quarta-feira, 27 de junho de 2018

Kroos e o futebol moderno "até demais" da Alemanha

Alemanha parece jogar consciente das retrancas que virão, mas só encontra a vitória no talento de Kroos

Kroos e o futebol moderno
Getty Images
Por Leonardo Miranda
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A dificuldade dos grandes nesta Copa é vidente. Na segunda rodada, os gols de bola parada diminuíram, houve viradas e goleadas - de Bélgica e Inglaterra. Mas os grandes campeões continua devendo futebol. A Alemanha segue viva após cobrança de falta fantástica de Toni Kroos que selou a vitória contra a Suécia, mas seu futebol parece estar um passo acima do que é praticado hoje. Uma espécie de "pós-modernidade" no jogo. Talvez uns passos acima para alcançar o penta.
Nunca os pequenos estiveram tão bem preparados. Fisicamente, conseguem correr um jogo todo sem cansar. Taticamente, pensam na negação de espaços. Mentalmente, jogam mais confiantes. É um sintoma do intercâmbio de conhecimento e da internet, que proliferou análises e novas formas de pensar. No jogo, o reflexo é uma Copa permeada pelas defesas de handebol e dos ataques de basquete, como você leu aqui.
A Alemanha parece ter adivinhado isso. Já ciente da retranca, seus atacantes e meias se concentram praticamente na linha defensiva do rival. Procuram o máximo de profundidade - o quanto um time está perto do gol - e ficam de costas. Buscam a ruptura - quando vencem fisicamente o marcador - e os cruzamentos, já que Hector e Kimmich, os laterais, ficam bem abertos no campo. Veja a imagem: são 6 jogadores praticamente nos metros finais de campo. A escolha por ocupar espaços assim também gera uma imposição mental e dá espaço para que os zagueiros Hummels (ou Rudiger, que jogou) e Boateng sejam os verdadeiros articuladores, com Kroos e Rudy auxiliando no papel de pensar jogadas.
Alemanha contra a retranca da Suécia (Foto: Leonardo Miranda)
Alemanha contra a retranca da Suécia (Foto: Leonardo Miranda)
Fica assim: Draxler, Werner, Reus e Muller concentrados na linha de defesa do rival, que tem 4 jogadores. Isso cria uma situação de igualdade numérica (são 4 adversários contra 4 alemães). Quando a bola chega aos laterais, bem postados pelo lado, o lateral do lado oposto faz o movimento de entrar dentro da área. Aí cria-se uma condição de superioridade numérica DENTRO DA ÁREA, como na imagem. É como se a Alemanha atacasse a linha de handebol o tempo todo.
Ataque da Alemanha (Foto: Leonardo Miranda)
Ataque da Alemanha (Foto: Leonardo Miranda)
O que torna o futebol da Alemanha "moderno demais" é a solidão que o meio-campo tem. Neuer começa as jogadas, Boateng e Rudiger recebem e eles avançam até praticamente a intermediária. E aí começa o jogo de ação e reação que é o futebol: quando a equipe avança tanto, cria espaço para o contra-ataque, ou aumentam as dificuldades dos zagueiros e de Kroos cobrirem uma boa parte de campo. Essa dificuldade foi muito exibida no gol da Suécia, que lidou com os problemas de transição defensiva dos alemães.
O momento abaixo mostra o exato momento que a Suécia recupera a bola que deu origem ao gol. Observe atentamente a posição corporal dos jogadores. Veja como os suecos viram o corpo e começam a correr para frente antes mesmo do cara que tá com a bola decidir o que fazer. Agora veja Rudiger e Kroos, no canto esquerdo. Olha como eles ainda não perceberam que este seria um contra-ataque mortal.
Origem do gol da Suécia (Foto: Leonardo Miranda)
Origem do gol da Suécia (Foto: Leonardo Miranda)
O lance se desenrola e Kroos toma a decisão de cobrir Rudiger, já que Hector estava TÃO AVANÇADO que não conseguiria alcançar. Mas o zagueiro atrasa o movimento e cruza, na medida, para o centroavante sueco, que joga o corpo na frente de Kroos e o tira do lance. Veja como o futebol é feito de pequenos detalhes, e de TOMADAS DE DECISÕES que precisam ser exatas num espaço milimétrico de tempo. Isso é desempenho. Isso não é caráter.
Gol da Suécia (Foto: Leonardo Miranda)
Gol da Suécia (Foto: Leonardo Miranda)
O futebol da Alemanha quer ser ofensivo e quer atacar o tempo todo. Por isso, se concentra todo na frente, mas esquece do passe. Porque o passe é uma conexão entre dois jogadores. O passe bem feito é de responsabilidade de quem o faz e de quem o recebe. Se deslocar no espaço livre e no tempo para atrair um rival e quebrar a linha de marcação talvez seja mais efetivo para furar a retranca que atrair ainda mais adversários para sua área.
Não pense que o time mudou, mesmo com a mudança de posicionamento de Timo Werner, a entrada de Gundogan ou o tanque Mario Gomez no ataque. A Alemanha insistiu e cruzava bolas para seus 4 ou 5 jogadores de handebol com os pés na área. Conseguiu o empate na insistência, mas o preço de avançar tanto foi cobrado com a expulsão de Boateng, que cansado de cobrir tanto campo, levou dois amarelos.
Toni Kroos dispensa qualquer comentário. Talento puro, poder de decisão incrível. Um gol que salva uma seleção imensa e um futebol além de seu tempo - mas além demais.
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