segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Palmeiras e Luxemburgo, a eterna busca pelo salvador da pátria

Seja com Sampaoli ou Luxa, clube renega as mudanças que prometeu e cai em sua armadilha mais costumeira - o retorno de alguém com o status de salvar tudo.

15/12/2019 21h44 
Palmeiras e Luxemburgo, a eterna busca pelo salvador da pátria
foto: Marcos Ribolli
Em 1820, explode em Portugal a chamada "Revolução do Porto", uma união de elites econômicas e nobreza que exigia o retorno de Dom João VI à Portugal. Para eles, a volta significava estabelecer novamente o colonialismo que fez Portugal "rico e grande", mesmo que o restante da Europa caminhava para a industrialização e o fim da escravidão.
Transportada ao futebol, o salvador da pátria encontrará poucos espelhos tão fiés como o Palmeiras, que anunciou o retorno de Vanderlei Luxemburgo como técnico neste domingo (15).
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Vanderlei Luxemburgo é o novo técnico do Palmeiras
Antes de qualquer análise sobre Luxa é preciso entender o motivo do Palmeiras ter demitido Felipão e Mano Menezes num período de seis meses: insatisfação. Com o futebol exibido, com o aproveitamento de jogadores, com tudo. Ao ser dominado pelo Flamengo no Allianz Parque, Mauricio Galliote tomou uma decisão em parte política, em parte motivada pela neorivalidade entre os clubes. Citou, na coletiva, que o futebol tinha mudado e o clube buscaria se conectar com o que havia de mais novo e moderno, a começar pelo gramado sintético que será implementado.

O que não foi entendido é que essa busca não teria que começar no técnico. Teria que terminar nela. O que há de mais moderno no futebol, a exemplo de basicamente todo clube europeu, é uma gestão com uma ideia de jogo sólida no profissional e na base, que agrade o torcedor e reflita suas preferências estéticas e esteja dentro dos processos de contratações e saídas de jogadores. Tudo isso junto tem o nome de "modelo de jogo", e deve estar acima das pessoas. Acima do jogador, do técnico e do presidente - assim como o clube está acima deles.
O exemplo mais claro é o Barcelona. Entra e sai técnico, jogador chega e sai do clube e o jeito de jogar continua o mesmo. Muda uma coisa ou outra, mas a essência permanece a mesma. Qual clube brasileiro tem uma ideia clara de qual é sua essência de jogo e qual técnico chegará mais próximo de seguir ela?
A resposta é simples, nenhum, e é esse número que gera a síndrome do salvador da pátria. Sem processos estabelecidos e sem saber qual é sua essência, clubes brasileiros aprenderam que deveriam apostar na mobilização pessoal de alguém para vencer. Sem processos, apenas o trabalho pessoal poderia juntar o clube e promover a formação de um time campeão. É assim com todos, e o Palmeiras vem cada vez mais apostando nessa ideia. Em 2016, confiou a Cuca, que tinha saído como jogador em 1992 com a promessa de que voltaria campeão, a missão de ganhar o Brasileirão a todo custo. Em 2018, sem paciência com o naturalmente oscilante trabalho de Roger Machado, a urgência por vencer levou ao retorno de Luiz Felipe Scolari, que entregou o que lhe fora proposto: títulos.

Luiz Felipe Scolari, técnico do Palmeiras — Foto: Marcos RibolliLuiz Felipe Scolari, técnico do Palmeiras — Foto: Marcos Ribolli
Luiz Felipe Scolari, técnico do Palmeiras — Foto: Marcos Ribolli
Veja bem: não estamos avaliando pessoas. Cuca é um grande técnico. Assim como Felipão e Luxemburgo, os dois maiores vencedores do futebol brasileiro. Estamos avaliando a inserção desses seres humanos dentro do clube, o que eles podem entregar e a expectativa e os objetivos a qual elas são submetidas. Estamos avaliando trabalhos.
O problema do salvador da pátria não é o que ele conquista - título é título, e jamais um torcedor deixa de comemorar uma conquista porque o futebol não é legal. Também não é o estilo de jogo, que normalmente é aceito num curto prazo. A torcida do Palmeiras adorava o "Cucabol" e gostava bastante do estilo direto de Felipão. São ideias de jogo, e assim como pessoas, nenhuma está errada e todas devem ser respeitadas. O problema do salvador da pátria é que ele não deixa norte ou futuro aos clubes, alimentando um eterno ciclo que prejudica financeiramente os clubes até levá-los à falência. O salvador da pátria age na urgência e na falta de paciência. Ele chega, "arruma a casa" e "troca o pneu com o carro andando". Vence um título, salva o clube do rebaixamento ou coloca na Libertadores.
E depois?
Depois a fórmula se esgota como se esgotou com Cuca em 2017, que com um elenco diferente, tentou resgatar o mesmo jogo de marccação alta e intensidade sem ter jogadores para tal. Se esgota como Felipão nesse ano, que ao ver aquela marcação sufocante parar de dar certo, começou a ver o time sofrer gols e não ter recursos para se organizar ofensivamente. Não apenas com o Palmeiras - quantas vezes um clube ganha o Brasileirão e diz que o maior reforço é a "manutenção da base"? No próximo ano, é justamente a manutenção de uma base arrumada às pressas o principal problema. Lembra do Fluminense de 2012, rápido e mortal nos contra-ataques no Brasileirão e incapaz de furar a retranca do Olimpia na Libertadores? A fórmula se esgota porque não há processo, visão de futuro, há apenas a iniciativa individual. O "vence e tá tudo certo". É o que faz um clube ir bem num ano e lutar contra rebaixamento no outro, ganhar uma Copa do Brasil e ser rebaixado. O futebol brasileiro flutua tal como o Palmeiras, que há cinco anos lutava para não cair.

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