Afirmação de Fernando Diniz como técnico passa por melhorar a defesa
Atuação desastrosa na Libertadores mostra erros defensivos básicos que se tornaram comuns no período pós-retorno do futebol. Problema já se repetiu em outras equipes de Diniz, como Athletico e Fluminense.
Há uns bons anos que Fernando Diniz é tido como um dos técnicos mais promissores no futebol brasileiro. Ele combina uma filosofia ofensiva e de muita posse de bola com entrevistas que chamam a atenção para o lado humano e até social do esporte. Na prática, seus times oscilam além da conta. Fazem bons jogos e depois decepcionam. Mudam de ritmo numa mesma partida, como foi na derrota para a LDU por 4 a 2.
A oscilação do São Paulo começa no sistema defensivo. Foram bons vinte minutos contra a LDU e três gols tomados em outros vinte. Mesma narrativa do duelo contra o River: começo bom, queda após o gol e depois insistência para correr atrás. Não é de hoje: em 15 jogos após o retorno do futebol, o São Paulo só não levou gols em três.
Os problemas defensivos impedem o São Paulo de decolar como prometido lá no início do ano. A afirmação tão prometida por Hernanes, Daniel Alves e Raí simplesmente não veio. São muitos os gols tomados que impedem o time de estar melhor posicionado no Brasileiro - como contra o Bragantino, Santos, River Plate e agora o desastre contra a LDU que pode custar a classificação na Libertadores que o São Paulo mais investiu nos últimos anos.
Os problemas defensivos do Tricolor nascem de vários fatores. O principal é a agressividade. O time simplesmente não se esforça para roubar a bola do adversário ou impedir ele de jogar com conforto. A organização defensiva só existe para cumprir esse objetivo dentro do jogo que o São Paulo teima em não fazer.
O segundo gol da LDU é um bom exemplo de como o São Paulo tem problemas para se defender. A jogada é toda construída pelo rival sem nenhuma dificuldade imposta pelo Tricolor. Há um indício de organização no lance, como o alinhamento dos jogadores entre duas linhas. Falta a ação. O adversário com a posse de bola tem muito espaço e tempo para jogar, e quem se desloca mais próximo dele não é vigiado.
LDU se movimenta e São Paulo se organiza, mas só assiste o adversário — Foto: Reprodução/Léo Miranda
O resultado é que a LDU consegue concluir como quer a primeira etapa de sua construção ofensiva. O próximo passo é a finalização da jogada. Se organizar para levar a bola do meio até a área. A jogada vai pelo lado. Nesse momento, quem está responsável por aquele setor deve cercar o adversário com a bola - que no tatiquês é o portador da bola - e impedir que ele jogue.
Igor Vinícius até sai do seu lugar e olha para quem está perto. Essa é a intenção. Mas ele não cerca. Não diminui o espaço. Não retoma a bola. Apenas fica no lugar e assiste o adversário jogar. Falta a ação.
LDU consegue chegar ao ataque (terço final) e São Paulo novamente dá espaço — Foto: Reprodução/Léo Miranda
Voltando à LDU, a jogada se desenvolve com tanta calma que o time vira de lado e chega na área com três jogadores. Dois deles se deslocam sem que nenhum são-paulino acompanhe atentamente. Já o portador da bola novamente tem espaço, tempo e calma para virar o pescoço, olhar para cima, caprichar no cruzamento e fazer o gol.
LDU consegue mudar de lado e chega na área com muito espaço — Foto: Reprodução/Léo Miranda
No português popular: o São Paulo é um time arame liso. Assiste seus adversários jogarem. O gol do Bragantino no Morumbi nasceu exatamente da mesma forma: adversário constrói, chega pelo lado e invade a área com toda a calma e tranquilidade do mundo. 👇
Problemas defensivos são uma constante na carreira de Diniz
O time tem posse de bola, joga bem em alguns momentos, mas é tão inconstante ao longo da partida que leva gols bestas e infantis e empata ou perde quando poderia vencer. O humor do São Paulo hoje não é novidade para Diniz. Esse mesmo cenário já se repetiu no Fluminense e no Athletico. Até no Audax, em 2015 e 2014, havia a sensação de que desequilíbrio entre defesa e ataque custava demais.
O CSA venceu por 1 a 0 tendo seis finalizações ao gol, todas certas. O Ceará explorou diversos erros defensivos em dois contra-ataques. Foram 48 gols sofridos em 44 jogos, o que dá uma média superior a um gol por jogo. O mapa de passes deixa claro: o Flu desprotegia demais a defesa. Fazia gols, mas se defendia mal. Olha quantas conclusões aconteceram na pequena área.
Finalizações sofridas pelo Fluminense em 2019 — Foto: InStat
No Athletico, a demissão foi tida como precoce. No Fluminense, torcedores se dividiram dizendo que o elenco não era tão bom. Mas no São Paulo, Diniz teve condições que pouquíssimos técnicos brasileiros têm: um elenco de ótimo nível, tempo de trabalho, apoio da diretoria e carta branca para implementar seu modelo. Não há o que falar. Os erros que se repetem, dessa vez, são de total responsabilidade do técnico.
Duas críticas, ambas construtivas, devem ser feitas:
- Por focar muito na relação do jogador com a bola, Diniz trabalha pouco a defesa. Quando falamos em trabalho, falamos em treino. Há poucos treinos voltados para a parte defensiva. Os jogadores são cobrados por atitude e por decisões, mas não são estimulados a pressionar ou marcar lá na frente.
- A própria ideia de Diniz vem mudando ao longo dos anos. O São Paulo é seu time de menor "posse de bola", o menos "guardiolista". Em muitos momentos fica totalmente na defesa, querendo o contra-ataque. É uma ideia muito válida, só que falta agressividade e unidade para conseguir, de fato, começar o contra-ataque.
Os erros do São Paulo são erros comuns a qualquer time treinado por Fernando Diniz. Não é momento de demitir, é momento de rever conceitos, trabalhos e metodologias. E melhorar a defesa, ponto que impede Diniz de realmente decolar na carreira de técnico.
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