domingo, 24 de junho de 2018

Ataque posicional: entenda a ideia que Tite resgatou de Guardiola para vencer a Costa Rica

Com a entrada de Douglas Costa, Brasil atacou de forma diferente e muito inspirada pelas ideias de Pep Guardiola noa Bayern de 2015

Ataque posicional: entenda a ideia que Tite resgatou de Guardiola para vencer a Costa Rica
Infoesporte
Por Leonardo Miranda
companhe a cobertura completa da Copa do Mundo no Twitter @leoffmiranda e no Facebook do Painel Tático
Agosto de 2015. Só havia um assunto para quem ama futebol: o sonho de Pep Guardiola em treinar a seleção brasileira. Bomba desmetida pelo próprio, meses depois. Segundo o próprio catalão, o futebol brasileiro sempre fora uma inspiração, uma meta estética, mas nunca uma influência no estilo do Barcelona. O debate sobre o 7x1 era incipiente, e os técnicos brasileiros ainda levavam a culpa. Pep deu o recado - "a seleção tinha que ser treinada por um brasileiro". E ainda deixou uma dica:
Extremas! O Brasil precisa voltar a jogar com pontas! Douglas Costa é um jogador extraordinário. O Brasil sempre teve grandes extremas e voltará a triunfar quando volta a jogar com extremas”
Junho de 2018. O Brasil encara uma das maiores retrancas de sua história em Copas. E decepciona. O primeiro tempo, incipiente na tarefa de deixar Neymar confortável, foi péssimo. Tite começa a se coçar. Paulinho mal jogou. Jesus sequer pegou na bola. Neymar não está 100%. O que fazer para furar a retranca? O Brasil que fez grande segundo tempo - uma aula, segundo Tite, usou da mesma ideia de Guardiola. Douglas Costa e Neymar foram os extremas. E o Brasil voltou a triunfar em Copas do Mundo.
A ideia é chamada de ataque posicional. Nascida na década de 1920, com a criação do 2-3-5, essa forma de jogar tem como objetivo ocupar espaços ao invés de puramente tocar a bola. É você ir para uma região de campo e ficar lá, mesmo se a bola estiver em outro lugar. O time cria um desenho geométrico no campo do adversário. Assim, quem tem a bola sempre vê um companheiro bem localizado para tocar, e o time joga mais confiante - quem carrega sabe que terá ao menos uma opção para não ficar solitário.
No Bayern treinado por Pep em 2015, o ataque posicional não era novidade. A grande sacada do técnico foi "inverter" o lado de pontas e laterais. Ao ver que Alaba e Lahm eram inteligentes para jogar por dentro e Robben e Ribery tinham grande drible e poder de deixar marcadores para trás, ele posicionou os pontas bem abertos - o que chama de extremas. Por dentro, os dois laterais viraram construtores: recebiam dos zagueiros e ditavam o ritmo: toca pra trás? Pra frente? Ou jogar para os extremas partirem pro embate individual?
Ataque posicional do Bayern de Munique em 2015 (Foto: Leonardo Miranda)
Ataque posicional do Bayern de Munique em 2015 (Foto: Leonardo Miranda)
Por ligar com a ocupação de espaços, o ataque posicional é também uma forma de jogar no campo do adversário. Esteticamente, chamamos de tiki-taka qualquer equipe que fica trocando passes lá atrás. O ataque posicional manda logo os pontas para o lado, perto da linha de fundo. É um jogo de ação e reação: se seu adversário está no seu campo, logo você precisa recuar para marcá-lo. Afinal, imagine ele recebendo a bola livre, o estrago que poderia fazer...veja como o futebol é mental, e a tática explica essas nuances pequenas e tão importantes do jogo.
Uma das ideias do ataque posicional é que, quando o ponta receba a bola, o time todo "pise a área". Ou seja, vá para dentro da região de influência do goleiro e fique esperando o passe. Se a bola vier pelo alto, o centroavante está ali. Se vier pelo lado, muitos jogadores estão bem postado para, num pequeno passo, concluir a bola. Veja o camisa 11 do Bayern: ele começa lá ponta, mas se a bola está perto do gol, ele faz esse movimento de ir para a área.
Alaba na bola e Douglas Costa pelo lado (Foto: Leonardo Miranda)
Alaba na bola e Douglas Costa pelo lado (Foto: Leonardo Miranda)
Veja como tudo tem um motivo no ataque posicional: o ponta fica no lado para puxar o adversário para trás. O lateral fica por dentro para receber do zagueiro e articular a jogada. Quando a bola está do lado oposto, o lateral sai do lado e procura a área para finalizar. Tudo pensado milimetricamente para facilitar a ação do jogador, seus instintos, seus passes. Veja também como o passe é a conexão entre os dois. Se Douglas não recebe a bola, a responsabilidade é dele que não se colocou bem e de Lahm, que também não estava no lugar certo. Um jogo de conexões espaciais.
O Brasil do segundo tempo lidou com esses dois preceitos do ataque posicional: primeiro, empurrou a Costa Rica ainda mais para a defesa com Neymar e Douglas Costa bem perto da linha de fundo. Depois, deu a Marcelo, Casemiro e Fagner toda a liberdade para construir, articular, receber da zaga e tocar para Coutinho e Paulinho, que foram os meias na chamada "entrelinha" do adversário. A imagem deixa claro como o Brasil abriu o campo, e a bola chegava a Neymar já pronta para ele driblar.
Ataque posicional do Brasil no segundo tempo (Foto: Leonardo Miranda)
Ataque posicional do Brasil no segundo tempo (Foto: Leonardo Miranda)
O ataque posicional do Brasil foi tão inteligente que não se resumiu apenas à Neymar e Douglas pelos lados. Tite deu liberdade para Marcelo e Neymar trocarem. Afinal, sabia que o camisa 10 seria o centro de atenções de marcações. Se ele ficasse por dentro, poderia puxar marcadores e dar espaço para Coutinho infiltrar. Veja como o ataque posicional é uma ideia rígida, mas que sse adapta à perspicácia e característica dos jogadores.
Ataque posicional do Brasil (Foto: Leonardo Miranda)
Ataque posicional do Brasil (Foto: Leonardo Miranda)
Sabe como saiu o gol salvador de Coutinho? Puro ataque posicional. O camisa 11 recebe a bola e toca em Marcelo, que fez o movimento de troca com Neymar pelo lado. Lembre-se: o objetivo era que Neymar atraísse marcadores e deixasse espaço para alguma infiltração. Lá estava Douglas Costa, posicionado, e Jesus e Firmino dentro da área. Marcelo recebe, levanta a cabeça e faz o cruzamento....
Gol do Brasil  (Foto: Leonardo Miranda)
Gol do Brasil (Foto: Leonardo Miranda)
E o falado em cima acontece EXATAMENTE: Neymar atraiu dois costa-riquenhos, Firmino e Jesus mais três. Isso quebrou a linha de 5, e adivinha quem vê um espaço muito bem aberto? Ele, Coutinho, que foi buscar a bola lá na defesa, jogou para os pontas bem posicionados e foi buscar fazer aquele movimento de "pisar a área". Um gol puramente dessa ideia.
Gol do Brasil  (Foto: Leonardo Miranda)
Gol do Brasil (Foto: Leonardo Miranda)
Se você chegou até aqui, suba para cima e releie. Ao menos reflita. Veja a riqueza de informações que simples segundos podem nos dar no futebol. Não é muito mais inteligente discutir isso que a falta e o choro de Neymar? Esse mesmo lance fez torcedor brasileiro passar da euforia à depressão em um segundo. E na busca por culpados, recai em Neymar a responsabilidade de resolver problemas. Ele mesmo que, no lance, participou diretamente do gol com a bola longe de seus pés, só com seu corpo, bem postado.
Porque futebol não é como a pelada da rua. E já não é faz umas boas décadas, antes que o saudosismo venha dizer o oposto. Pensá-lo e cobrar da seleção com a mente na pelada é gerar uma pressão desumana sob seres humanos que estão doando o máximo deles. Virar uma matraca ranzinza porque o Neymar chorou depois do jogo é ignorar essas nuances, mas também depositar no psicológico dele um desempenho que tem como origem apenas o que ele já faz em campo.
O Brasil é um país pobre. Cheio de problemas. Talvez o país do futuro - que ainda não veio. Seu bem mais precioso é isso aqui, o futebol. Por que você não o valoriza, não o joga para frente, não apoia incondicionalmente? Talvez porque, lá no fundo, gostamos mais de vencer para aplacar essa insegurança latente que de fato futebol...
Acompanhe a cobertura completa da Copa do Mundo no Twitter @leoffmiranda e no Facebook do Painel Tático
https://globoesporte.globo.com/blogs/painel-tatico/post/2018/06/23/ataque-posicional-entenda-a-ideia-que-tite-resgatou-de-guardiola-para-vencer-a-costa-rica.ghtml

0 comments:

Postar um comentário

WALDEMIR VIDAL SANTOS DRT-BA 4.260 - ABCD-BA 544

Tecnologia do Blogger.

Capim, do Águia Clube | Eneas Brito, da Liga Desportiva de Jequié - Falando de Esportes - 29/04/26