quarta-feira, 17 de julho de 2019

As ideias táticas do Brasil de 1994, o time brasileiro mais próximo de Cruyff que já existiu

Muita posse de bola, marcação por pressão, armação coletiva das jogadas sem um camisa 10. Seleção do Tetra era moderna até demais para a época, o que rendeu críticas aqui e elogios lá fora.

17/07/2019 12h52
As ideias táticas do Brasil de 1994, o time brasileiro mais próximo de Cruyff que já existiu
foto: Ben Radford /Getty Images 
O que aconteceria se Pep Guardiola fosse treinador da Seleção Brasileira? Poderíamos ver um time com muita posse de bola, toques curtos para dominar o jogo e uma marcação forte para retomar sempre a bola. A pergunta se tornou muito frequente após o 7 a 1, mas existe um time em nossa historia que fez muito parecido: o Brasil do Tetra, que hoje (17) completa 25 anos de uma conquista ao melhor estilo contra tudo e todos.
A montagem do time partiu de duas ideias: o Brasil precisava aguentar o ritmo no forte calor do verão americano, com jogos à tarde, aos 40ºC, e não havia um camisa 10 em grande fase, já que Neto não estava na forma física ideal e Valdo e Luís Henrique não cumpriam o papel sem a bola. Parreira solucionou esses problemas pensando o o controle do jogo pela posse de bola. Uma ideia pouco entendida na época e confundida com pragmatismo, já que nem sempre o jogador que recebia a bola tentava um passe vertical.
Críticas a Zinho eram comuns na Copa, assim como a Parreira. Imprensa pedia mais um atacante. — Foto: Acervo da Folha
Um equívoco imenso. Para Johan Cruyff, o Brasil era um herdeiro perfeito das ideias preconizadas no Ajax e na Holanda de década de 1970: ter a bola sempre. Primeiro, como uma arma ofensiva, para escolher onde e como atacar. Depois, para defender. Afinal, se o adversário não tem a bola, logo não poderá fazer gols. Uma preferência que o lendário holandês deixou claro na Folha de São Paulo, na qual atuou como colunista.
Eu diria que só o Brasil, apesar de seus detratores, e a Holanda souberam controlar o jogo e ter a bola em seu poder. Os brasileiros foram os que, até agora, tiveram mais tempo de posse de bola. Que ganhe o Brasil. De forma clara e sem qualquer dúvida. Nunca mostrei tão abertamente minhas preferências, mas agora é diferente. O futebol não é só conservar a bola ou escondê-la. O futebol é manter o controle da bola para buscar o gol. Só o Brasil fez isso. E, por isso, agora que o título está em jogo, quero que ganhe esta opção pelo futebol-espetáculo

Organização ofensiva com meias e laterais por dentro e muitas tabelas

Carlos Alberto Parreira pensava esse controla da bola com uma organização ofensiva à frente da época. Algo inédito no futebol brasileiro pelos movimentos mecânicos e definidos. O time começou a Copa num 4-4-2, com Zinho e Raí abertos pelos lados. Com o time no ataque, eles flutuavam e tabelavam entre si, chamando um lateral (normalmente Jorginho) para pensar a jogada. Romário e Bebeto esperavam junto à linha defensiva, como na imagem - na qual Mauro Silva avança para criar superioridade junto à dupla de meias.
Brasil articulando as jogadas com dois meias e dois atacantes — Foto: Leonardo Miranda
Brasil articulando as jogadas com dois meias e dois atacantes — Foto: Leonardo Miranda 
Desse modo o Brasil tinha sempre muitas opções de passe. Não tinha espaço? Toca para trás e recomeça a jogada. Um outro aspecto importante era o papel dos laterais: eles eram "atacadores de espaço" ao invés de jogadores de lado. Sempre quando havia espaço por dentro, eles buscavam entrar por dentro e avançar para a área, fazendo o passe final a Romário. Algo que acontecia bastante quando Bebeto saía da área, procurando levar um zagueiro e abrir espaços para a chegada de quem vinha de trás.
Brasil entrando no ataque: tabelas por dentro e mobilidade de Bebeto — Foto: Leonardo Miranda
Brasil entrando no ataque: tabelas por dentro e mobilidade de Bebeto — Foto: Leonardo Miranda
Na primeira fase, os jogos contra Rússia e Camarões foram plenamente controlados pelo Brasil, que despontou como favorito na imprensa estrangeira. Foi contra os Estados Unidos, pelas oitavas, que a ideia de controlar o jogo pela bola ficou clara. O Brasil teve chances e perdeu gols, mas nunca chegou a ser ameaçado no sufocante calor de Stanford.

Dunga, o grande articulador

Controlar o jogo pela posse de bola exige um tipo de jogador especial. Um volante defensivo, mas que inteligente o suficiente para pensar todo o jogo. No Dream Team de Cruyff no Barcelona, essa peça era Guardiola. No Barcelona, é Sergio Busquets. No Brasil de 1994, ninguém pensou tanto o jogo como Carlos Dunga. Talvez o maior injustiçado dessa campanha.
Dunga não era o primeiro volante do time, papel de Mauro Silva. Com a bola ele era quase um meia que avançava e organizava os movimentos de Zinho, Mazinho e dos laterais. Era dele o passe que clareava a jogada ou que encontrava Romário ou Bebeto fora da área, ou o que retomava a jogada da defesa. Contra a Itália na final, uma das melhores atuações de um jogador na história das Copas: passes de primeira, lançamentos precisos e coberturas defensivas no tempo certo.
Dunga na final contra a Itália: aula de futebol — Foto: Leonardo Miranda
Dunga na final contra a Itália: aula de futebol — Foto: Leonardo Miranda
Aí vai um dado que comprova a qualidade de Dunga, e o quão é ignorante chamá-lo de brucutu apenas pelo apelido injusto da "Era Dunga". Dunga é o jogador que mais trocou passes em uma edição na história da Copa do Mundo. O dado é do Opta Sports, que computa estatísticas desde a edição de 1966.
Os 10 jogadores que mais fizeram passes em todas as Copas
PosiçãoJogadorNúmeroPasses
1Dunga1994692
2Xavi2010657
3Philipp Lahm2014651
4Mascherano2014633
5Toni Kroos2014626
6Dunga1998575
7Andrea Pirlo2006565
8Franz Beckenbauer1974555
9Buquets2010543
10Xabi Alonso2010520

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