O papel da confiança em times que propõem o jogo: o exemplo do Cruzeiro de Rogério Ceni
Entenda porque a falta de estabilidade emocional e confiança joga contra times que querem atacar e jogar ofensivamente.
09/09/2019 18h28
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foto: Vinnicius Silva / Cruzeiro
Do que é composto o jogo de futebol? A resposta é muito simples: de humanos. Afinal, são vinte e duas pessoas correndo atrás de uma bola, tentando resolver problemas complexos, como levar a bola da sua defesa ao ataque, em um prazo máximo de noventa minutos. É por ser humano que a emoção, a forma de expressão mais humana que existe, tem um papel fundamental no cumprimento daquilo que o técnico pede.
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Tática e emocional são coisas conjuntas. Não dá pra separar
O Cruzeiro de Rogério Ceni, que fez seu pior jogo contra o Grêmio, é um exemplo dessa complexidade. Se pegarmos os quinze primeiros minutos, o Cruzeiro amassou o Grêmio com bastante organização. Robinho jogou numa faixa mais próxima a Henrique, e mais recuado, jogava numa faixa sem tanta pressão, com tempo para articular o jogo aos meias David, Marquinhos Gabriel e Thiago Neves. O desenho era claro e obedecido o tempo todo, como na imagem abaixo.
Cruzeiro no ataque: Robinho recuado, meias perto da linha defensiva — Foto: Leonardo Miranda
E o que vem depois do desenho? A execução. O movimento. A dinâmica, com e sem a bola, que todos devem fazer para cumprir os objetivos mais simples do jogo: defender e atacar. É nesse trabalho que a confiança aparece.
Confiança é a superação da incerteza. Você já percebeu que crianças que estão aprendendo a andar só conseguem se manter em pé quando adquirem confiança de que não irão cair? No futebol, essa superação da incerteza se dá de várias maneiras, sendo a troca de passes a fundamental: é o passe que liga um companheiro ao outro, que produz uma crença de que quem recebe irá prosseguir a jogada, ficar com a bola e não entregar para o adversário.
Erros são emocionais, o que afeta na tática
No segundo gol do Grêmio, Marquinhos Gabriel recua para articular e cumprir aquele desenho ofensivo da primeira imagem. Os laterais abrem, os meias se movimentam para receber a bola…mas Marquinhos não vê espaço e resolve tocar para trás. Quando ele faz isso, ele confia que seu companheiro não lhe decepcionará, e isso significa receber a bola, esconder o jogo do adversário e continuar no ataque. Um erro aqui seria mortal e faria Marquinhos perder a confiança no companheiro. É justamente o que acontece.
Erro de passe no segundo gol do Grêmio — Foto: Leonardo Miranda
A mesma coisa acontece no terceiro gol do Grêmio. O Cruzeiro está atacando, propondo, tentando ser ofensivo. Robinho domina, avança, fez todo um esforço para sair da marcação e toca curto, acreditando fielmente que seu companheiro irá dominar, girar e tentar a finalização. Pode acertar ou errar, jamais saberemos. Mas Robinho confia. E Fred erra, entregando novamente a bola ao Grêmio.
Erro de passe no ataque gera contra-ataque e gol ao Grêmio — Foto: Leonardo Miranda
O papel da confiança no futebol ofensivo
Times que propõem o jogo geralmente precisam de muita confiança para dar certo. Primeiro porque eles procuram gerar o erro no adversário, não se aproveitar deles. Isso torna a missão de ataque mais complicada: requer sair da zona do conforto, coragem ao avançar no campo terreno, concentração para executar os movimentos certos e muita, mas muita confiança. Você precisa confiar que quem está à frente não perderá a bola e precisa ter a certeza de quem os zagueiros e volantes irão "segurar a bronca" lá atrás.
O técnico Mano Menezes cita a relação entre o emocional e o futebol propositivo “Se um time passa do meio-campo e consegue finalizar, a confiança aumenta. Quando um time passa duas, três vezes do meio-campo e vai perdendo a bola, os jogadores perdem a confiança de que aquele jogo irá ter sucesso. Por isso é muito difícil propor o jogo no Brasil”, relata.
Se a falta de confiança leva ao erro, então emoções negativas vão surgindo: descontrole, a ansiedade e a desconcentração. Dos 199 passes que o Cruzeiro errou ao longo do jogo, 111 se deram entre os trinta minutos finais e os quinze minutos inicias do segundo tempo. Agora perceba como esses erros se concentram na intermediária do campo, justamente na faixa de ligação entre ataque e defesa. Isso significa que o Cruzeiro de Ceni é um time organizado, mas se confiança para cumprir esse modelo.
Erros de passe do Cruzeiro: perceba a concentração deles no meio-campo — Foto: Leonardo Miranda
E como conquistar a confiança num modelo de jogo? Do mesmo modo que acontece em nossas vidas: com o tempo. Errando menos, mostrando que as expectativas serão cobradas. No futebol, o erro é normal. É impossível acertar tudo em um jogo. Mas se o Cruzeiro errou contra o Inter lá no Sul, errou contra o Grêmio e se errar contra o Palmeiras dentro desse modelo de jogo, no sábado, às 19h, a confiança estará abalada.
Por isso Rogério Ceni reconsidera o estilo que lhe fez famoso como treinador. Com pouco tempo e uma pressão imensa a vir, sabe que restaurar a confiança será fundamental para o Cruzeiro voltar a vencer. E talvez encurtar caminhos reagindo mais do que propondo. “Tentamos tudo que é possível dentro dessa formação, tentando privilegiar o jogo. Hoje em dia, as pessoas normalmente privilegiam a marcação em detrimento da construção do jogo, talvez tenhamos que mudar. A mudança drástica é na maneira de jogar, de atitude e de mentalidade de jogo”, relatou na coletiva.
Rogério Ceni, técnico do Cruzeiro — Foto: Agência i7/Mineirão
Seja qual for o destino do Cruzeiro, o problema está além do campo. Mora numa diretoria denunciada por corrupção, em salários atrasados e na falta de caixa para 2019. Fatores que também afetam a confiança. Afinal, o jogo é sobretudo humano.
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Jornalista, formado em análise de desempenho pela CBF e especialista em tática e estudo do futebol
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