Dentre as muitas coisas de orgulho para o Flamengo, uma delas é o mapa de passes abaixo. O desenho dos 732 passes dados no jogo é aquele desenho de sempre, com o modelo já conhecido pela nação: Arão faz a saída de três, os laterais se projetam e o quarteto ofensivo se movimenta por dentro para receber a bola e chegar na área. Em nenhum momento o Fla abdicou de seu modelo. Quando teve a bola, se impôs e criou. Em muitos momentos, saía da pressão do Liverpool e acionava Bruno Henrique, que deu pelo menos três passes perigosos ao ataque.
Jogar o que sempre joga é uma escolha. Mas nenhuma escolha é completa. São Paulo e Inter fizeram a escolha de serem times mais defensivos e apostarem nos contra-ataques e ganharam. O Flamengo fez a escolha de manter seu modelo e perdeu. Não é a escolha que ganha ou perde, mas sim a execução do que um time se propõe a fazer em campo.
Uma delas é Henderson. Volante cada vez mais completo, foi dele o passe que conectou Mané para a projeção de Firmino no lance do gol. O passe é fantástico, mas o que torna brilhante é que ele faz esse passe duas vezes, sendo que na primeira vez ele está pressionado por Bruno Henrique, que diminui o ângulo e o espaço para tocar a bola.
O primeiro passe de Henderson no lance do gol: inteligência de jogo — Foto: Leonardo Miranda
Jogar em espaços curtos e tempos milimétricos é a diferença da Europa para o Brasil.
O Flamengo conseguiu fazer grandes jogos com adversários menos preparados, e com adversários mais duros teve algumas dificuldades quando não tinha espaço (River, Al-Hilal, Vasco e Santos). Gérson não foi bem nesses jogos, muitas vezes não saía dessa pressão. É justamente o que Henderson fez brilhantemente. É por isso que, dentre tantas coisas, o Liverpool ganhou.
Para onde o futebol vai? Reflexões no futebol pós-Bosman
Todo fim de ano é uma oportunidade para pensar a respeito do real desnível entre o futebol sul-americano e o futebol europeu. Os grandes trabalhos de Jorge Jesus e Sampaoli trouxeram esse debate para o âmbito dos técnicos, que nesse ano já teve pérolas como "O Real não ganharia a Série B" e "Bruno Henrique é do mesmo nível de Cristiano Ronaldo". São bravatas que nos afastam de entender que o desnível não está na qualidade individual, no trabalho dos técnicos ou em qualquer outra coisa que não seja o financeiro.
Com as premiações pelo Brasileiro, Libertadores e vice-Mundial, o Flamengo estima que chegará ao faturamento de R$ 850 milhões em 2019. É um valor recorde na história do futebol brasileiro, algo nunca visto antes. Numa sociedade capitalista (se é bom ou ruim é outro papo), dinheiro é tudo. Significa maior salário a jogadores, estrutura mais ampla de trabalho, contratação dos melhores técnicos e possibilidades logísticas que melhoram o jogo.
Todo esse esforço faz estrago no Brasil e na América Latina, mas na Europa elas apenas ajudam a igualar o jogo, mesmo na derrota.
O auge do Flamengo, hoje, corresponderia apenas ao 20º maior faturamento do mundo. É como se o Flamengo financeiramente fosse o Leicester, vice-colocado da Premier League que fez um jogo excelente contra o Liverpool - e saiu derrotado (aliás, jogo parecido com a final do Mundial). O faturamento dos Foxes é de R$ 816,27 milhões de reais, maior do que qualquer clube brasileiro já arrecadou na história.
Sul-americanos, quando estão no seu auge histórico, no máximo que podem chegar, conseguem equilibrar o jogo por uns momentos e nem coçam de competir financeiramente com o mais alto escalão europeu.
Essa injusta diferença de condições para trabalhar começa em 1995, quando europeus passam a não ter limite de jogadores estrangeiros em seus elencos e se organizaram financeiramente para tirar os melhores jogadores do futebol latino, que até então tinham qualidades parecidas e ganhavam o Mundial Interclubes como o São Paulo ganhou duas vezes.
No começo dessa era, quando não havia uma discrepância tão imensa, duas atuações de times brasileiros são realmente equilibradas, sem o fator financeiro: Vasco e Palmeiras. Foram melhores que Real Madrid e Manchester United e perderam por individualidades - o golaço de Raul e a falha de Marcos. Em 2005, o patamar financeiro já era parecido com o igual e a FIFA cria o Mundial Interclubes como um novo marco no futebol mundial. É o ano em que a Champions League passa a ser vista de outra maneira, como o maior campeonato do planeta. A vitória do Barcelona em 2006, o brilhante time de Guardiola e a piora do jogo na América Latina com a fuga dos craques globaliza o jogo e desequilibra totalmente a disputa.
Liverpool levanta a taça de campeão mundial de clubes — Foto: Getty Images
A boa notícia é que dá, sim, para equilibrar o jogo. E só há uma única coisa que irá ajudar o futebol brasileiro e latino a sair dessa neocondição de histórica: planejamento. Seja ele por tempo ou por dinheiro. Em 2012, o Corinthians escolheu o tempo como fator: a manutenção de uma mesma ideia de jogo desenvolve jogadores, estabelece novas estratégias ao técnico e investimentos pontuais reforçam a equipe. Foi assim que o Timão montou seu time, com revelações do Bragantino, jogadores de mercados menores e a chegada de Guerrero.
Títulos Mundiais de Seleções antes de Bosman: América Latina 8-7 Europa
Títulos Mundiais de Seleções depois de Bosman: América Latina 1-5 Europa
A escolha do Flamengo é a do dinheiro: reajuste fiscal e de investimento entre 2013 e 2016 para gerar novas receitas e permitir a montagem de um grupo forte. Jorge Jesus ganha cerca de 300 mil euros por mês, maior salário pago a um técnico na América Latina. O clube tem a maior folha salarial do mundo e contratou dois jogadores de Seleção Brasileira, além de um zagueiro de nível europeu e do melhor jogador da terceira folha do país, o Cruzeiro. Não é só apenas técnico, só jogador ou só dinheiro: é a combinação de tudo que faz a diferença.
O Flamengo sai maior de Doha. E o futebol brasileiro e latino-americano precisa aprender a deixar o grandioso passado que permitia abrir 3 a 0 em 35 minutos de jogo como em 1981. Isso não existe mais. Para jogar pau a pau hoje é preciso de muito mais do que um técnico estrangeiro ou um grande craque, é preciso de gestão, modernidade, planejamento e racionalidade no que se quer fazer. Como o Flamengo faz na sua gestão administrativa (não de futebol) desde 2013.
0 comments:
Postar um comentário