Palmeiras e Luxemburgo, a eterna busca pelo salvador da pátria
Seja com Sampaoli ou Luxa, clube renega as mudanças que prometeu e cai em sua armadilha mais costumeira - o retorno de alguém com o status de salvar tudo.
15/12/2019 21h44
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foto: Marcos Ribolli
Em 1820, explode em Portugal a chamada "Revolução do Porto", uma união de elites econômicas e nobreza que exigia o retorno de Dom João VI à Portugal. Para eles, a volta significava estabelecer novamente o colonialismo que fez Portugal "rico e grande", mesmo que o restante da Europa caminhava para a industrialização e o fim da escravidão.
Transportada ao futebol, o salvador da pátria encontrará poucos espelhos tão fiés como o Palmeiras, que anunciou o retorno de Vanderlei Luxemburgo como técnico neste domingo (15).
Antes de qualquer análise sobre Luxa é preciso entender o motivo do Palmeiras ter demitido Felipão e Mano Menezes num período de seis meses: insatisfação. Com o futebol exibido, com o aproveitamento de jogadores, com tudo. Ao ser dominado pelo Flamengo no Allianz Parque, Mauricio Galliote tomou uma decisão em parte política, em parte motivada pela neorivalidade entre os clubes. Citou, na coletiva, que o futebol tinha mudado e o clube buscaria se conectar com o que havia de mais novo e moderno, a começar pelo gramado sintético que será implementado.
O que não foi entendido é que essa busca não teria que começar no técnico. Teria que terminar nela. O que há de mais moderno no futebol, a exemplo de basicamente todo clube europeu, é uma gestão com uma ideia de jogo sólida no profissional e na base, que agrade o torcedor e reflita suas preferências estéticas e esteja dentro dos processos de contratações e saídas de jogadores. Tudo isso junto tem o nome de "modelo de jogo", e deve estar acima das pessoas. Acima do jogador, do técnico e do presidente - assim como o clube está acima deles.
O exemplo mais claro é o Barcelona. Entra e sai técnico, jogador chega e sai do clube e o jeito de jogar continua o mesmo. Muda uma coisa ou outra, mas a essência permanece a mesma. Qual clube brasileiro tem uma ideia clara de qual é sua essência de jogo e qual técnico chegará mais próximo de seguir ela?
A resposta é simples, nenhum, e é esse número que gera a síndrome do salvador da pátria. Sem processos estabelecidos e sem saber qual é sua essência, clubes brasileiros aprenderam que deveriam apostar na mobilização pessoal de alguém para vencer. Sem processos, apenas o trabalho pessoal poderia juntar o clube e promover a formação de um time campeão. É assim com todos, e o Palmeiras vem cada vez mais apostando nessa ideia. Em 2016, confiou a Cuca, que tinha saído como jogador em 1992 com a promessa de que voltaria campeão, a missão de ganhar o Brasileirão a todo custo. Em 2018, sem paciência com o naturalmente oscilante trabalho de Roger Machado, a urgência por vencer levou ao retorno de Luiz Felipe Scolari, que entregou o que lhe fora proposto: títulos.
Luiz Felipe Scolari, técnico do Palmeiras — Foto: Marcos Ribolli
Veja bem: não estamos avaliando pessoas. Cuca é um grande técnico. Assim como Felipão e Luxemburgo, os dois maiores vencedores do futebol brasileiro. Estamos avaliando a inserção desses seres humanos dentro do clube, o que eles podem entregar e a expectativa e os objetivos a qual elas são submetidas. Estamos avaliando trabalhos.
O problema do salvador da pátria não é o que ele conquista - título é título, e jamais um torcedor deixa de comemorar uma conquista porque o futebol não é legal. Também não é o estilo de jogo, que normalmente é aceito num curto prazo. A torcida do Palmeiras adorava o "Cucabol" e gostava bastante do estilo direto de Felipão. São ideias de jogo, e assim como pessoas, nenhuma está errada e todas devem ser respeitadas. O problema do salvador da pátria é que ele não deixa norte ou futuro aos clubes, alimentando um eterno ciclo que prejudica financeiramente os clubes até levá-los à falência. O salvador da pátria age na urgência e na falta de paciência. Ele chega, "arruma a casa" e "troca o pneu com o carro andando". Vence um título, salva o clube do rebaixamento ou coloca na Libertadores.
E depois?
Depois a fórmula se esgota como se esgotou com Cuca em 2017, que com um elenco diferente, tentou resgatar o mesmo jogo de marccação alta e intensidade sem ter jogadores para tal. Se esgota como Felipão nesse ano, que ao ver aquela marcação sufocante parar de dar certo, começou a ver o time sofrer gols e não ter recursos para se organizar ofensivamente. Não apenas com o Palmeiras - quantas vezes um clube ganha o Brasileirão e diz que o maior reforço é a "manutenção da base"? No próximo ano, é justamente a manutenção de uma base arrumada às pressas o principal problema. Lembra do Fluminense de 2012, rápido e mortal nos contra-ataques no Brasileirão e incapaz de furar a retranca do Olimpia na Libertadores? A fórmula se esgota porque não há processo, visão de futuro, há apenas a iniciativa individual. O "vence e tá tudo certo". É o que faz um clube ir bem num ano e lutar contra rebaixamento no outro, ganhar uma Copa do Brasil e ser rebaixado. O futebol brasileiro flutua tal como o Palmeiras, que há cinco anos lutava para não cair.
Poucos clubes no Brasil são tão reféns do mito do “salvador da pátria” como o Palmeiras. Luxa chega para sua quinta passagem respaldado por um passado cada vez mais distante num clube novamente bagunçado desde a demissão de Mattos. Pode dar certo? Sim, mas soa como retrocesso. twitter.com/palmeiras/stat…
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No meio desse grave problema estrutural há um Vanderlei Luxemburgo
Amado e odiado. 23 títulos na carreira, 15 anos sem vencer algo relevante. Um dos maiores técnicos do futebol brasileiro e tido como "ultrapassado" em 2019. Luxemburgo é uma incoerência em si só. Durante anos a fio, ele chamou para si o discurso de que o futebol não tinha mudado e de que o Brasil era pentacampeão acima de tudo num delicado momento pós-7x1, onde se discutia onde o Brasil tinha ficado para trás. Esse discurso foi sustentado a partir de 2014, ano em que tirou o Flamengo da "zona de confusão". De lá pra cá, não conseguiu mais emendar bons trabalhos. As declarações públicas, em especial aquela no Bem, Amigos!, sobre o 4-1-4-1, que virou meme, ajudou a arruinar sua imagem pública.
Ainda assim, seu trabalho no Vasco foi bom. Não ótimo ou regular. Bom. O Vasco queria experiência para não sofrer com outro rebaixamento, dado o momento de penúria financeira, e Luxa conseguiu respaldo para implementar o que pensa sobre o jogo. Fez grandes partidas, como o 2 a 0 no São Paulo e especialmente o empate contra o Flamengo, por 4 a 4, no qual sua estratégia ficou muito evidente e fez um time igualar o duelo contra outro infinitamente melhor. Ganhou a simpatia de torcedores ao lembrar do passado vascaíno, se tornar sócio e ainda clamar pela reestruturação do clube e da importância da torcida nesse processo.
- Em detalhes, a estratégia de Luxemburgo para igualar o duelo tático com o Flamengo
- Uma aula de Luxemburgo sobre defender “à brasileira”, com encaixes por setor
Luxa pode dar certo no Palmeiras como pode dar errado. O elenco terá um nível que Luxa não encontrou em seus últimos trabalhos, com jogadores rápidos, que casam com seu estilo de futebol de velocidade, como Dudu, e meias de cadência e visão como Lucas Lima. Ao mesmo tempo, a pressão será imensa, a opinião da torcida se divide e o objetivo não será apenas resultado, mas também estética. A exigência agora é por um time que encante, jogue bonito e para frente. É um cenário muito diferente do cenário que Luxa encontrou no Vasco.
Esse nó só será desatado em campo, daqui há alguns meses. Não dá pra prever o futuro ou cravar o sucesso ou insucesso de Luxa - no fim, é assim com qualquer técnico, independente da nacionalidade, idade ou metodologia moderna que ele use. Todo mundo está sujeito às mesmas leis do futebol.
A estratégia do Vasco fez o Flamengo sair do conforto no 1º tempo de uma maneira ainda não vista. Parou a circulação de bola, explorou a linha alta de defesa e chegou aos gols.
Vanderlei Luxemburgo é um dos grandes técnicos brasileiros. Merece, acima de tudo e sempre, respeito.
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Mas o que fica de tudo isso é que o Palmeiras trocou Felipão por Mano, mirou em Sampaoli, ventilou Ramiréz e terminou com Luxa. Independente do sucesso ou não em 2020, é um claro sinal de amadorismo e retrocesso. As decisões do diretor de futebol Anderson Barros passarão pelo crivo de um comitê formado por....aliados do presidente Mauricio Galiotte. O clube segue sem um modelo de jogo que norteia o profissional ou a base. As contratações são feitas....a esmo. E Luxa, assim como seria com Sampaoli ou qualquer técnico no Palmeiras, é e será um salvador da pátria. Quando for demitido, o discurso de modernidade que Galiotte tanto quis um dia voltará, e as mudanças, assim como na época de Dom João VI, serão apenas para inglês ver. Vem outro salvador da pátria, e o ciclo jamais terminará. É assim no Palmeiras e em qualquer clube brasileiro.

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