greco / Ag. Palmeiras
O jogo posicional que Abel cita não é novidade. Existe há décadas. O que é de se atentar é que estrangeiros como Jesualdo, Jesus e agora Abel alertem o Brasil sobre processos, conceitos táticos e a importância de uma formação rica para que técnicos, gestores e jogadores não vivam apenas na base da emoção, do troca e vê se dá certo e das demissões em massa que levam à dívidas e falências.
A principal mudança não é no campo - é fora dele, numa mentalidade arcaica que ainda vê o futebol como um esporte meramente individual, enxerga pouco repertório no trabalho de Abel e não trata futebol com a seriedade, profissionalismo e rigor do que ele é: um esporte de alto nível profissional.
- https://globoesporte.globo.com/blogs/painel-tatico/post/2021/03/17/jogo-posicional-os-detalhes-da-ideia-que-abel-ferreira-implementa-no-palmeiras.ghtml?fbclid=IwAR1cwt-ygrP4YhCKtQHolrFquFW6LSyT3yI-oEpzh3mTgdD6Yie4I48OlbI
Jornalista, formado em análise de desempenho pela CBF e especialista em tática e estudo do futebol

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