Reinier, Martinelli e a reinvenção do ponta de lança
Atacantes rápidos e dribladores estão cada vez mais valorizados no mercado europeu. Explicação está na evolução tática do jogo e na mudança de formação na base.
Nos últimos dois anos, o Real Madrid gastou mais de €120 - o equivalente a R$ 500 milhões - em três jogadores brasileiros: Vinícius Júnior, Rodrygo e Reinier, oficializado nesta semana. O Arsenal pagou R$ 30 milhões por Gabriel Martinelli, vindo do Ituano. O que faz clubes europeus gastarem tanto por jogadores tão jovens? Todos são pontas de lança modernos. Ligeiros e dribladores, ainda têm margem de crescimento tático para se tornarem realidade num futebol cada vez mais rápido.
- Martinelli impressiona, ganha elogios do chefe e iguala marca de Anelka no Arsenal após 21 anos
- O que será de Reinier no Real Madrid? Veja o que aconteceu com cada joia contratada desde 2013
O ponta de lança era o atacante que jogava por trás do centroavante. Ele recuava e se lançava como uma flecha em direção ao gol, aproveitando os passes do bom armador e os espaços deixados pelo centroavante. Leivinha, Sócrates, Jorge Mendonça, Raí, Ricardo Goulart e mais brilhantemente Pelé são exemplos de uma função muito brasileira, que combinava força física com técnica e finalização.
Os pontas de lança modernos geralmente começam pelos lados. Rodrygo e Vinícius Júnior começam como atacantes de beirada no Real Madrid, assim como Gabriel Martinelli. Só que com defesas cada vez mais fechadas, os times precisam abrir o campo fixando os laterais. Na prática, eles interagem com os companheiros e tocam na bola sempre centralizados, como Martinelli faz no empate do Arsenal com o Chelsea por 2 a 2.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_bc8228b6673f488aa253bbcb03c80ec5/internal_photos/bs/2020/N/F/CdXfwvSCe37YihU3jl7A/martinelli.png)
Gabriel Martinelli no Arsenal: ponta de lança que começa pela esquerda — Foto: Leonardo Miranda
O ponta de lança não é necessariamente um armador, mas é rápido e inteligente para virar o corpo e se posicionar no espaço que surge na marcação do adversário. Na triangulação que o Flamengo faz abaixo, Reinier é o jogador centralizado. Se recebe a bola ali, ele "chama" um zagueiro para a marcação e abre espaço para que Gabigol corra e receba a bola numa zona livre de pressão. A tabela é uma importante arma contra a compactação cada vez mais dura dos adversários. Só ela tem o poder de tirar um zagueiro do lugar e fazer a linha de defesa correr atrás do próprio gol.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_bc8228b6673f488aa253bbcb03c80ec5/internal_photos/bs/2020/o/o/1MjAjORtSImBrJQ69UWA/reinier-3.png)
Triangulação do Flamengo e Reinier está entre as linhas do Avaí — Foto: Leonardo Miranda
Dos quatro citados, Reinier e Martinelli são os pontas de lança mais construtores. Os que mais ajudam mais o time na troca de passes se movimentando, escorando a bola ou tocando curto para o companheiro. Rodrygo é o mais versátil deles, podendo ser tanto um ponta clássico como um atacante mais centralizado. E Vinícius Júnior é o que mais se aproxima de um ponta, mesmo que o apoio de Marcelo ou Mendy obrigue o ex-flamenguista a ficar na mesma posição de seus companheiros.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_bc8228b6673f488aa253bbcb03c80ec5/internal_photos/bs/2020/b/k/ydy2FoRpW91ztBeDuKDg/vini-jr-1.png)
Vinícius Júnior centralizado quando os laterais apoiam — Foto: Leonardo Miranda
A ideia de sempre explorar espaços livres também é válida no ataque. O ponta de lança moderno precisa ser rápido e ter o faro de gol de um centroavante. Os espaços perto dos zonas de finalização estão cada vez mais protegidos, seja por muitos jogadores, seja pela velocidade com que o adversário pressiona e tira o espaço de quem está com a bola. A capacidade de dominar e finalizar com pouquíssimo tempo e espaço disponível faz cada vez mais a diferença. Aqui, Reinier corre em direção a uma lacuna antes mesmo de Diego, no bico esquerdo da área, fazer o passe. Os dois estão pressionados e precisam pensar e agir num milésimo de segundo.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_bc8228b6673f488aa253bbcb03c80ec5/internal_photos/bs/2020/j/z/vSAFn4Seu1ACP68VaZbw/reinier-2.png)
Reinier finalizando uma jogada — Foto: Leonardo Miranda
Clubes europeus pagam muito por gols. E fazer gol no futebol europeu significa ler rapidamente o jogo, porque a velocidade com que alguém retoma a bola, fecha os setores ou afasta o jogo de sua área é cada vez mais rápida. Jadon Sancho é outro exemplo de um falso ponta que atua sempre como ponta-de-lança e vem se tornando especialista na leitura rápida de espaços para quebrar defesas formadas por até oito ou dez jogadores e na técnica apurada para acertar a jogada. Gabigol também é outro exemplo de atacante de lado que transformou sua forma de atuação.
Combinar técnica com inteligência é o cálice sagrado do futebol atual. Ao comentar a chegada de Reinier, Zidane foi claro: "Como todos os jogadores brasileiros, ele é muito bom tecnicamente, é sua principal qualidade". A questão é que a técnica não faz mais sentido sozinha. Lucas Lima, Luan e Vinícius (ex-Flu, hoje Ceará) são técnicos. Mas não têm a intensidade ou a leitura de espaços para enfrentarem retrancas. O mesmo aconteceu com Philippe Coutinho, que flopou no Barcelona justamente por não conseguir se adaptar a esse espaço tão comprimido de atuação como as linhas do adversário.
Aliar a grande técnica com escolhas mais sábias é o que falta a Vinícius Júnior no Real Madrid. Dono de um potencial imensurável, ele encontra dificuldades quando precisa se postar de costas e ir para a área. Seu forte sempre foi o drible e o improviso contra adversários desorganizados, em jogadas de contra-ataque, no qual se vê no um contra um. A atuação memorável contra o Emelec em 2018 é um exemplo de um contexto que acontecerá pouco na Europa: um marcador solitário e muito espaço na frente do goleiro.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_bc8228b6673f488aa253bbcb03c80ec5/internal_photos/bs/2020/i/e/aPsJjtQciKpZ2SqySBRg/vini-jr-2.png)
Vinícius Júnior tem grande potencial, mas precisa melhorar a leitura de espaços — Foto: Leonardo Miranda
Thomas Muller, o primeiro Raumdeuter
Pontas de lança rápidos e finalizadores não são uma novidade. O futebol inglês sempre teve essa figura, imortalizada por Bobby Charlton e cuidada com carinho por Kenny Dalglish e Eric Cantona. Raúl era um exemplo de um "delantero" com grande capacidade de ler espaços, assim como Cruyff. Zico e Platini também jogavam atrás do centroavante, mas eram jogadores de mais pausa e articulação que combinavam refino nas finalizações. Pode-se dizer que o primeiro atacante a combinar todas essas características foi Thomas Muller.
/s.glbimg.com/es/ge/f/original/2018/08/24/2018-08-24t190648z_1655280171_rc1450e21860_rtrmadp_3_soccer-germany-bay-tsg.jpg)
Bayern Hoffenheim Muller — Foto: Reuters
Forte, alto e rápido, ele foi descoberto como meia centralizado por Louis Van Gaal na temporada 2009/10, com Robben e Altintop pelos lados. Jogando atrás de Olic e depois Lewandowski, ele tinha a função de explorar espaços vazios nas linhas do adversário. Sempre finalizava a construção da jogada, seja concluindo a gol ou dando o passe para algum companheiro. A inteligência para entender espaços vazios, a leitura das intenções dos companheiros e a grande técnica foi muito bem aproveitada por Pep Guardiola, que o fez titular absoluto no jogo de troca de passes e pressão que mudou a Alemanha.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_bc8228b6673f488aa253bbcb03c80ec5/internal_photos/bs/2020/P/5/XfZZ4AQn2MxB5Y70r7QA/muller.png)
Thomas Muller foi o primeiro ponta de lança moderno — Foto: Leonardo Miranda
A inteligência de jogo rendeu até apelido a Muller: o Raumdeuter, nome em alemão da profissão que investiga o espaço sideral. Em campo, Muller foi o primeiro investigador de espaços quando o jogo passou a ser rápido e jogado sempre com pressão incessante, uma contribuição do Barça de Guardiola e dos experimentos de Mourinho entre 2008 e 2012.
O grande desafio de Zidane no Real Madrid é transformar Reinier no "raumdeuter" que irá substituir Benzema, assim como tornar Rodrygo e Vinícius Júnior mais constantes quando jogam por dentro. Gabriel Martinelli vem jogando cada vez melhor, e até Gabriel Jesus pode ser enquadrado na função. Uma prova de que técnica ou talento jamais perderão espaço: elas sempre serão valorizadas quando encaixadas no que o futebol, de hoje e de amanhã, pede para ser competitivo.
Jornalista, formado em análise de desempenho pela CBF e especialista em tática e estudo do futebol
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_bc8228b6673f488aa253bbcb03c80ec5/internal_photos/bs/2020/7/E/an84d7Q8mGkZK0qAdxzA/carrossel-atacantes-brasileiros-na-europa.jpg)
/s2.glbimg.com/O47cldX_qJw8pyqKF_SOsngT3-U%3D/0x0%3A300x300/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_bc8228b6673f488aa253bbcb03c80ec5/internal_photos/bs/2019/l/V/EsEpQjTN2DrBxsMwl4PQ/miranda.jpg)
0 comments:
Postar um comentário