RETROSPECTIVA 2019: a volta do toque de bola, as defesas altas e a influência da velocidade no jogo atual
Equipes ofensivas e que circulam rapidamente a bola pelo campo foram destaque no ano que encerra a década e joga a reflexão: qual o limite da evolução do jogo?
Em 2012, no livro "O que restará do cinema?", o historiador de cinema Jacques Aumont dizia que a introdução das mídias físicas e do streaming alterava profundamente a forma como as pessoas viam filmes, provocando a "morte" do cinema como o conhecemos. Zilhares de super heróis e cinco Star Wars depois e o cinema está mais vivo que nunca, assim como livros, jornais, dinheiro em papel, casamentos e tantas outras coisas que historiadores mataram a cada evolução tecnológica.
Não é diferente no futebol. Se a Copa do Mundo de 2018 foi marcada pela dificuldade de atacar, Liverpool, City, Flamengo e Ajax provaram que o futebol ofensivo e dinâmico nunca esteve tão vivo. Se o drible foi tantas vezes questionado, jogadores como Jadon Sancho, Ziyech, Mané e Lucas Moura provaram que ele continua importante. Se o camisa 10 estava morto, Éverton Ribeiro, De Jong e De Bruyne pensaram o jogo com cadência de fazer inveja ao Canal 100. Nada morre por completo. A história e o futebol são cíclicos: transformam o passado para responder os dilemas e perguntas do presente.
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José Mourinho Jürgen Klopp técnicos Manchester United Liverpool — Foto: Getty Images
Esse dilema era claro no fim do ano passado: como atacar mais e melhor? A resposta veio no toque de bola. Liverpool e Flamengo fizeram excelente final de Mundial com mobilidade, rapidez, laterais que viravam meias e atacantes que saíam da área. Movimentação constante como a de Ajax e Tottenham na semifinal da Liga dos Campeões, ou como River Plate, Athletico, Borussia e o Leicester de Brendan Rodgers. A lógica desse domínio vem do primeiro parágrafo: se o adversário está preparado para se defender e negar espaços, inclusive cobrindo possíveis erros, já não basta apenas ser mais organizado que ele. É preciso ser mais rápido que ele.
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O ano do toco y me voy — Foto: Leonardo Miranda
O futebol foi ofensivo em 2019. Os melhores times foram aqueles que uniram volume de jogo, intensidade e a busca por chegar no ataque o tempo todo. Dentre eles, é o amadurecimento de Jurgen Klopp que revela mais sobre o futebol atual. O Liverpool tem um ataque que não se organiza a partir de posições ou no contra-ataque, mas pela constante troca de posições para gerar espaços no outro lado. É o velho "toco y me voy" que Galvão tanto fala, mas a diferença está na velocidade e sincronia de movimentos que garante que esses espaços serão preenchidos com jogadores livres, capazes de finalizar a bola ou dar um passe, e que quebra a ideia de cobertura, dobra ou tipo de marcação - encaixe ou zona, o adversário simplesmente não tem tempo de se ajustar coletivamente e pensar em como neutralizar isso.
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Os laterais do Liverpool chegam ao mesmo tempo no ataque — Foto: Leonardo Miranda
Por isso Firmino saiu tanto da área. Ou Van Dijk apoiou tanto. Ou Mané e Salah ficaram mais à frente, esperando a bola. Ou Gérson chegou na frente, como Palacios e Enzo Perez. A ideia de que o jogo deve ser vertical e rápido dominou a Europa e a América do Sul, com Flamengo e River Plate mostrando a busca por ter um modelo que visa o volume de finalizações e passes na frente.
O Borussia de Lucian Favre e a Atalanta de Gasperini fizeram grandes jogos assim, e Ajax e Tottenham protagonizaram uma emocionante semifinal de Liga dos Campeões se pautando por toques rápidos, que quebram linhas e encontram os atacantes já correndo com a defesa desorganizada. Foi assim que Tadic, Harry Kane ou Sancho desandaram a fazer gols: procurando zonas vazias enquanto dois ou três companheiros se deslocavam no lado oposto da jogada. Numa virada de jogo, eles estavam de frente para o gol enquanto os defensores ainda viravam o corpo, procurando desenhar mentalmente a jogada.
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Atrair adversários para um lugar e chegar de surpresa no espaço gerado: a dinâmica que dominou 2019 — Foto: Leonardo Miranda
Em 2019, ataques rápidos e verticais foram mais eficientes que ataques mais pausados ou times de contra-ataque
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Ter a posse ou tocar rapidamente? — Foto: Leonardo Miranda
Se o jogo é pautado por chegar rapidamente em espaços vazios, qual é o único mecanismo capaz de levar a bola até essas lacunas? Ele mesmo, o passe. O fundamento mais básico do futebol ganhou novos contornos em 2019. A velha ideia de que "ter a bola é o melhor jeito de se jogar" deu lugar ao conceito de que é preciso ter a bola e tocá-la com inteligência. Tem alguém para receber ela à frente? Então o passe deve ser vertical, para frente. Não tem? Então o time deve circular a bola, mas com o cuidado extra para não dar o contra-ataque ao adversário. Lembrando: tudo deve ser feito mais rápido que o outro lado!
Isso fez com que defensores e goleiros tivessem que não mais apenas "saber jogar com os pés". Eles precisam agora dominar e controlar a bola já tirando o ângulo do adversário e posicionando o pé para dar o passe ao companheiro. O conceito de "controle orientado" invadiu os treinos de Flamengo e Santos e agilizam o jogo, porque o tempo gasto entre a recepção e o passe fica menor. A circulação fica mais objetiva e o time chega com poucos passes ao gol, talvez a marca registrada do fenômeno Flamengo: campeão do Brasileirão e da Libertadores sem abdicar de seu estilo, circulando a bola por todo o campo até chegar em Arrascaeta, Bruno Henrique e Gabigol: o trio que acelera e individualiza as jogadas.
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Cruzamento do Flamengo: atacantes buscam ocupar a área — Foto: Leonardo Miranda
Circular rapidamente a bola foi importante e ajudou a desenvolver novas técnicas, como o controle orientado
Um novo espaço para os criativos — Foto: Leonardo Miranda
Uma das principais discussões da década foi sobre o camisa 10. Na toada do fracasso de Ganso como craque, muito se debateu se ainda havia espaço para um jogador com funções apenas criativas num jogo dominado pela sincronia coletiva. O camisa 10 não morreu, ele apenas se transformou. Jogadores de pura criatividade, como De Bruyne, De Jong, Éverton Ribeiro, Isco e Palacios foram típicos camisas 10, mas com outro dinamismo. Eles se espalham em áreas onde há menos marcação, como a proximidade dos zagueiros ou os lados. O time se aproxima e espera a bola deles. Só que eles não mais recebem a bola para pensar depois: pensam correndo, verticalizando o jogo e ligando rapidamente a bola aos mais avançados.
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De Bruyne cria jogadas centralizado e sempre em movimento — Foto: Leonardo Miranda
Curioso que o grande exemplo desse novo jogador criativo, capaz de improvisar o jogo e quebrar o raciocínio da marcação seja Neymar. Saindo da esquerda no 4-3-3 do PSG e sempre centralizado, ele pensa jogadas, dribla (e cai bastante) e cada vez mais é um assistente e finalizador do que mesmo cria. É quase que a mesma coisa que Messi faz todo jogo no Barcelona, mas dentro de um sistema posicional, que leve a bola até esse improviso.
Neymar cria jogadas como um autêntico dez — Foto: Leonardo Miranda
Drible, técnica e talento sempre terão lugar no futebol. A questão é como eles se inserem no jogo.
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Linha alta ou defesa individual? — Foto: Leonardo Miranda
Para circular a bola como o Liverpool, ter o volume do Flamengo ou os avanços de Ajax e Liverpool é preciso correr riscos. Acompanhe a lógica: alguns jogadores precisam dar profundidade, para prender a defesa, e outros precisam avançar e chegar de surpresa. Quanto mais superioridade numérica, melhor, o que fez zagueiros e até goleiros - como Felipe Alves no Fortaleza - avançarem.
E a defesa? Como impedir contra-ataques e neutralizar avanços sempre colocando mais jogadores que seu adversário na frente?
A resposta do Liverpool veio na forma da imposição física de Matip e Van Dijk, os zagueiros que ficavam no mano-a-mano com os atacantes e tinham que afastar e neutralizar as bolas que chegavam. Em abril, numa jogada fenomenal, o holandês do Liverpool mostrou que individualizar o jogo pode ter muito conceito por trás, como diminuir o ângulo de chute. River Plate, Tottenham e o próprio Ajax foram outros times que deixavam os zagueiros desprotegidos para que o toque de bola funcionasse na frente.
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Van Dijk: mano a mano com atacantes adversários — Foto: Leonardo Miranda
Já a resposta de outras equipes, como City, Santos e Flamengo foi na forma de uma defesa muito compacta, marcando por zona e sempre próxima do meio. O conceito de "bola coberta e bola descoberta" foi importado do Milan de Arrigo Sacchi e fez o Flamengo ser seguro defensivamente não porque Rodrigo Caio deixou o condomínio, mas porque estava sempre protegido e perto da bola.
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