Uma das ideias do ataque posicional é que, quando o ponta receba a bola, o time todo "pise a área". Ou seja, vá para dentro da região de influência do goleiro e fique esperando o passe. Se a bola vier pelo alto, o centroavante está ali. Se vier pelo lado, muitos jogadores estão bem postado para, num pequeno passo, concluir a bola. Veja o camisa 11 do Bayern: ele começa lá ponta, mas se a bola está perto do gol, ele faz esse movimento de ir para a área.
Veja como tudo tem um motivo no ataque posicional: o ponta fica no lado para puxar o adversário para trás. O lateral fica por dentro para receber do zagueiro e articular a jogada. Quando a bola está do lado oposto, o lateral sai do lado e procura a área para finalizar. Tudo pensado milimetricamente para facilitar a ação do jogador, seus instintos, seus passes. Veja também como o passe é a conexão entre os dois. Se Douglas não recebe a bola, a responsabilidade é dele que não se colocou bem e de Lahm, que também não estava no lugar certo. Um jogo de conexões espaciais.
O Brasil do segundo tempo lidou com esses dois preceitos do ataque posicional: primeiro, empurrou a Costa Rica ainda mais para a defesa com Neymar e Douglas Costa bem perto da linha de fundo. Depois, deu a Marcelo, Casemiro e Fagner toda a liberdade para construir, articular, receber da zaga e tocar para Coutinho e Paulinho, que foram os meias na chamada "entrelinha" do adversário. A imagem deixa claro como o Brasil abriu o campo, e a bola chegava a Neymar já pronta para ele driblar.
Ataque posicional do Brasil no segundo tempo (Foto: Leonardo Miranda)
O ataque posicional do Brasil foi tão inteligente que não se resumiu apenas à Neymar e Douglas pelos lados. Tite deu liberdade para Marcelo e Neymar trocarem. Afinal, sabia que o camisa 10 seria o centro de atenções de marcações. Se ele ficasse por dentro, poderia puxar marcadores e dar espaço para Coutinho infiltrar. Veja como o ataque posicional é uma ideia rígida, mas que sse adapta à perspicácia e característica dos jogadores.
Ataque posicional do Brasil (Foto: Leonardo Miranda)
Sabe como saiu o gol salvador de Coutinho? Puro ataque posicional. O camisa 11 recebe a bola e toca em Marcelo, que fez o movimento de troca com Neymar pelo lado. Lembre-se: o objetivo era que Neymar atraísse marcadores e deixasse espaço para alguma infiltração. Lá estava Douglas Costa, posicionado, e Jesus e Firmino dentro da área. Marcelo recebe, levanta a cabeça e faz o cruzamento....
Gol do Brasil (Foto: Leonardo Miranda)
E o falado em cima acontece EXATAMENTE: Neymar atraiu dois costa-riquenhos, Firmino e Jesus mais três. Isso quebrou a linha de 5, e adivinha quem vê um espaço muito bem aberto? Ele, Coutinho, que foi buscar a bola lá na defesa, jogou para os pontas bem posicionados e foi buscar fazer aquele movimento de "pisar a área". Um gol puramente dessa ideia.
Gol do Brasil (Foto: Leonardo Miranda)
Se você chegou até aqui, suba para cima e releie. Ao menos reflita. Veja a riqueza de informações que simples segundos podem nos dar no futebol. Não é muito mais inteligente discutir isso que a falta e o choro de Neymar? Esse mesmo lance fez torcedor brasileiro passar da euforia à depressão em um segundo. E na busca por culpados, recai em Neymar a responsabilidade de resolver problemas. Ele mesmo que, no lance, participou diretamente do gol com a bola longe de seus pés, só com seu corpo, bem postado.
Porque futebol não é como a pelada da rua. E já não é faz umas boas décadas, antes que o saudosismo venha dizer o oposto. Pensá-lo e cobrar da seleção com a mente na pelada é gerar uma pressão desumana sob seres humanos que estão doando o máximo deles. Virar uma matraca ranzinza porque o Neymar chorou depois do jogo é ignorar essas nuances, mas também depositar no psicológico dele um desempenho que tem como origem apenas o que ele já faz em campo.
O Brasil é um país pobre. Cheio de problemas. Talvez o país do futuro - que ainda não veio. Seu bem mais precioso é isso aqui, o futebol. Por que você não o valoriza, não o joga para frente, não apoia incondicionalmente? Talvez porque, lá no fundo, gostamos mais de vencer para aplacar essa insegurança latente que de fato futebol...
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