sábado, 28 de novembro de 2020

Os dois papéis de Bruno Henrique no empate do Flamengo na Argentina

 

Melhor do time num jogo equilibrado, Bruno Henrique cumpriu ao menos duas funções do jogo. Foi por ele que passaram a maioria dos ataques de um Flamengo ainda irregular.

 





Foto: Reprodução/Léo Miranda 

Algumas coisas parecem nunca mudar no Flamengo: a insegurança da defesa, as contusõe, a instabilidade do time....e o bom desempenho de Bruno Henrique. Destaque no suado empate com o Racing, pela ida das quartas-de-final da Libertadores, ele vem voltando ao ritmo físico de sempre e mostrou a Rogério Ceni que pode ajudar cumprindo diversos papéis táticos na equipe.

O primeiro papel foi de um ponta, ou extremo, pela esquerdo no 4-2-3-1 que Rogério Ceni pensa no Flamengo

Gabigol foi o centroavante e a linha de três meias teve Éverton na direita, Arrascaeta por dentro e Bruno como esse ponta esquerdo. É a mesma estrutura do duelo contra o Coritiba, mas difere do 4-4-2 usado contra o São Paulo no Morumbi - um sinal de que Rogério pode apostar nessa formatação para os próximos jogos.

4-2-3-1 do Flamengo no começo do jogo — Foto: Reprodução/Léo Miranda

4-2-3-1 do Flamengo no começo do jogo — Foto: Reprodução/Léo Miranda

O esquema tático serve apenas como um ponto inicial. Éverton Ribeiro não se limitou à faixa direita e buscava o centro, abrindo espaço para o pouco valorizado Renê pela direita. Arrascaeta também se movimentava. Mas um detalhe fez a diferença no primeiro tempo: Bruno Henrique era o mais fixo dessa linha de meias. Ele buscava ficar aberto, enfrentar o lateral, correr do lado para dentro.

A maioria dos times em 4-2-3-1 marcam com duas linhas de quatro, com os dois pontas retornando para preencher o meio. No Flamengo foi um pouco diferente. Bruno não retornava tanto - veja bem, ele voltava em alguns lances, mas havia a intenção de estar uns metros à frente e deixar o lado com Gérson. Bruno queria ter campo para correr e duplar com Gabigol.

Só que o futebol é um jogo sistêmico. Um mínimo movimento provoca uma série de consequências para todo o time.

Uma consequência negativa foi que o lado esquerdo ficou desprotegido no primeiro tempo. No lance do gol, o Racing faz uma triangulação e um jogador dá apoio por dentro. O lado estava com Gérson, que marca quem tinha a bola. Bruno fica à frente, o que leva Filipe Luís a sair da linha de defesa e marcar quem recebe a bola, tentando evitar a tabela.

Falta de recomposição de Bruno Henrique tira Filipe Luís da linha de defesa e abre espaço no lance do gol — Foto: Reprodução/Léo Miranda

Falta de recomposição de Bruno Henrique tira Filipe Luís da linha de defesa e abre espaço no lance do gol — Foto: Reprodução/Léo Miranda

A velocidade e o mérito do drible tiram Filipe e Gérson da jogada, e Léo Pereira é obrigado a sair da linha e ir roubar a bola. Léo se expõe fazendo isso, mas o espaço que ele tinha que cobrir era muito grande. Se Bruno Henrique tivesse voltado, Filipe Luís poderia preencher a linha e ser mais um recurso para evitar o drible. Quando Léo é deixado para trás, a defesa do Flamengo já está fora do lugar...uma coisa foi levando à outra.

Léo Pereira erra, mas o posicionamento é uma consequência do sistema como um todo — Foto: Reprodução/Léo Miranda

Léo Pereira erra, mas o posicionamento é uma consequência do sistema como um todo — Foto: Reprodução/Léo Miranda

Ao menos três chances foram criadas em momentos que Bruno Henrique não recompõe quando havia a necessidade de preencher melhor o espaço. Só que ele criou bastante jogando mais à frente assim. Ao menos três chances, como:

  • O belo passe para Gabriel no gol
  • A bola que ele colocou na trave
  • E o passe do Gérson que ele quase alcança

Tudo fruto do mesmíssimo posicionamento que fragilizou a defesa! Bruno não é um jogador de atuar em espaços curtos. Ele rende muito melhor com campo para correr, no contra-ataque, na passada longa como foi em 2019. Mais aberto assim, ele permitia que Filipe Luís ajudasse na construção por dentro e dava profundidade ao jogo - ou seja, ele recebia a bola e aproximava a equipe da área.

Bruno Henrique não voltava tanto e buscou mais o lado esquerdo e o enfrentamento com o lateral do Racing — Foto: Reprodução/Léo Miranda

Bruno Henrique não voltava tanto e buscou mais o lado esquerdo e o enfrentamento com o lateral do Racing — Foto: Reprodução/Léo Miranda

Foram vários os momentos que ele buscava espaço. Todo o quarteto ofensivo do Fla jogava mais assim, saindo da referência e povoando o espaço entrelinhas. Algo que Gabigol, pela mobilidade, permite muito mais que Pedro, que é um pivô e um nove de mobilidade.

Flamengo criou muitas chances com esse posicionamento mais aberto de Bruno Henrique — Foto: Reprodução/Léo Miranda

Flamengo criou muitas chances com esse posicionamento mais aberto de Bruno Henrique — Foto: Reprodução/Léo Miranda

O segundo papel foi de centroavante de maior presença de área no segundo tempo

Rogério manteve o 4-2-3-1 sem Gabigol, com Vitinho no lado esquerdo. Bruno Henrique foi para o centro do ataque, exatamente como jogava com Abel Braga.

Com a lesão de Gabigol, Ceni manteve o sistema, mas Bruno Henrique virou centroavante — Foto: Reprodução/Léo Miranda

Com a lesão de Gabigol, Ceni manteve o sistema, mas Bruno Henrique virou centroavante — Foto: Reprodução/Léo Miranda

Qual é a consequência que essa mudança de posicionamento provocou?

Bruno já não tinha tanto campo para correr, apesar de algumas chances em que ele puxava o contra-ataque. Após quinze minutos de muito domínio do Racing, o Flamengo recuperou o fôlego e manteve a bola no campo rival. Foi aí que Bruno mudou o jeito de atuar. Ao invés de buscar campo, ele buscou o contato com os zagueiros e queria prender ao menos dois do Racing para Vitinho e Éverton entrarem por dentro.

O novo posicionamento prendeu os zagueiros do Racing e permitiu ao Flamengo seu momento de maior domínio no jogo — Foto: Reprodução/Léo Miranda

O novo posicionamento prendeu os zagueiros do Racing e permitiu ao Flamengo seu momento de maior domínio no jogo — Foto: Reprodução/Léo Miranda

Foi assim que ele puxa dois zagueiros e permite que Vitinho entre na diagonal no gol anulado. Ou que ajuda o Flamengo a criar perigo e preocupação nas bolas alçadas na área. E após a expulsão de Thuller, Bruno voltou a ser extremo, só que dessa vez pela direita.

Um simples posicionamento faz a diferença e provoca tantas mudanças que é impossível apontar um culpado no gol que o Flamengo tomou, nas falhas defensivas e na instabilidade que a equipe vive desde a saída de Jorge Jesus. Esse é um início de trabalho, com um técnico novo, com novas ideias...vai demorar pra dar certo, não adianta.

Ao menos, uma certeza: Rogério pode contar com Bruno Henrique de diversas maneiras para aplacar a crise do Flamengo no ano.

Por Leonardo Miranda

Jornalista, formado em análise de desempenho pela CBF e especialista em tática e estudo do futebol

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