quarta-feira, 21 de agosto de 2019

As reflexões necessárias sobre a demissão de Fernando Diniz do Fluminense

Sem radicalismo ou polêmica: confira argumentos contra e a favor da demissão do técnico.

 
As reflexões necessárias sobre a demissão de Fernando Diniz do Fluminense
foto: Lucas Merçon/Fluminense
Antes de você ler, um aviso: esse texto não será uma condenação do treinador pela péssima campanha no Brasileirão, elencando os pontos ruins de seu time e concluindo que de nada adianta jogar bem se não vence, ou falando que o que importa é o resultado. Esse texto também não será um elogio irrestrito ao estilo de jogo do Fluminense, condenando sua demissão e criticando coisas como a "mesmice" ou o "resultadismo" em prol de um futebol bonito.
Vamos fazer diferente. Num momento de tanto radicalismo e polêmicas fáceis, esse texto será um exercício racional, com argumentos pró e contra.

Diniz foi demitido pelos resultados

O que motivou a demissão de Diniz foi o resultado. Apenas uma vitória nos seis jogos no Brasileirão depois do retorno na Copa América, e duas no restante da campanha. É muito pouco. Com o fim do primeiro turno e as quartas da Sul-Americana, a diretoria fez o que qualquer diretoria faz no mundo: buscou aumentar o rendimento do time com a demissão, já que as últimas duas atuações mostraram não apenas falhas no modelo de jogo, mas também pouco poder de reação. Diretorias sempre falam em pecar por ação, não por omissão. O que você faria? É extremamente complicado pregar a continuidade de um trabalho que rende tão pouco, e o próprio Diniz reconhece isso.
Yony González, Fluminense, Fluminense x CSA, Maracanã — Foto: André Durão/GloboEsporte.com
Yony González, Fluminense, Fluminense x CSA, Maracanã — Foto: André Durão/GloboEsporte.com 

Mas nem tudo é resultado, e o time tinha um estilo próprio

A posição na tabela incomoda, e parece ser apenas isso. Diniz conseguiu implantar uma filosofia de jogo voltada ao ataque e à manutenção da posse de bola. Em 44 jogos sob seu comando, o Fluminense teve menos posse que o adversário em apenas três oportunidades. Em três deles, teve mais de 70% de posse, o que significa mais de quarenta minutos trocando passes. É realmente admirável fazer isso com um elenco sem tantos nomes e que sofreu tantas mudanças ao longo da temporada, com Pedro retornando de lesão, Nenê chegando agora e Everaldo saindo para o Corinthians.

O Flu criava, finalizava demais...e errava muito

O futebol não é um jogo entre quem tem mais a bola ou não, mas sim entre quem faz mais gols ou não. Falamos disso aquiaqui e também nesse texto. Vamos ser honestos, essa polêmica sobre posse de bola ou não já deveria ser superada. É uma falsa polêmica, feita para reverberar opiniões polêmicas e divisões, não uma discussão sobre o jogo em si. O olhar deve ser outro: o que o Fluminense fazia com sua posse de bola? Como fazia para desorganizar o adversário?
Chegamos aí no primeiro ponto: o Flu era um time que chutava MUITO a gol. Contra o CSA foram 31 oportunidades criadas, mais oportunidades do que o...Manchester City contra o Tottenham. Vendo o mapa de conclusões dos últimos dez jogos, veremos que a maioria dos chutes foi da pequena área e a outra metade de fora da área. O time tentava fazer a bola entrar, e foram muitos os erros de arbitragens e bolas fáceis que Pedro, Yony ou João Paulo erraram. Contra o CSA foi um festival de gente finalizando errado de primeira, bola na trave.
Mapa de finalizações do Fluminense — Foto: Leonardo Miranda
Mapa de finalizações do Fluminense — Foto: Leonardo Miranda
Você pode falar que o caminhão de gols perdidos não é culpa do treinador. De fato não é culpa, é responsabilidade. Mas aí é tema para outro texto....

Havia MUITOS problemas de organização na defesa

Apesar de errar muito, o Fluminense conseguia seus gols. Foram apenas dez vezes que o Fluzão não fez gol sob o comando de Diniz, passando em branco em apenas cinco vezes no Brasileirão. Mas na defesa o time sofria demais. Foram 48 gols sofridos em 44 jogos, o que dá uma média superior a um gol por jogo. É muita coisa! Não vence quem faz mais gols que o adversário? O Flu insistia e até colocava a bola na casinha, mas levava muito gol. Isso é um problema e merece atenção. O mapa de passes deixa claro: o Flu desprotegia demais a defesa. Olha quantas conclusões aconteceram na pequena área.
Finalizações sofridas pelo Fluminense — Foto: Leonardo Miranda
Finalizações sofridas pelo Fluminense — Foto: Leonardo Miranda
Eram muitos os problemas defensivos. Foram muitos os gols tomados de bola parada, como contra o Ceará e Vasco, e muitos gols tomados em jogadas na qual a defesa tinha que se recompor. Um dos três gols do Athletico deixa isso evidente: o Flu fica com a bola no ataque e perde a posse. O que deve ser feito nesse momento? Os atacantes precisam pressionar, tirar o espaço, matar a jogada, nem que seja na falta. O nome no tatiquês disso é "pressão na bola", e o Flu praticamente não tinha isso. Dois gols ajudam a ilustrar:
  • O primeiro gol do Athletico, no início de junho, começa numa jogada na qual o Flu perde a bola na defesa e demora a evitar que a jogada se desenvolva em sua defesa. Além da lentidão dos atacantes, Airton dá muito espaço para Bruno Guimarães achar o passe.
  • Erro de pressão na bola no primeiro gol do Athletico — Foto: Leonardo Miranda
  • Erro de pressão na bola no primeiro gol do Athletico — Foto: Leonardo Miranda
  • O próprio gol da demissão: o Fluminense perde a bola lá no ataque e o goleiro acha um passe rápido para o atacante. A defesa está desorganizada, então o que é preciso fazer? Evitar que a bola passe do jogador que está com ela. Pressiona, encurta, coloca intensidade. Não deixa sair...é tudo o que o time não faz.
  • Erro de pressão na bola, mesmo com vantagem, no gol do CSA — Foto: Leonardo Miranda
  • Erro de pressão na bola, mesmo com vantagem, no gol do CSA — Foto: Leonardo Miranda
  • Esses erros nos levam a uma importante reflexão: para jogar no ataque é preciso saber se defender. E não é pouco não. O futebol ofensivo, como todos nós queremos ver, envolve uma grande dose de conteúdos defensivos nos times, como velocidade para roubar a bola, posicionamento para evitar contra-ataques....no livro "Guardiola Confidencial", Pep Guardiola inicia um dos capítulos falando que o que ele mais treina é defesa. Porque sabe que todo time jogará por uma bola, e se os jogadores não souberem fazer, uma bola pode ser fatal.

    No fim das contas, faltou equilíbrio

    O treinador não consegue controlar o resultado, por isso ele nunca é o culpado pelo placar final. Ele consegue controlar o treino, aumentar o rendimento dos jogadores e montar um time competitivo. Ele é dono da lógica que o grupo deve seguir, do que devem priorizar ou não. Por isso o treinador é responsável pelo resultado. Responsabilidade é diferente de culpa.
    Diniz não é culpado da má fase do Fluminense, mas é responsável pelos erros defensivos que o time repete desde março. Era assim também no Athletico, quando o elenco tinha maior nível técnico (Thiago Heleno, Bruno Guimarães) e os erros se repetiam. Por isso o trabalho desenvolvido foi incompleto. Faltou conteúdo defensivo. Mais intensidade sem a bola, em especial nos momentos em que o adversário recupera. Faltou equilíbrio na proposta de jogo.
  • Diniz não vai salvar o futebol brasileiro

    Uma última reflexão. Muita gente comemora a demissão de Diniz e muita gente lamenta. Nem um, nem outro.
  • Fernando Diniz, técnico do Fluminense — Foto: Lucas Merçon
  • Fernando Diniz, técnico do Fluminense — Foto: Lucas Merçon 
  • Tem que ser muito espírito de porco ou de mal com a vida para comemorar que um profissional que estudou e suou para chegar onde está seja demitido. Gostar ou não é outra coisa, mas seria mais saudável apenas reconhecer, como esse texto está fazendo, os pontos bons e ruins. No fim das contas Diniz foi demitido de forma justa, já que o time tinha problemas e não tinha resultados.
    Há a visão de que Diniz é um técnico corajoso, inquieto, que não se limita a jogar por uma bola. Isso é muito legal, mas só isso não vai fazer muita diferença no nosso país se ficar apenas na ideia. O campo precisa traduzir, até porque o futebol vive no campo. Não é um jogo de extremos: defender incondicionalmente uma proposta apenas pela estética, esquecendo que o futebol envolve outros predicados e que a estética é pessoal, e condenar que se jogue de uma forma que não seja aquela convencional.
    O problema está no radicalismo. Treinadores devem ser avaliados de forma racional, sem preferências estéticas ou gostos pessoais. Nenhum treinador irá mudar o futebol brasileiro apenas por jogar no ataque. Treinadores são atores dentro de um jogo ainda maior, que envolve a CBF, os clubes, a imprensa e também o torcedor. Lembre-se que a pressão que multilateral bons trabalhos começa na arquibancada. E que a necessidade de resultados vem da desorganização financeira que a maioria dos clubes, incluindo o Fluminense, vive. Não dá para apontar dedos. Todos somos culpados pelo futebol que temos, e não é o Fluminense levando muitos gols que resolverá isso.
  • Diniz lembra muito Cilinho, famoso técnico do "Menudos" campeão paulista em 1985. Os dois já disseram que preferem treinar clubes pequenos, sem tanta pressão, porque o que realmente querem mudar é a questão humana do jogo. Essa entrevista do blog com Fernando Diniz deixa claro.
    Por fim: o futebol é maior do que o jogar bonito. Quem gosta mesmo de futebol, gosta das peladas e dos jogos de Premier League, gosta dos estádios caindo aos pedaços e das arenas, gosta dos técnicos pragmáticos que sabem montar times competitivos e vê mérito em técnicos que priorizam a ofensividade. Deveríamos discutir mais o futebol do que criar falsas guerras entre pragmatismo ou beleza.

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