Suarez e Cavani, a dupla móvel e inteligente que simboliza o estilo uruguaio de jogar
Os dois jogam numa espécie de arco e flecha: nunca ocupam o mesmo espaço em campo e buscam se completar para armarem, quase que sozinho, todas as jogadas do Uruguai.
25/06/2019 13h03
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foto: Getty Images
No início do gol do Uruguai contra o Chile, o time celeste tem apenas três jogadores no ataque. Suárez, o camisa 9 goleador no Barcelona, precisa sair da área para receber a bola, enquanto Cavani fica na cola dos zagueiros, fixando os defensores por ali. Não há nenhum jogador mais criativo do Uruguai perto deles, e apenas um ponta fica aberto. É ele quem vai receber a bola.
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Início do gol do Uruguai — Foto: Leonardo Miranda
Em poucos segundos, a jogada se desenha de forma vertical. Suarez tocou e já correu para perto do gol. Apesar de estar olhando para o companheiro, ele posiciona seu corpo de frente. Assim pode alcançar qualquer bola que chega lá. Veja na imagem que ele está livre, afinal, os três zagueiros estão tentando cobrir o espaço de Cavani, que vai girar e cabecear pro fundo do gol.
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Cavani irá converter o cruzamento em finalização — Foto: Leonardo Miranda
Em teoria é uma jogada fácil de defender. O Chile tem grande superioridade numérica - você pode ver os dez jogadores de linha concentrados no setor. A defesa está organizada e alinhada com cinco jogadores. Mesmo assim, Suárez e Cavani conseguem produzir um baita estrago com uma simples movimentação.
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Suárez e Cavani antes de Uruguai x Arábia Saudita — Foto: Reuters
Não é novidade observar o que a dupla, quase que sozinha, provoca de dano nas defesas rivais. Eles são a dupla de ataque do Uruguai desde 2011. Ao todo, fizeram 106 gols - 48 para cada - e incorporam o estilo uruguaio de jogar que Oscar Tabárez trouxe de volta em 2006: são dinâmicos, móveis, resolvem problemas além de suas funções e participam de todas as fases do jogo.
Muito que fazemos ultimamente é deixá-los conviver mais na equipe, para que tragam mais problemas ao adversário. Não se pode propor nada a eles que não tenham experimentado. São dois jogadores de elite no futebol mundial. Não dá para se discutir quem é o maior - Oscar Tabarez
A chave para entender a movimentação que tritura defesas em poucos segundos começa no posicionamento sem a bola. O Uruguai quase sempre joga no 4-4-2 com duas linhas de quatro. Cavanio e Suárez ficam na frente, mas participam dos momentos defensivos. Seja ficando mais à frente, como referências nas bolas longas dos zagueiros ou do goleiro Muslera, seja voltando um pouco mais para impedir a saída do volante, papel geralmente de Cavani, como na imagem.
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Uruguai se dfeende num 4-4-2 bem simples, com duas linhas de quatro — Foto: Leonardo Miranda
É com a posse de bola que o estrago começa. Cavani e Suarez fazem um intenso revezamento de espaços no ataque. Quando um busca a bola, o outro procura o limite da linha defensiva do rival para receber e já fazer o gol. Aqui, Suarez afunda para dar opção de passe ao meia do lado direito, que está com a bola. Cavani fica parado. Mesmo impedido, sabe que será mais útil ocupando uma faixa mais à frente. Assim, pode chamar a defesa do Chile para perto do gol e dar mais tempo para Suarez pensar a jogada.
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Cavani em falso impedimento enquanto Suarez busca a bola — Foto: Leonardo Miranda
Uma mobilidade tão grande assim tornam os dois os grandes articuladores da equipe. Se movem o tempo todo, procuram a bola, dão profundidade. É um leque imenso de alternativas de jogo que naturalmente a equipe entende como sendo o caminho mais fácil para levar a bola ao gol.
Dentro da área a movimentação continua. Talvez essa seja o forte do Uruguai há anos: uma presença constante e rápida na área, com ao menos quatro jogadores bem espalhados, de ponta a ponta, para tornar qualquer rebatida ou cruzamento um perigo. Suarez e Cavani colaboram não se prendendo ao centro do campo ou na cola dos zagueiros, mas abrindo e buscando cruzamentos, como Suarez faz nesse lance.
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Movimentação dentro da área — Foto: Leonardo Miranda
Esses movimentos ajudam a criar um time de jogo diretor e vertical. Quando há jogadores que passam o tempo todo da linha da bola e sempre buscam dar profundidade ao time, na cola da linha da defesa, a equipe se espalha por um espaço maior em campo. Há argumentos para usar a bola longa como principal mecanismo, porque existe sempre jogadores prontos para receber o passe. É diferente do chutão, onde não há a intenção ou direcionamento.
O jogo vertical do Uruguai é responsável pelo sucesso do time nos últimos dez anos. O Uruguai foi campeão da Copa América de 2011, quarto colocado na Copa do Mundo de 2010 e presença constante em fases eliminatórias. Sempre com o jogo combativo, elétrico e plural de seus centroavantes, o que Oscar Tabarez chama de “plenitude futebolística”. Se depender dessa edição de Copa América, o topo não tem data para acabar.
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Jornalista, formado em análise de desempenho pela CBF e especialista em tática e estudo do futebol
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