Intensidade foi o diferencial do Corinthians no clássico
Corinthians foi superior ao Santos porque entendeu melhor o que fazer e quando fazer no jogo.
O técnico Tiago Nunes elogiou a atuação do Corinthians na vitória sobre 2 a 0 no Santos, mas freou a empolgação. Para o treinador, a equipe está longe do ideal e deve melhorar quando ficar mais automática - leia o que ele falou.
A equipe está distante do estágio que gostaria. Estamos evoluindo. O que eu quero é que os atletas façam tudo de forma natural, sem ter que pensar. É como dirigir um carro. Você não pensa quando troca de marcha. A equipe é a mesma coisa. Quando você ainda pensa antes de fazer é que ainda não automatizou. E só o número de jogos vai dar isso.
Mesmo que em plena evolução, porque são apenas quatro jogos na temporada e menos de um mês, o diferencial do Corinthians no clássico foi justamente esse "jogar de forma natural". Tiago explicou acima de forma simples o conceito de intensidade de jogo, que você já deve ter ouvido falar nas transmissões esportivas quando uma equipe é muito superior à outra. Ou mais rápida. Mas intensidade não tem a ver apenas com velocidade.
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Intensidade é a capacidade de realizar ações táticas no jogo no menor tempo e com o maior acerto possível. Quando o time faz um movimento, como atacar ou defender, ele possui uma organização, um posicionamento a cumprir, e os jogadores possuem um leque de opções para fazer dentro dessa ideia. O time mais intenso é aquele que cumpre esse posicionamento e os jogadores fazem escolhas mais sábias dentro dessa ideia. Foi tudo o que o Corinthians teve nos dois tempos, até com um a menos.
O lance do gol é um bom exemplo. O Corinthians circulou a bola de forma tão rápida e precisa que fez o Santos não acompanhar o raciocínio em nenhum momento. Na origem da jogada, o Corinthians cobra a falta e Cantillo recebe a bola com muito espaço e tempo para pensar. Ele gira, olha o campo, vê quem melhor tá colocado...o Santos se defende nesse momento e demora a entender isso. Kaio Jorge é o primeiro que identifica que há espaço para o adversário e pressiona. Sasha e Raniel ficam parados. A linha de defesa e os três volantes demoram a perceber que o time está se defendendo e precisa encurtar os espaços e ir marcando o homem da bola.
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Lance do gol é um exemplo da intensidade corintiana — Foto: Leonardo Miranda
Intensidade é concentração, mas não apenas isso. Ela está relacionada com inteligência, com as percepções para cada jogada. E varia de jogador para jogador. Na sequência do lance, quando Fágner recebe a bola, Pituca corre para o espaço deixado para o lateral. Ele dá cobertura e cumpre o conceito que Jesualdo treina, que é a defesa marcando por zona, em linha. Ele faz isso antes do Fágner decidir qual é sua jogada.
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Pituca, em vermelho, corre para fechar a linha de defesa — Foto: Leonardo Miranda
Mas o time não acompanha. E o Corinthians realiza uma ação muito mais rápido que qualquer defensor santista. No momento do cruzamento, você consegue ver que o Santos está taticamente organizado: Pituca dá cobertura e a linha de defesa está alinhada. Por que esse posicionamento? Para os jogadores saltarem e interceptarem a bola no alto. Alguém faz isso? Não! O Corinthians não só preenche a área antes mesmo do cruzamento como um jogador identifica um espaço vazio e começa a correr para receber a bola antes de saber o que o companheiro vai fazer. O resultado só poderia ser o gol.
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No momento do cruzamento, Santos deixa passar e dá espaço a Everaldo — Foto: Leonardo Miranda
Veja o gol
Por isso que intensidade não é correria, não é estar ligado, não é pressionar a todo o momento. É tudo junto! Realizar as inúmeras decisões do jogo de forma rápida garante vantagens como identificar os melhores espaços e tomar as melhores decisões.
Como Tiago Nunes falou, é como andar de carro. Imagine o trajeto de sua casa até o trabalho. Quando feito pela primeira vez, tudo parece maior e mais lento. As decisões são mais cautelosas. Há mais medo de errar. Com a prática, tudo se torna tão conhecido que o caminho fica automático. Muitas vezes você se pega viajando enquanto dirige sem ter consciência de que está realizando um trajeto difícil e com muitas variáveis. O jogo funciona da mesma forma: quanto mais um time joga junto, mas ele entende esses trajetos táticos e realiza ações de alta intensidade.
Intensidade é diminuir o tempo no jogo. E tempo, a variável mais importante de nossas vidas, é também o que não permite tirar conclusões apressadas do trabalho de Jesualdo Ferreira ou Tiago Nunes.
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Corinthians x Santos Tiago Nunes Paulistão — Foto: Renato Pizzutto/BP Filmes
A única conclusão possível é que, com o mesmo tempo disponível, o trabalho de Tiago Nunes alcança resultados mais esperados a esse estágio. E o de Jesualdo, com o desmanche do Santos e a situação política do clube, alcança resultados menos esperados. Nada que possa definir o ano. No terrível calendário brasileiro e nas cobranças infundadas com poucos jogos e ferramentas de trabalho, montar um time que tenha intensidade é uma tarefa ingrata. Pelo menos no clássico, o Corinthians conseguiu.
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Jornalista, formado em análise de desempenho pela CBF e especialista em tática e estudo do futebol
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