Luxemburgo x Felipão e o eterno dilema do futebol brasileiro
Poucos técnicos conseguiram encapsular sentimentos e paixões como os dois antigos rivais que se encontram neste sábado (27), no jogo entre Palmeiras e Vasco.
27/07/2019 15h03
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foto: GloboEsporte.com
Luiz Felipe Scolari e Vanderlei Luxemburgo representaram, cada qual seu modo, duas respostas para esse uma pergunta que resume com precisão o futebol brasileiro. Hoje essa história ganha mais um capítulo no jogo Palmeiras e Vasco, às 17 horas (de Brasília).
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os duelos entre Felipão e Luxemburgo sempre foram conflitos ideológicos. Em 1995, Vanderlei Luxemburgo era visto como técnico mais visionário e moderno do país. Ele tinha saído do Palmeiras para treinar o time do coração e tinha “o melhor ataque do mundo” com Sávio, Romário e Edmundo. Tinha tudo para dar certo, até que surgiu o Grêmio de Felipão, que conseguiu a classificação no Olímpico após um cruzamento de Paulo Nunes para Jardel testar no gol.
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O Globo de 1995 — Foto: Leonardo Miranda
Aos 32 do segundo tempo, briga geral e Luxemburgo acusa Felipão de ter lhe agredido com um soco. O gaúcho nega, dizendo que foi um empurrão. Telê Santana chegou a chamar o Grêmio de “anti-futebol”. A imprensa do Rio de Janeiro disse o Flamengo perdeu para si mesmo. A imprensa gaúcha comemorava a força do Grêmio, que rumou para ser campeão da Libertadores.
A tensão daquele confronto se estenderia nos jogos entre Grêmio e Palmeiras em 1996, ou nos encontros de Palmeiras e Corinthians em 1998. Na imprensa e no imaginário popular, aquela tensão era mais que futebol. Era um duelo de ideias. Era o eterno confronto entre beleza e pragmatismo. Entre o real e o romântico. Entre o bonito e o feio. Entre jogar bem de um certo modo ou jogar mal se não joga daquele modo. É esse dilema que dita ideais estéticos e como devemos avaliar e cobrar técnicos e jogadores. Que fornece as bases para sabermos se um time joga bem ou joga mal.
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Felipão e Luxa em 2012 — Foto: Leonardo Miranda
Um dilema que jamais terá solução
Toda ideologia ou conceito no nosso mundo é composta uma lógica interna. “Faça as coisas desse jeito e chegue a um determinado objetivo”. O que muda não é o objetivo - que no futebol é sempre fazer mais gols e vencer. O que muda é o jeito de chegar lá. Todos temos um tempo de vida, mas o que torna uns mais diferentes dos outros é o jeito como gastamos nosso tempo e as causas a qual nos dedicamos.
Como nunca conseguimos entrar em acordo e ver o outro lado, vivemos numa reclamação eterna, sempre cobrando além do que uma ideia ou uma pessoa pode dar. Quando um time ganha como o Cruzeiro do Mano, o torcedor reclama porque o time é feio. Quando o Fluminense perde com 70% de posse de bola e o jogo é gostoso de ver, não está bom também, porque o time perdeu.
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Revista Placar de 1971. Os técnicos sempre estão matando o futebol, mas e quando eles vencem, são reconhecidos? — Foto: Leonardo Miranda
Luxa e Felipão sempre foram vencedores, mas nunca esteve bom para eles. Por isso são tão amados e odiados ao mesmo tempo. Em 1996, Luxemburgo montou um dos times mais encantadores do nosso futebol, com Luizão, Djalminha, Rivaldo e Muller, mas a equipe foi mal no Brasileirão. O diagnóstico era de que aquilo não bastava, e o Palmeiras precisava de um técnico com experiência para o projeto de ganhar a Libertadores. O escolhido foi Telê Santana, que mal de saúde, deu lugar à Felipão. Na época ele era visto como garantia de título. E foi.
O Grêmio estava cansado de sofrer e demitiu Celso Roth em 2011 porque queria um novo tipo de jogo. O escolhido foi Caio Júnior e seu “Barcelona dos Pampas” que durou oito jogos até a chegada de Luxemburgo. Não é exagero dizer que aquela equipe com Elano, Zé Roberto e Souza jogou o fino da bola no Brasileirão. A crítica? Ter perdido para o Palmeiras de Felipão na Copa do Brasil mesmo sendo tecnicamente melhor ou tendo mais dinheiro.
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Luxemburgo sempre mostrou em coletivas que gosta de times ofensivos — Foto: Leonardo Miranda
Talvez tenha faltado um pouco de Felipão em Luxa na Libertadores, como em 1994. O Palmeiras era favorito e tinha feito 6 a 1 no Boca e enfrentaria o São Paulo nas oitavas, depois de um 0 a 0 antes da Copa do Mundo. O Palmeiras atacou do início ao fim, como Luxa sempre quis, e se abriu. O São Paulo soube lidar direitinho com isso: Telê colocou Válber e Axel, Cafu no meio e o Tricolor matou o jogo em dois contra-ataques de Euller.
Ou de Luxa no Felipão, como na campanha do Chelsea fez na Premier League em 2008. A ideia era básica e simples demais para o Chelsea, que precisava de uma organização ofensiva menos direta e mais com bola no chão. Anelka reclamou, Lampard reclamou e Felipão não durou nove meses com um time que tinha elenco para ser campeão e não jogou o que podia jogar. Até o primeiro gol o Brasil era melhor. Bastou abrir o placar para a pressão psicológica abalar o time. Dos 7 gols, 5 se deram em roubadas de bola na saída de Luiz Gustavo e Fernandinho.
Os dois têm muitos méritos em todas as suas conquistas. Assim como muitos erros nas derrotas. Mesmo assim, sempre apanharam. Sempre se cobrou mais deles, talvez além do que possam dar.
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Scolari visita Luxemburgo no Palmeiras, em 2008 — Foto: Leonardo Miranda
Aí está o pulo do gato: quando não conseguimos ver o mérito de uma ideia, o lado bom daquele jeito de fazer as coisas, seja lá de quem for, quem perde é o futebol. Não é um time, não é o técnico. É o futebol.
Porque se criam ilusões sobre os limites e a capacidade de uma pessoa ou um técnico. Você vai cobrar que um time do Luxemburgo ganhe sempre Brasileirão, como aconteceu desde a volta dele ao Brasil, em 2006? O Flamengo jogou bem no Brasileirão de 2011, mas mesmo assim, Luxemburgo foi demitido ainda no início de 2012 por conta dos resultados e da briga com Ronaldinho. O mesmo com Felipão: ele ganhou uma Copa do Brasil em 2012 com um elenco abaixo da crítica, acabou de ser campeão brasileiro e nunca está bom?
Esse tipo de cobrança irreal e presa a uma imagem romantizada do passado cria um ciclo vicioso. Para atender críticas, um clube inicia o ano com um projeto visando uso da base, estilo de jogo ofensivo e que siga a tradição do clube, mas na primeira instabilidade, acompanhada de uma derrota num clássico ou no Estadual, a ansiedade por resultados vem e toma conta do clube. O ambiente se torna insustentável, um técnico com uma ideia de jogo que não agrada a torcida, mas que é mais segura para aquele momento e consegue resultados rápidos. Quando a competição sobe de nível, o técnico não consegue melhorar o time, e com a eliminação, é demitido. Começa tudo de novo…
No fundo, não existe um bom futebol, um ideal de jogo. Tudo pode ser vencedor e perdedor ao mesmo tempo. São infinitas possibilidades, todas com méritos próprios. Por que não elogiar, ver esses méritos? Felipão e Luxemburgo são mais que técnicos, são instituições. Impossível não querer ver um jogo entre os dois.
Jornalista, formado em análise de desempenho pela CBF e especialista em tática e estudo do futebol
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