Quando um jogo começa, há uma grande pressão psicológica nos jogadores. Tudo é novo, tudo pode acontecer. Lá para os cinco, seis minutos, os cenários vão ficando mais sólidos e os caminhos aparecem. Para o Grêmio, esse caminho foi Éverton. Ele saía da esquerda e buscava ficar mais pelo centro, recebendo a bola dos volantes e explorando aquele espaço que a defesa do Palmeiras dava. O mapa de calor mostra o posicionamento mais perto da área:
Movimentação bagunça a defesa do Palmeiras
O Palmeiras ficou encurralado. Não saía do próprio campo, mesmo com Dudu na direita para receber contra-ataques. Felipe Melo não estava bem. Deixava a frente da zaga o tempo todo para pressionar Matheus ou Jean Pyerre, tanto que levou amarelo aos 8 minutos. A explicação está na ideia do Palmeiras ao se defender. O time atua com encaixes no setor, ou "abordagens": cada jogador tem uma área, e quem invade esse terreno deve receber a marcação até o fim. Na imagem abaixo, Felipe "aborda" quem cai no seu setor, como manda o manual.
Felipe Melo encaixando em Éverton — Foto: Leonardo Miranda
O problema é que ele desprotegia zagueiros avançando tanto. Como Éverton é rápido, tabelava direto com Jean Pyerre e todos saíam livres, na cara do gol, justamente no espaço que Melo e Bruno Henrique não conseguiam cobrir. Como na imagem: Melo não consegue matar a jogada, Éverton faz uma tabela rápida e ataca o espaço. Os zagueiros do Palmeiras estão correndo para trás, longe da jogada. Se o Grêmio tivesse caprichado, poderia abrir o placar - Éverton errou todas as finalizações que tentou.
Tabelas do Grêmio deixam Palmeiras sem reagir — Foto: Leonardo Miranda
Palmeiras equilibra e faz o gol
Depois da substituição de Cortez, o Grêmio diminui um pouco o ímpeto. Tem o papel psicológico aí, já que o gol não veio e o Palmeiras ganhou confiança. Já eram alguns minutos de equilíbrio até a falta do gol do Scarpa. Lembre-se sempre que o papel dos técnicos é controlar o imponderável. Felipão sempre pede para seus jogadores testarem o goleiro, porque uma hora eles falham. Scarpa resolveu testar....
Felipão muda a função de Felipe Melo
Felipão promoveu uma sutil mudança de posicionamento depois do gol: mudou a função de Felipe Melo. Ao invés de pressionar quem invadia o setor o tempo todo, ele passou a jogar apenas na cobertura. Assim, ele tinha que estar próximo do local onde a jogada estava acontecendo, sempre com o corpo posicionado para a bola. Um exemplo abaixo:
Felipe Melo muda de função no segundo tempo — Foto: Leonardo Miranda
Felipe Melo virou cobertura da defesa e o Palmeiras conseguiu matar todos os ataques do Grêmio. A cobertura é importante porque ela é o recurso que o sistema de encaixes tem para se proteger. Aqui vale a reflexão: sempre vai dar errado. Perseguir individualmente jogadores é um risco grande, e ter alguém na sobra, preparado para ajudar quando as coisas dão errado torna o time mais seguro. O encaixe deixa o jogador muito passivo ao adversário. Se há grandes driblares do outro lado, as chances de um jogador ficar atrás e perder a bola são imensas.
Felipe Melo cobrindo uma jogada — Foto: Leonardo Miranda
Grêmio com a bola, mas sem criatividade
O roteiro do jogo depois do gol foi o mesmo até o fim do apito final: o Grêmio com a posse, mas sem criar nada de perigo com um Palmeiras extremamente seguro na defesa. O número de finalizações prova: o Grêmio finalizou 17 vezes e o Palmeiras chutou 10. Na qualidade dessas finalizações, os times foram iguais: 4 chances para cada lado. A mais perigosa foi a bola do Dudu na trave.
É aquela velha questão: não adianta ter a posse se ela não produz jogo. O objetivo da posse de bola é criar chances de gol, ocupar o campo ofensivo e controlar o jogo com essa agressividade. Se um time "de posse" não cria nada, como podemos falar que joga bem? O Grêmio não jogou bem. Foi lento, forçou poucos passes para o gol, tocou muito de lado. Isso tirou Maicon e Matheus do jogo. O primeiro foi líder de passes na partida: 114. Mas apenas um gerou finalização. Olha o mapa de calor:
Maicon longe do gol — Foto: Leonardo Miranda
Felipão diz que tudo está em aberto, que o Grêmio faz jogos melhores fora de casa. Renato acredita na vitória. Só sabemos que esses dois rivais farão mais um capítulo de uma grande história no futebol na próxima terça-feira, dia 27, no Pacaembu.
Por Leonardo Miranda
Jornalista, formado em análise de desempenho pela CBF e especialista em tática e estudo do futebol
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