Jogar mal e vencer é sinônimo de força, não de falta de repertório
Manchester City e Liverpool mostram que são os melhores times do mundo porque conseguem achar recursos para chegar ao resultado mesmo quando não estão bem.
03/11/2019 23h30
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foto: Reuters / Jason Cairnduff
Durante os 41 minutos no qual teve a posse para si, o Manchester City alçou um total de 62 bolas para a área. Ao mesmo tempo em Birmingham, o Liverpool chegava ao número de 40 cruzamentos em 33 minutos de posse. Números precisam de contexto, e aqui eles mostram que Liverpool e City não jogaram bem...e venceram. Nada parece fazer crer que essa Premier League será diferente da outra, na qual o título foi decidido num mata-mata entre os dois.
Jogar uma média de uma bola por minuto na área parece falta de recurso para dois times tão acostumados a serem dominantes. Só que os adversários estão cada vez mais estudiosos para jogar contra os dois. Saber identificar o ponto forte e preparar algo para neutralizar aumenta exponencialmente as chances de tentar algo contra um grande - foi exatamente isso que aconteceu em Manchester e Birmigham.
A dificuldade para o City veio em forma de uma linha de cinco. O ponto forte do time é a largura que os pontas dão ao time. Eles têm a missão de se isolarem do jogo, ficarem sempre abertos e não pegarem na bola quando o time está construindo a jogada. Quando recebem a bola é para que a jogada termine com a bola dentro da área, seja num cruzamento rasteiro ou na iniciativa individual dos dois, como Sterling, cada vez mais driblador.
Bernardo Silva não teve espaço para receber a bola — Foto: Leonardo Miranda
O Southampton tirou esse forte quando passou a marcar os dois pontas, seja com o ala ou com os atacantes vindo tirar o espaço. Na imagem, o único que exerce uma marcação individual é Ings. O resto do time ocupa espaços numa espécie de jaula dentro da área, tirando não apenas o espaço de Bernardo Silva, mas também a possibilidade de alguém converter um cruzamento rasteiro feito ali.
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Defesa do Southampton fechou espaços na área e pelo lado — Foto: Leonardo Miranda
Já o Liverpool tem como ponto forte a mobilidade pelo centro. O trio de ataque sempre gira em torno da bola. Se um recua a recebe a bola, alguém se aproxima e alguém se coloca mais próximo ao gol. Essa constante mobilidade tem Wijnaldum e Henderson, um grande infiltrador, como ponto forte. É muito difícil parar o Liverpool quando rodam a bola por dentro. Por isso a estratégia do Aston Villa foi cuidadosamente cercar essas movimentações. O triângulo que o ataque formava era marcado de perto. Se Firmino recuava, a marcação acompanhava. Se buscasse a bola, entrava no setor de alguém que também o acompanhava - veja na imagem.
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Liverpool teve dificuldades para jogar — Foto: Leonardo Miranda
Não foi a primeira vez que City e Liverpool enfrentaram argumentos táticos preparados especialmente para eles. Das outras vezes, conseguiram controlar o jogo e vencer com relativa paciência. Aqui, além de terem cometidos erros coletivos nos dois gols que sofreram, foram ineficientes com a bola. Apenas 7 das 22 conclusões a gol do Liverpool foram no alvo. No City a taxa foi ainda mais baixa - de 24 conclusões, só cinco atingiram seu objetivo: a meta adversária. Há dias que não há vontade de sair da cama ou o trabalho não rende, assim como há dias em que uma equipe não consegue fluir como conjunto.
Soluções como força mental, resiliência e confiança deveriam ser tão ou mais valorizadas que uma boa trama de passes.
Nesses dias, é preciso ter outras soluções além do trabalho coletivo e do próprio talento. Alexander-Arnold e Robertson são capazes de realizar cruzamentos com força e colocação precisas. O time procura os dois quando as coisas não vão bem porque são conscientes de suas qualidades e fraquezas e resilientes o suficiente para buscarem forças para atingir o objetivo final. Os dois foram protagonistas dos gols da virada. Já o City treina seus cruzamentos rasteiros de várias formas: pelos lados, com bola longa do goleiro, com e sem Aguero. É um time que insiste porque é consciente da força de seu jogo. Não é acaso que os dois gols foram produtos dos mesmos cruzamentos rasteiros que não estavam dando certo.
Soluções como força mental, resiliência e confiança deveriam ser tão ou mais valorizadas que uma boa trama de passes. Porque elas são indícios de que o time chegou a uma maturidade muito rara e que normalmente só vem com o tempo de treino e de permanência de grupo. Jogar mal e vencer foi o que o Manchester United de Ferguson fez tantas e tantas vezes porque controlava o jogo e sabia exatamente quando colocar mais força para chegar ao resultado.
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Robertson marca, Aston Villa x Liverpool — Foto: Reuters/Craig Brough
Um erro comum de avaliação é apontar esses dias em que nada dá certo como alertas. "O time não é tão bom assim" ou "ter que acordar pra ser campeão" são algumas das frases ouvidas. Esse pensamento é sedutor porque ele lida com expectativa, e expectativa é pessoal e subjetiva. Espera-se que uma equipe sempre jogue bem se ela tem talento, recursos e tudo em dia. Se não joga e vence, isso é usado para diminuir os diversos méritos que aquele time teve. Perceba como esse discurso está presente no Palmeiras de Mano Menezes, depois da jornada ruim contra o Ceará, ou alimentou o pessimismo de muitos flamenguistas após o empate contra o Goiás.
Nem sempre uma má atuação é um sinal de alerta. Na maioria das vezes, é só um dia ruim.
Nós também somos assim, e nem sempre estamos prontos para atender as enormes expectativas que a sociedade nutre sobre nós. Dias cinzentos não invalidam obrigações. Podemos não estar bem, mas a louça sempre irá brotar do nada para ser lavada. Não é preciso se sentir disposto, motivado ou feliz para cumprir tarefas - é preciso ser consciente das consequências de não cumprir com o dever, assim como é preciso que um time vença em seus dias ruins. É preciso regular expectativas para saber diferenciar um dia ruim de uma depressão, ou uma atuação apenas correta de um indício de queda de desempenho. Afinal o jogo acontece em campo, não em nossa cabeça.
Jornalista, formado em análise de desempenho pela CBF e especialista em tática e estudo do futebol
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