Claro que a ideia de ter a posse está associada à velocidade, intensidade e aproveitamento dos espaços. Algo que o Barça de Valverde fazia muito bem, em especial na La Liga. "Não jogo apenas para ter a posse. Tem times que se fecham e se não há espaços, então é preciso levar a bola de um ponto até outro para criar esses espaços. O time tem que chegar o mais rápido ao ataque", pontua Setién.
Jogar assim contra os grandes rendeu grandes jogos, como o 2 a 2 do Las Palmas contra o Real Madrid e dois espetáculos em 2019: o 2 a 0 em pleno Santiago Bernabéu e o melhor jogo da La Liga, um 4 a 3 no Barcelona, em pleno Camp Nou. Só que a queda de rendimento, pela exigência de sempre se construir com posse e o desgaste que isso gera, gerou críticas ao técnico. A derrota para o Leganés, por 4 a 0, é um exemplo de como o Bétis era inconstante. Lembrou de Fernando Diniz?
Não se trata de problemas defensivos. Nem todo time que leva muitos gols tem problemas defensivos, porque ataque e defesa estão conectados. A questão é que por querer muito a bola, Setién não abdica da sufocante pressão na frente, a marcação avabçada para recuperar rápido a bola. Como aqui, na vitória sob o Real Madrid. Se o oponente se fecha e se prepara para superar essa pressão, Piqué e Lenglet podem ficar expostos contra a velocidade que já não têm.
Quique Setién Barcelona — Foto: Reprodução/Twitter
Claro que sua chegada é um risco. Mas um risco que o torcedor quer pagar para ver no momento.
Cruyff como principal influência
Meio-campista de pouca projeção, Setién chegou a jogar na Seleção Espanhola e passou pelo Atlético de Madrid, sem brilho. E foram os confrontos contra o poderoso Barcelona de Cruyff que moldaram sua ideia de jogo. "Você jogava contra eles e passava o jogo correndo atrás. Eu dizia pra mim mesmo: é isso o que quero para mim. Eu quero estar nesse time, jogar desse jeito e saber o que está acontecendo", explica.
A influência de Cruyff certamente impactou em sua contratação. O Barcelona sempre fez movimentos pegando ex-jogadores, como Luís Enrique e o próprio Valverde, ou técnicos que vinham da influência do Jogo de Posição, como Van Gaal ou Tata Martino. Setién chega sob esse mantra que não tem apenas a ver com a forma com o que o time joga, mas como ele lida com seres humanos.
Quique Setién técnico Betis — Foto: Reprodução / Facebook
Afinal, o novo técnico do Barça é conhecido por melhorar seus jogadores. No Bétis, Bartra aperfeiçoou consideravelmente quesitos técnicos como a saída e o jogo sob pressão. Lo Celso se tornou um articulador tão importante que foi parar no Tottenham. E Boateng no Las Palmas se transformou num meiocampista nato. A forma como melhora o desempenho individual também foi pensada em sua chegada ao Barcelona. "Senti que ele prolongou minha carreira no futebol", pontuou Joaquín, ídolo do Bétis.
No Barcelona, o desafio é inserir La Masia como Valverde não fez, contratando jogadores caros como Paulinho, Vidal e Coutinho. A ideia de que os mais experientes devem jogar também abateu o clube financeiramente - ainda que tenha o segundo maior orçamento do mundo, atrás do Real Madrid, o Barcelona simplesmente não tem dinheiro para contratar um bom camisa 9 para repor a falta que Suárez, machucado, fará.
Messi Barcelona Atlético de Madrid Supercopa da Espanha — Foto: Waleed Ali/Reuters
Dinheiro tem a ver com futuro. Ao fim do contrato de Setién, Messi, Suárez e Piqué terão 35 anos, um a menos que Busquets e Alba. Os cinco formam um núcleo duro, de grande influência na diretoria e que foram titulares absolutos e donos do time com Valverde. Reduzir essa influência e pensar em novas chegadas para compor um núcleo vitorioso será tão importante como pensar o futuro de Messi, que já declarou que não sai de Barcelona. Jogar mais atrás, como Iniesta?
De toda forma, os resultados pontuarão o mais importante desafio do espanhol. Valverde tinha eles, mas faltava a arte. Tata Martino tinha a arte, faltava os resultados. Setién precisará ter os dois. Porque no fim, tudo no Barcelona sempre é sobre Cruyff: "Qualidade sem resultado é inútil. Resultado sem qualidade é entediante".
Por Leonardo Miranda
Jornalista, formado em análise de desempenho pela CBF e especialista em tática e estudo do futebol
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