Não é final do Mundial
Se perder, a Espanha, pelo que joga e jogou durante os últimos anos,
continuará superior ao Brasil. Não se mudam os conceitos por causa de um jogo. O
Brasil, mesmo se for derrotado, já mostrou que, em casa, é forte candidato ao
título mundial.
Em uma decisão, é impossível prever o comportamento emocional dos jogadores.
A maioria fica mais tensa. A ansiedade, até certos limites, é benéfica. O corpo
aumenta a produção de algumas substâncias químicas, e o jogador fica mais
atento, esperto e com mais força física. É o doping fisiológico.
Se a ansiedade for muito intensa, o atleta fica mais agressivo, tem mais
pressa de chegar ao gol, a bola bate na canela, além de perder a capacidade de
antever o lance e de perceber, em uma fração de segundos, a movimentação dos
companheiros e adversários. Quem joga em casa corre um pouco mais de risco de
ficar mais tenso.
O Brasil tem boas chances de vencer porque possui ótimos zagueiros,
especialmente Thiago Silva, e a Espanha não tem um grande atacante.
Os excepcionais armadores espanhóis não se destacam também pelas
finalizações, além de entrarem pouco na área, com exceção de Fàbregas, que
talvez não jogue. Dificilmente, o time espanhol fará mais de um gol.
O Brasil tem boas chances de vencer porque a Espanha marca mais à frente e,
se o time brasileiro desarmar, com frequência, no meio-campo, os velozes Neymar,
Oscar e Hulk terão mais espaços nos contra-ataques. A Itália fez isso bem,
contra a Espanha, e criou várias chances de gols.
O Brasil tem boas chances de vencer porque a Espanha não tem meias, pelos
lados, que protegem os laterais. Daniel Alves e Marcelo terão espaço para
avançar e fazer duplas, pelas laterais, com Hulk, Oscar e Neymar.
O Brasil tem boas chances de vencer porque a Espanha está muito desgastada,
pelo calor, pelo jogo na quinta-feira e pela prorrogação.
O Brasil tem usado bem a vantagem de atuar em casa, está com mais gana e se
preparou para a competição, com muita seriedade, pela responsabilidade diante da
torcida e porque quer recuperar o prestígio.
A Espanha possui também muitas chances de vencer porque é melhor, mais
experiente, sofre poucos gols, tem ótimos zagueiros e goleiro, excepcionais
armadores, um lateral, Jordi Alba, que avança muito bem.
A Espanha costuma comandar a partida, ficar com a bola, paralisar o
adversário, até alguém penetrar para receber e fazer o gol. Felipão, para tentar
equilibrar o meio-campo, tem a opção de escalar Hernanes, no lugar de Hulk ou de
Oscar.
É um jogo muito esperado, uma decisão, mas não é final de Copa do Mundo nem
motivo para comemorações nas ruas, no Brasil e na Espanha.
Tostão, médico e ex-jogador, é um dos heróis da conquista da Copa do
Mundo de 1970. Afastou-se dos campos devido ao agravamento de um problema de
descolamento da retina. Como comentarista esportivo, colaborou com a TV
Bandeirantes e com a ESPN Brasil. Escreve às quartas e domingos na versão
impressa de "Esporte".