Como o Liverpool transformou o improvável em inacreditável em noite definidora do que é o futebol
Muita intensidade, quatro gols e atuações perfeitas levam a equipe de Jurgen Klopp para a final e ganha corações mundo afora
Por Leonardo Miranda
08/05/2019 08h25
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foto: Getty Images
Há momentos tão únicos que são capazes de resumir, sem muitos meandros, a experiência humana. O primeiro beijo. O "sim" no altar. A primeira vez do filho no colo. São omentos definidores dessa coisa tão única que é viver. Jurgen Klopp, Alexander-Arnold, Origi, Wijnaldum e cia acrescentam um outro momento nesta lista. Porque o que aconteceu em Liverpool é um resumo completo dessa fantasia que é o futebol.
Todos os ingredientes necessários para algo ser histórico estiverem no duelo. Teve superação, ao jogar sem as estrelas Salah e Firmino. Os gols tiveram timing impressionante: um no início, para fazer o impossível parecer mais crível, e dois matadores antes dos 55 minutos. Teve perigo, porque qualquer adversário com Messi inspira preocupação. Teve malandragem, como o escanteio de Arnold. Teve festa e torcida.
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Liverpool x Barcelona — Foto: Phil Noble/Reuters
Teve futebol. Foi uma noite definidora também de como o jogo é feito na cabeça dos técnicos, jogadores e nos treinos diários, ou seja, da lógica do jogo. Um time busca maximizar suas qualidades e minimizar seus defeitos para vencer. Para isso, é preciso ter um plano, uma estratégia, que busca o equilíbrio entre duas forças: com a bola, agride e abre espaços. Sem ela, neutraliza e fecha seu gol.
Assim que a bola rolou, o jogo se desenhou de forma clara em Liverpool:
- Se a construção do Barcelona começa por Busquets, ele não poderia ter espaço e tempo pra jogar
- Alba é o lateral que mais sai, e muitas vezes deixa espaços. Dava pra aproveitar.
- Fabinho é forte na bola aérea. Ele poderia ganhar a segunda bola e lidar rápido ao ataque.
- Um gol cedo pode meter medo no Barcelona e dar mais espaço pro Liverpool
- O Liverpool se preocupou em não deixar Busquets tocar rápido para o pelotão de frente. No 4-3-3 de Klopp, os pontas são muito mais segundos atacantes, centralizados e próximos ao gol. Têm papel fundamental sem a posse de bola, ao pressionar, sufocar e incomodar ao máximo os zagueiros. Essa intensidade defensiva gerou problemas ao Barcelona nos 15 primeiros minutos e teve a ajuda do meio-campo. Busquets mal recebia a bola e Milner e Henderson saíam lá de trás e corriam, que nem loucos, para tirar o tempo do catalão.
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- Liverpool pressionando saída do Barcelona com cinco jogadores — Foto: Leonardo Miranda
- Tudo o que acontece em campo é conectado. Defesa, ataque, individual e coletivo...ao pressionar tanto a bola, o Liverpool corria riscos ao deixar Messi mais solto, mas também proporcionava chances de recuperar a posse perto do gol de Ter Stegen. Na jogada do primeiro gol, Alba corta mal uma bola e Mané estava perto o suficiente para retomar e acelerar ao gol. De novo, o meio-campo foi decisivo: Henderson foi mais rápido que Busquets ao infiltrar no espaço vazio, atraindo a atenção de Lenglet e Piqué. Origi fica livre para aproveitar o rebote e chegar ao gol rápido, o que era fundamental para os planos do Liverpool.
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- Erros coletivos e infiltração de Henderson no gol — Foto: Leonardo Miranda
- Esse ritmo não iria durar o jogo inteiro. Após os 15 minutos, Vidal teve papel fundamental ao dar mais peso nos desarmes para o Barça e equilibrar a disputa no meio-campo. O Liverpool precisou ter consistência defensiva, e para isso contou com Fabinho. Atuação de manual ao retirar de Messi espaços entre o meio e a defesa, a chamada entrelinha, onde o argentino costuma desequilibrar. Também foi fundamental ao dar condições para que Matip e Van Dijk estivessem próximos ao gol, como uma espécie de "último recurso" de intervenção defensiva.
Padrão, repetição e coração
Todo plano de jogo, com maior ou menor complexidade, precisa ser "comprado" pelos jogadores.É um equívoco muito grande pensar que só "coração" ou só "organização" ganham jogos. O futebol sempre foi a alternância e combinação entre os dois. São tão interligados que não é possível nem definir um percentual de participação, dado o caráter intrínseco que cada fator tem no jogo, seja o emocional, tático, técnico ou físico.Os dois gols de empate do Liverpool são exemplos claros dessa dinâmica. Desde o início da temporada, Klopp reformou o time para controlar mais a bola e atacar de forma posicionada e agressiva. No terço final do campo, ou seja, no ataque, a equipe joga no modo "paredão": o time força passes até a bola chegar a um dos lados. Quando isso acontece, o lateral do lado oposto, os dois volantes e os atacantes fazem esse cinturão e preenchem a área de ponta a ponta, chegando de frente para o gol, nas costas dos zagueiros. A imagem abaixo, que não deu em nada, é um exemplo. /i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_bc8228b6673f488aa253bbcb03c80ec5/internal_photos/bs/2019/7/l/oZGSw1R9KEXpAFgxx8Ng/padrao.jpg)
- Ataque do Liverpool ao estilo "paredão de quatro" — Foto: Leonardo Miranda
- Muitas vezes olhamos apenas para a jogada do gol. Mas como ela foi construída? Qual o processo pelo qual um time conseguiu finalizar dento da rede?Veja a semelhança das imagens. Abaixo, a jogada se desenha por um lado e quatro jogadores se espalham na área. Eles estão longe um dos outros. Eles não estão na cola dos zagueiros. O lateral do lado oposto está por dentro. A cada chegada, o Liverpool tem ao menos quatro opções de finalização. Para dar certo, o jogador precisa acreditar que essa estrutura irá lhe proporcionar o protagonismo tão caro à jogadores e também as condições para que ele ajude o time.
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- terceiro gol do Liverpool. Observe quantos jogadores estão na área. — Foto: Leonardo Miranda
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Nada disso aconteceria se o outro lado não estivesse fragilizado. Futebol é jogo de oposição. Sempre há outro lado, e o Barcelona teve momentos bons na partida e falhou ao chegar ao gol. Houve um decréscimo de confiança, como o abalo após o 3 a 0 do Liverpool mostrou. É o aspecto mental modificando a estrutura, impedindo caras tão humanos como você de executar o plano e tomar decisões racionais e vantajosas para si e para o time.
O Liverpool seguiu acreditando e se esforçando. Wijnaldum fez o mesmo que Henderson: correu num espaço vazio antes mesmo de receber a bola. Em pelo menos três, a área estava preenchida com gente do Liverpool. Em várias ocasiões, Fabinho pressionou Messi e evitou que ele ficasse livre ao gol.
A virada mostrou uma equipe coletivamente tão unida que os movimentos parecem intuitivos, de tão entendidos e repetidos pelos jogadores. É como a respiração ou o batimento do coração.
Será difícil o que aconteceu em Anfield se repetir na história. Porque, por ao menos 90 minutos, Jurgen Klopp nos mostrou o que faz o futebol não ser apenas futebol para milhões de torcedores e simpatizantes do Liverpool.
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